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Falta de diesel reacende temor de desabastecimento na Venezuela

Problema da falta de diesel no país se arrasta há pelo menos seis anos, originado pelo sucateamento da estatal Petróleos da Venezuela, - Marcelo D. Sants/Framephoto/Estadão Conteúdo
Problema da falta de diesel no país se arrasta há pelo menos seis anos, originado pelo sucateamento da estatal Petróleos da Venezuela, Imagem: Marcelo D. Sants/Framephoto/Estadão Conteúdo

Elianah Jorge

Caracas

17/03/2021 11h18Atualizada em 17/03/2021 11h20

A Venezuela está praticamente paralisada. Há semanas falta diesel no país. Com isso, ônibus e caminhões fazem filas que duram dias nas imediações dos postos de abastecimento esperando pelo combustível. A escassez de diesel afeta o transporte público, a produção agrícola e a distribuição de produtos em todo o país. A situação traz de volta o fantasma do desabastecimento de alimentos e da alta de preços.

A Venezuela está produzindo menos diesel que consome. Para suprir a demanda nacional são necessários cerca de 100 mil barris diários do combustível, mas a produção é de apenas 25 mil, ou seja, de apenas 25% da procura. De acordo com estimativas, antes da pandemia eram consumidos entre 60 mil e 65 mil barris por dia. Boa parte do diesel é trazido de fora, da mesma forma que a gasolina - esta enviada pelo Irã.

O último carregamento de diesel importado chegou em novembro passado. O diesel que resta está sendo racionado e poucos litros são vendidos. Nas ruas de Caracas é possível ver ônibus e caminhões parados por falta de combustível. Mas os estoques devem acabar até o fim do mês.

O problema da falta de diesel no país se arrasta há pelo menos seis anos, originado pelo sucateamento da estatal Petróleos da Venezuela, a PDVSA. Com isso, a produção desta que já foi a maior empresa do país caiu drasticamente.

Sanções pioraram situação

Mas foi em outubro passado que a situação se agravou. O governo de Donald Trump determinou que as empresas que forneciam diesel em troca de petróleo venezuelano seriam penalizadas caso continuassem a negociar com o governo de Nicolás Maduro. A meta era abalar a gestão chavista. No entanto, a população é quem está sentindo as consequências da decisão norte-americana. Segundo o economista Rafael Quiroz, "as sanções aprofundaram a situação dramática da indústria petroleira".

Por sua vez, Juan González, diretor de assuntos do Hemisfério Ocidental da Casa Branca, afirmou que o governo de Maduro desvia o diesel para as Forças Armadas Bolivarianas e para enviar parte dos estoques a Cuba, usando, assim, a escassez do combustível como argumento para pedir o fim das sanções.

As consequências já são perceptíveis no cotidiano. Há gigantescas filas de ônibus e caminhões esperando para abastecer. O transporte público de Caracas, historicamente caótico, está ainda pior. Quase não há ônibus em circulação.

Medo da fome

A consequência mais grave recai sobre a produção e o transporte de alimentos. Isso reaviva o fantasma da escassez de alimentos, problema enfrentado pela população entre 2013 e 2018.

De acordo com Edison Arciniega, da ONG Cidadania em Ação, há pelo menos 58% de redução na oferta de produtos só neste mês. Sem conseguir abastecer, produtores recorrem ao mercado paralelo de diesel pagando preços com mais de 50% de ágio. Esse acréscimo acaba sendo repassado ao consumidor. Outros produtores, sem ter condições de investir no combustível ilegal, ficam no prejuízo.

A Venezuela encerrou 2020 com uma inflação de mais de 3.000%. Em fevereiro, a taxa mensal foi superior a 50%.

Aquiles Hopkins, presidente da Confederação de Associações de Produtores Agropecuários da Venezuela (Fedeagro), afirma que cerca de 20 mil toneladas de alimentos foram perdidos por causa da falta de diesel. "Esse resultado será sentido nas mesas das famílias venezuelanas", ressaltou. Cerca de sete de cada dez caminhões estão parados no país por causa da falta de combustível.

A maioria dos vegetais e proteínas animais são produzidos da região dos Andes venezuelanos. A agricultura depende do diesel também para arar e regar a terra. Ante a escassez, a próxima colheita pode estar em risco.

De acordo com o Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas, dois terços da população venezuelana não têm acesso estável e suficiente a alimentos. Por sua vez, a Pesquisa de Condições de Vida do Venezuelano (Encovi) documentou que 79% da população vive em pobreza extrema.

Ônibus parados

Os usuários de transporte coletivo também sofrem com essa penúria. Pelo menos dez estados do país estão sem transporte público. Para contornar a situação, em vez de suportar as longas filas e ônibus abarrotados em plena pandemia, dezenas de pessoas caminham ou usam veículos alternativos para chegar a seus destinos.

Embora não exista relação direta com a falta de diesel, o presidente Maduro determinou esta semana restrições de circulação nas principais cidades do país. Segundo o líder venezuelano, o foco é conter os avanços da Covid-19 e da variante brasileira. Nas últimas 24 horas, foram registrados 540 novos casos da doença na Venezuela.

Diesel para geradores

Analistas estimam que se a escassez de diesel continuar, o setor comercial entrará em colapso nos próximos 45 a 60 dias. Caso isso aconteça, o desabastecimento pode ser ainda mais grave que o vivido em 2016. Para suprir a demanda do setor produtivo em curto prazo, seriam necessários pelo menos 600 mil barris de diesel.

O combustível também é fundamental para contornar as constantes falhas elétricas e a crônica falta de água potável que afeta boa parte do país. Para minimizar esses problemas em hospitais, clínicas, residências e nas regiões rurais é comum se recorrer ao uso de geradores, agora ameaçados de pane.

O governador do estado de Zulia (região noroeste da Venezuela), Omar Prieto, revelou que um cargueiro com diesel chegou ao país para ser distribuído naquela região. No entanto, o carregamento será suficiente para apenas poucas semanas. Sem uma produção constante e em grande escala de diesel, a escassez deverá persistir.

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