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Tentativa de politizar processo do Copom preocupa diretores do BC, diz Campos Neto

05/04/2023 09h56

Por Fabrício de Castro

SÃO PAULO, 5 Abr (Reuters) - O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, disse nesta quarta-feira que tentativas de politizar o processo de decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) deixam os diretores da autarquia "bem preocupados".

Em evento do Bradesco BBI, Campos Neto também afirmou que o que foi anunciado até o momento sobre o arcabouço fiscal ameniza preocupações com uma trajetória mais explosiva da dívida pública, mas ressaltou que ainda é preciso acompanhar como a proposta vai caminhar no Congresso e que há uma "ansiedade" com a questão das receitas.

O presidente do BC disse que o processo de decisão do Copom é "totalmente técnico" e que o mais relevante para os diretores que compõem o colegiado é ter capacidade técnica para desempenhar aquela função.

Os comentários vieram em meio a críticas recorrentes do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à condução da política monetária por parte do BC, com grande pressão de Lula pela redução da taxa Selic, atualmente em 13,75% ao ano.

"A tentativa de politizar um processo que é totalmente técnico, isso é uma coisa que deixa os funcionários da casa e os diretores de uma forma geral bem preocupados", disse Campos Neto, defendendo a autonomia não apenas dele, mas dos outros diretores do BC em se manifestarem sobre a economia.

"Tem milhares de pessoas, diretores da casa, que sabem que passam a noite rodando modelos, fazendo toda a parte de estimativa, de projeção... Não tem nada na decisão que é política, é sempre técnica", disse Campos Neto.

"A ata, para quem segue a ata e o comunicado, é uma sequência de comunicados que quem analisa isso observa a mudança nas palavras e nas expressões através do tempo, então, não tem nada ali que uma pessoa possa chegar e ler um comunicado e falar que 'foi isso ou foi aquilo'. É uma coisa que requer um pouco mais de ciência, e é a forma do Banco Central se comunicar", disse o presidente da autoridade monetária.

Segundo Campos Neto, o BC tem tentado ser mais transparente, mas ele disse que sua impressão é que o Brasil se encaminhe para um sistema mais parecido com o dos Estados Unidos, em que os diretores do BC vão se comunicar mais e dizer suas opiniões, algo que o presidente da autarquia considera como "importante".

"Personalizar em uma pessoa é muito ruim, isso tem acontecido mais recentemente e eu acho ruim... e buscamos espelhar sempre no comunicado exatamente aquilo que foi discutido", afirmou.

Campos Neto também defendeu a importância do sistema de metas de inflação e lembrou que atualmente poucos países não o utilizam.

"A meta quem determina é o governo, não o Banco Central...", ponderou o presidente do BC, para depois acrescentar que ruídos afetam o canal das expectativas.

"O canal de expectativas é uma forma de trazer uma promessa que você faz a médio e longo prazo para ter ganho a valor presente. Isso só acontece quando o canal das expectativas funciona bem; qualquer ruído sobre a possibilidade de execução do que foi anunciado faz com que esse canal fique mais entupido... Diminuir o ruído é importante", disse.

ARCABOUÇO FISCAL

Campos Neto também disse que é preciso reconhecer o esforço do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, para reduzir os riscos fiscais do país com a apresentação do novo arcabouço para as contas públicas.

"Eu acho que o que foi anunciado até agora elimina o risco de cauda para aqueles que achavam que a dívida poderia ter uma trajetória mais explosiva", afirmou Campos Neto, para depois abordar a questão das receitas, que têm gerado desconfiança em parte dos analistas econômicos.

"Eu acho que tem uma certa ansiedade ainda em relação à parte das receitas. A gente precisa observar como vai tramitar no Congresso. Eu acho que tem uma certa ansiedade em relação a despesa obrigatória, eu acho que às vezes até injusta, eu acho que isso deveria ser cobrado com uma certa parcimônia", acrescentou.

Campos Neto ponderou, no entanto, que não há uma relação mecânica entre uma melhora fiscal e reduções nas taxas de juros.

"Não existe uma relação mecânica entre fiscal e taxa de juros... O importante para a gente é atuar dentro do sistema de metas... O mais importante é como as medidas que estão sendo anunciadas afetam o canal de expectativas", afirmou.

Questionado sobre o panorama para a indústria bancária após as crises com colapsos de bancos médios nos Estados Unidos e do Credit Suisse na Europa, Campos Neto afirmou que o efeito dessas turbulências será que o crédito vai desacelerar nas economias desenvolvidas, mas disse que o sistema brasileiro tem muito mais salvaguardas que ajudam a evitar uma contaminação.

Segundo ele, porém, o BC está preocupado no Brasil com o setor de pessoa física para produto mais emergencial, como o cartão de crédito.

(Por Fabrício de Castro)