Ações e títulos sobem com promessas de mudança de Milei na Argentina

Por Jorgelina do Rosario e Libby George

BUENOS AIRES/LONDRES (Reuters) - A forte vitória do libertário de extrema direita Javier Milei nas eleições presidenciais da Argentina está impulsionando os títulos e as ações, mas pressionando para baixo o peso, disseram investidores nesta segunda-feira.

Milei, que prometeu usar uma motosserra nos gastos públicos, "queimar" o banco central e dolarizar a economia, venceu o ministro da Economia peronista, Sergio Massa, na votação de domingo, e adotou um tom comedido em seu primeiro discurso como presidente eleito.

Os mercados do país sul-americano estão fechados nesta segunda-feira por causa de um feriado local. Mas seus títulos em dólar no exterior, que em grande parte são negociados em território problemático, perto de 30 centavos de dólar, subiram mais de 2 centavos no início do pregão, antes de devolver alguns ganhos, de acordo com dados da MarketAxess.

Anders Faergemann, cochefe de renda fixa global da PineBridge Investments, disse que os investidores estavam satisfeitos com o resultado, mas que agirão com cautela até que Milei anuncie seu gabinete.

"Achamos que é um resultado positivo para os mercados, mas pode haver alguns ajustes nos próximos dias, nas próximas semanas... para ver qual será sua abordagem", disse ele.

O JPMorgan, em uma nota aos clientes no final do domingo, disse que não mudaria sua recomendação sobre os títulos internacionais da Argentina, de "market weight" enquanto aguarda clareza sobre a trajetória da política econômica de Milei e sua capacidade de implementar seus planos.

As ações estavam menos comedidas, com os papéis da empresa argentina de energia YPF listados nos EUA subindo mais de 40% depois que Milei disse que tentaria privatizá-la.

Os bancos Grupo Supervielle, Banco Macro, Banco Bbva Argentina e Grupo Financiero Galicia subiam entre 15,6% e 22,1%, enquanto o ETF Global X MSCI Argentina, de 50,8 milhões de dólares, subia 12,2%, atingindo um pico desde setembro.

Continua após a publicidade

Os títulos internacionais em dólar da YPF também estavam sendo negociados com alta de 1,5 centavo.

Milei, que só assumirá o cargo em 10 de dezembro, não se referiu à "dolarização" em seu primeiro discurso, levantando dúvidas sobre a rapidez com que poderia tentar eliminar totalmente o peso.

Ele prometeu reformas rápidas para consertar uma economia atolada em crise. A inflação está em 143%, as reservas de moeda estrangeira estão em mais de 10 bilhões de dólares no vermelho e uma recessão se aproxima. Ele também sinalizou moderação e agradeceu a seus principais apoiadores conservadores, Mauricio Macri e Patricia Bullrich.

"É indiscutível que é imperativo uma mudança rápida das políticas econômicas fracassadas do passado. Os desequilíbrios acumulados na economia cresceram demais e devem ser tratados prontamente", disse Sergio Armella, do Goldman Sachs, em uma nota.

O peso perdia terreno nas bolsas de criptomoedas, observadas pelos investidores como um parâmetro do mercado paralelo. O preço de um tether - uma criptomoeda atrelada ao dólar - subiu para 1.120,40 pesos argentinos no domingo e era negociado a 1.067,90 nesta segunda-feira, em comparação com o preço de abertura de sexta-feira de 913,7, de acordo com o site da Binance.

Bruno Gennari, especialista em Argentina da KNG Securities, disse que a precariedade das reservas internacionais provavelmente forçará uma rápida desvalorização; o Morgan Stanley disse que espera um ajuste de pelo menos 80% do câmbio oficial da Argentina em dezembro.

Continua após a publicidade

Milei aproveitou uma onda de raiva dos eleitores, prometendo planos agressivos para reduzir os gastos estatais e o tamanho do governo.

Investidores disseram que estarão a se ele vai cumprir as promessas de corte de gastos - e rapidamente - para impulsionar os mercados, apesar do temor quanto ao sofrimento causado pela austeridade, com dois quintos da população já na pobreza.

Riccardo Grassi, da Mangart Advisors, afirmou que Milei também precisa iniciar imediatamente as negociações para colocar o programa de empréstimo de 44 bilhões de dólares do Fundo Monetário Internacional de volta nos trilhos.

"O FMI não pode falhar desta vez."

Milei será impulsionado por uma votação maior do que o esperada de 56% no segundo turno, depois de ter obtido 30% no primeiro turno no mês passado. Mas ele ainda enfrenta um Congresso dividido, onde seu bloco tem apenas uma pequena parcela de assentos.

"Ter um resultado retumbante como o de ontem (...) dá a ele um forte mandato público, especialmente devido à sua posição de fraqueza no Congresso", disse Jimena Blanco, diretora das Américas da Verisk Maplecroft.

Continua após a publicidade

(Reportagem adicional de Elizabeth Howcroft e Marc Jones em Londres, Walter Bianchi, Jorge Otaola e Hernán Nessi em Buenos Aires)

Veja também

Deixe seu comentário

Só para assinantes