Cortes de juros dos EUA seguem sobre a mesa, mesmo com mudanças no comitê do Fed

Por Ann Saphir

SAN FRANCISCO (Reuters) - A mudança anual de membros do comitê do Federal Reserve que define a taxa de juros dos Estados Unidos aponta para um grupo de formuladores de política monetária mais rígidos com a inflação em 2024 do que os integrantes que atuaram em 2023, mas isso não mudará a perspectiva de uma mudança para cortes nas taxas de juros no próximo ano.

Na verdade, muitos analistas defendem o argumento oposto: se a inflação continuar a cair mais rapidamente do que o esperado, os formuladores de políticas do Fed vão querer reduzir as taxas ainda mais do que os 0,75 ponto percentual implícitos nas novas projeções publicadas na semana passada.

Um teste importante será realizado nesta sexta-feira, com a divulgação do índice de preços de despesas de consumo pessoal de novembro, a medida de inflação preferida do Fed. Atualmente, os economistas esperam que ele fique inalterado em relação ao mês anterior, elevando a taxa anualizada dos últimos seis meses para alguns décimos da meta de 2% do Fed.

Ao longo da segunda metade do ano, o centro de gravidade na mesa de formulação de políticas do Fed tornou-se nitidamente mais leniente com a inflação, à medida que se acumulam evidências de que as pressões sobre os preços estão diminuindo e o mercado de trabalho está esfriando diante dos aumentos das taxas de juros pelo Fed de março de 2022 a julho de 2023.

Em particular, os formuladores de política monetária que se vinham atuado de forma mais rígida com a alta de preços, incluindo o diretor do Fed Christopher Waller recuaram de seu apoio anterior aos aumentos das taxas.

"Todo mundo é um falcão (rígido com a inflação) quando se está lutando contra a inflação", disse Brett Ryan, do Deutsche Bank. "Como os riscos de alta da inflação diminuíram, eles mudaram de opinião."

Depois que os bancos centrais mantiveram as taxas estáveis em entre 5,25% a 5,50% na semana passada, o presidente do Fed, Jerome Powell, observou que o momento dos cortes nas taxas seria a "próxima questão" do Fed, fazendo com que os rendimentos dos títulos despencassem e os mercados precificassem reduções rápidas nas taxas de juros a partir de março.

Porém, mesmo que os cortes ocorram mais tarde e de forma mais gradual, como os formuladores de políticas têm tentado sinalizar desde então, a direção dessas apostas acompanha a mudança de tom do líder do Fed.

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"Powell não é estúpido", disse Tim Duy, da SGH Macro Advisors. "Se ele estabeleceu expectativas de mais de 75 pontos-base de cortes nas taxas, ele o fez por um motivo."

Um dos motivos, explica Duy, é o seguinte: como a inflação mais baixa é filtrada pela economia, as empresas que este ano conseguiram aumentar os preços terão mais dificuldade para fazê-lo no próximo ano e talvez precisem recorrer à redução dos custos de mão de obra para proteger seus lucros. A sinalização de uma política mais branda no futuro é uma tentativa de evitar esse tipo de dinâmica desinflacionária "desagradável", diz ele.

Há também outra justificativa para os cortes nas taxas no próximo ano: à medida que a inflação cai, manter a taxa de referência estável faz com que os custos reais de empréstimos aumentem, de modo que o Fed deve reduzir sua taxa de política monetária para evitar o aperto excessivo.

"Se o Fed decidir reduzir as taxas de forma um pouco mais agressiva", argumenta Scott Anderson, economista da BMO, "será realmente por causa da inflação, não por causa do crescimento ou de um aumento no desemprego".

O novo ano trará muitos outros dados antes da próxima reunião do Fed, em 30 e 31 de janeiro, incluindo uma leitura da taxa de desemprego dos EUA, que agora é de 3,7% e está apenas um décimo de ponto acima do ponto em que estava quando o Fed começou a aumentar as taxas.

Os quatro presidentes regionais do Fed que terão sua vez no próximo ano de votar sobre a taxa de juros de acordo com as regras de rodízio da autoridade monetária parecem inclinados a apoiar menos cortes nas taxas do que os quatro que estão substituindo, acreditam os economistas do Deutsche Bank, BMO e outros.

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Entre os eleitores de 2024 está Raphael Bostic, presidente do Fed de Atlanta. Embora seja visto como mais leniente com a inflação, no sentido de que tende a expressar mais preocupação com a possibilidade de causar perda excessiva de empregos do que alguns de seus colegas formuladores de políticas, ele também disse acreditar que a taxa de juros do Fed deve terminar o próximo ano na faixa de 4,75% a 5%.

A maioria de seus colegas acredita que uma faixa mais baixa será apropriada, conforme mostram as projeções publicadas na semana passada.

Junto com Bostic estarão a presidente do Fed de Cleveland, Loretta Mester, e o presidente do Fed de Richmond, Thomas Barkin, ambos considerados rígido com a inflação; a presidente do Fed de San Francisco, Mary Daly, centrista, será a quarta eleitora de 2024.

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