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BC vê barulho, mas não pressão do Planalto contra autonomia, dizem fontes

Vista aérea da fachada do prédio do Banco Central, no Setor Bancário Sul, em Brasília - Por Marcela Ayres
Vista aérea da fachada do prédio do Banco Central, no Setor Bancário Sul, em Brasília Imagem: Por Marcela Ayres

23/08/2021 13h07

Por Marcela Ayres

BRASÍLIA (Reuters) - O Banco Central vê barulho quanto ao efetivo apoio do Planalto à sua autonomia formal, sancionada em lei deste ano, mas não movimento ou pressão do presidente Jair Bolsonaro contra o status recém-adquirido, disseram duas fontes da autoridade monetária à Reuters, sob condição de anonimato.

"(Não há) nada direto conosco", afirmou uma das fontes.

O fato de o procurador-geral da República, Augusto Aras, ter se manifestado no fim da abril pela inconstitucionalidade da lei de autonomia acendeu internamente o alerta no BC, até pela ligação entre Aras e o presidente.

Por isso, notícias de que Bolsonaro estaria arrependido quanto à autonomia não foram percebidas como surpresa, prosseguiu a fonte, destacando, por outro lado, que não houve pressão quanto ao tema e que a expectativa segue sendo de que o Supremo Tribunal Federal (STF) irá chancelar a autonomia.

Na sexta-feira, a agência de notícias Associated Press publicou que Bolsonaro confidenciou a interlocutores ter se arrependido da lei de autonomia, que assinou em fevereiro.

À Reuters, o Palácio do Planalto respondeu, via assessoria de imprensa, que Bolsonaro é favorável à autonomia do BC.

O STF deve julgar nesta quarta a validade da lei, que estabeleceu mandatos fixos para presidente e diretores do BC. Esses mandatos não coincidem com o do presidente da República com o objetivo de resguardar a instituição de ingerência política.

A contestação da lei foi apresentada pelo PT e PSOL e o relator no STF da ação, ministro Ricardo Lewandowski, julgou o pedido procedente. Tanto Lewandowski quanto Aras justificaram que o projeto de lei sobre o tema deveria ter saído do Executivo, e não do Senado, uma vez que somente a Presidência da República poderia propor a perda de poder sobre um órgão da administração pública.

Uma terceira fonte da equipe econômica ponderou que, a despeito dos barulhos políticos —afinal, a autonomia do BC tira da alçada do Planalto qualquer influência sobre a gestão monetária—, a agenda da autonomia integrou as discussões sobre o plano de Bolsonaro para o governo desde antes da campanha eleitoral de 2018.

"Está com momento de muito ruído", disse a fonte, complementando que dentro da equipe econômica a avaliação é de que a inflação alta deriva em grande parte do aumento nas commodities, sendo também influenciada pelo ritmo mais forte da retomada econômica.

No time do ministro Paulo Guedes, há o sentimento de que a autonomia do BC foi um feito com custo de aprovação política, tentado sem sucesso por governos anteriores, e que não há nenhum sentido em retroceder no status conferido à autarquia.

Essa leitura tem sido passada a Bolsonaro, apesar de o presidente ter culpado, nos últimos dias, os governadores e as medidas de lockdown pela alta de preços na economia.

No Twitter, o ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, escreveu na sexta-feira que "a relação do governo com o BC é excelente" e "que a autonomia da autoridade monetária é um avanço histórico e irreversível".

"Parem de inventar fagulhas que não existem. Responsabilidade, por favor. Não existe nenhuma, repito, nenhuma crise entre o presidente Bolsonaro e o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto", disse.

O BC tem como principal missão combater a inflação e, nesse sentido, a liberdade para mexer na taxa básica de juros é seu principal instrumento.

Campos Neto tem martelado em ocasiões recentes que a autoridade monetária fará o que for preciso para ancorar as expectativas de inflação, que têm se distanciado da meta para 2022 em meio ao expressivo aumento dos preços.

Nos 12 meses até julho, a inflação medida pelo IPCA beirou 9%, distante da meta central de 3,75% para este ano, com margem de 1,5 ponto percentual para mais ou menos. Para 2022, as expectativas mais recentes apontam para um IPCA de 3,93%, acima da meta central de 3,50%.

O BC já manifestou a intenção aberta de levar a Selic —hoje em 5,25%— para o patamar restritivo, isto é, que atua no sentido de desaquecer a economia. No mercado, a expectativa é de que 2022, ano de eleições presidenciais, comece com a taxa em 7,5%.

Procurado, o BC não se manifestou até o momento.

(Por Marcela Ayres, com reportagem adicional de Lisandra Paraguassu)

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