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Argentina ultrapassa os 100% de inflação e está numa tendência contrária dos países da região

É o primeiro índice com três dígitos desde 1991, ano em que o país saía de uma hiperinflação. - Matias Baglietto/NurPhoto via Getty Images
É o primeiro índice com três dígitos desde 1991, ano em que o país saía de uma hiperinflação. Imagem: Matias Baglietto/NurPhoto via Getty Images

Márcio Resende

Em Buenos Aires

15/03/2023 08h41

Um ano depois de o presidente argentino anunciar uma guerra contra a inflação e na contramão da tendência entre os países vizinhos, a Argentina acumula 102,5% de inflação nos últimos 12 meses, o primeiro índice com três dígitos desde 1991, ano em que o país saía de uma hiperinflação.

Um único mês de inflação na Argentina supera um mês de inflação da maioria dos países da região juntos. Cada vez mais economistas preveem uma inflação acima de 110% em 2023.

Há um ano, o presidente argentino, Alberto Fernández, anunciou que começava "uma guerra contra a inflação". Há sete meses, o ministro da Economia, Sergio Massa, previu uma inflação de 3% antes de abril.

A realidade, no entanto, foi bem diferente: o Instituto de Estatísticas e Censos da Argentina (INDEC) anunciou que a inflação de fevereiro foi de 6,6%, acumulando 102,5% nos últimos 12 meses.

É preciso recuar a setembro de 1991 para encontrar um índice semelhante (115%). Porém, se há 32 anos, a Argentina saía de uma hiperinflação, agora a inflação está em alta.

O maior aumento aconteceu nos alimentos (9,8%), cujo principal impacto acontece sobre o segmento mais pobre da população.

Os 6,6% de fevereiro ficaram acima dos 6,1% que os principais economistas do país previram, segundo a sondagem mensal do próprio Banco Central argentino.

Apesar de elevados, esses 6,6% foram contidos por preços congelados. Os aumentos nos preços não regulados pelo governo chegaram a 7,7%.

A meta de uma inflação mensal de 3% passou para o final do ano, mas poucos acreditam que seja possível alcançá-la. Há 13 meses, a Argentina não tem uma taxa mensal de inflação abaixo de 4%.

"A receita de congelamento ou de controles de preços aplicada pelo governo argentino tem sido insuficiente e sempre a mesma receita que combate os feitos e não as causas.

Por isso, colhe sempre os mesmos resultados de fracasso", aponta à RFI o analista econômico Damián Di Pace, diretor da consultora Focus Market.

Tendência de alta

Em janeiro, a inflação foi de 6%. A de fevereiro, 6,6%. Os cálculos para março projetam uma inflação de, pelo menos, 7%, baseados apenas nestas duas primeiras semanas do mês.

Os aumentos de março serão significativos em energia elétrica, gás, transportes públicos, planos de saúde e colégios privados.

Historicamente, março tende a ser um mês com uma inflação mensal superior à média do resto do ano, devido à mudança de estação (roupas) e começo do ciclo letivo (Educação)", indica a consultora Ecolatina, a única a acertar a previsão de 6,6% de fevereiro.

Consultoras e bancos começam a projetar uma inflação acima de 110% em 2023, sobretudo devido à ausência de um plano de estabilização de preços e à tendência histórica num ano eleitoral, quando o governo expande a base monetária e injeta dinheiro na economia para melhorar as chances eleitorais.

"Essa aceleração na Argentina evidencia a incapacidade dos controles de preços. Por enquanto, não há razões teóricas para pensar que a inflação diminua e a incerteza num ano eleitoral pode, inclusive, piorar a situação", conclui o economista Lautaro Moschet, da Fundação Liberdade e Progresso.

Mais dinheiro na economia, no caso argentino, no qual não há de onde tirar recursos, significa mais emissão monetária sem respaldo e mais déficit fiscal, fazendo a inflação aumentar.

"A inflação é, em última instância, um problema monetário. Ou seja: quanto dinheiro há para gastar. Emissão monetária é inflação a futuro", sublinha o economista Fausto Spotorno, diretor da consultora Orlando Ferreres.

Coquetel explosivo

O país vive uma prolongada seca que afeta a colheita agrícola, o principal setor exportador. Com isso, a Argentina deve exportar entre 15 e 20 bilhões de dólares a menos neste ano, um montante gigantesco para a atual economia desvalorizada.

Menos dinheiro em caixa, menos importação, menos produção, mais inflação.

A consultora Orlando Ferreres e o banco inglês Barclays, por exemplo, preveem uma inflação acima de 110%.

"Estimamos que o ano de 2023 termine com mais de 110% de inflação", prevê Spotorno.

"Na argentina, ao contrário do resto da região, esperamos que a inflação aumente ainda mais neste ano", indica um relatório do Barclays.

A Argentina está a ponto de entrar tecnicamente em recessão, combinando o encolhimento da economia com alta inflação. Pelos próximos sete meses, até as eleições de outubro, o governo deve injetar dinheiro na economia para atenuar essa combinação letal.

"O que mais funciona como expectativa de melhora hoje é que todos os agentes econômicos assumem que haverá uma mudança de governo e que virá um programa econômico de verdade, isto é, um ajuste fiscal, em busca do equilíbrio", indica Spotorno.

"Em algum momento, será preciso uma forte desvalorização da moeda e um ajuste nas tarifas públicas que levarão a um aumento da inflação, uma inércia complicada para um novo governo, que estará obrigado a reformas profundas se quiser reverter o quadro", aponta.

Contra a tendência na vizinhança

O observatório Venezuelano de Finanças (OVF) calcula inflação de fevereiro em 20,2%, com 537,7% nos últimos 12 meses, deixando a Venezuela no pódio inflacionário na região.

Fora a Venezuela, a Argentina está numa aceleração contrária à tendência dos países da região.

Somadas as taxas de inflação de fevereiro no México (0,6%), na Colômbia (1,6%), no Chile (-0,1%), no Peru (0,4%), no Uruguai (1%), no Paraguai (0,5%), no Equador (0,02%), na Bolívia (-0,4%) e no Brasil (0,84%), o número total chega a 4,84%. Bem menos do que os 6,6% da Argentina em fevereiro.

Somados os índices desses nove países nos últimos 12 meses, chega-se à cifra de 65,1%, bem abaixo dos 102,5% da Argentina.

A inflação da Argentina num único mês também supera a inflação dos últimos 12 meses no Brasil (5,6%). Um único mês na Argentina é mais do que o dobro da meta de inflação do Brasil (3,25%) em todo 2023.

Segundo uma pesquisa da consultora Maru Group, em toda a América Latina, o único país no qual os entrevistados indicaram que a inflação é a principal preocupação foi a Argentina.