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REPORTAGEM

Voo de Maiara: É comum pouso de emergência quando pássaros batem em avião?

Maiara, da dupla com Maraisa, cujo avião realizou um pouso não programado após colidir com uma ave na decolagem - Reprodução/Instagram
Maiara, da dupla com Maraisa, cujo avião realizou um pouso não programado após colidir com uma ave na decolagem Imagem: Reprodução/Instagram

Alexandre Saconi

Colaboração para o UOL, em Pirassununga (SP)

06/01/2022 16h05

Na noite de terça-feira (4), um avião da Latam em que estava a cantora Maiara, da dupla com Maraisa, colidiu com um pássaro após a decolagem e teve de realizar um pouso não programado em Florianópolis (SC). O voo partiu de Navegantes e tinha como destino o aeroporto de Congonhas (SP), mas precisou desviar e pousar cerca de meia hora depois na capital catarinense.

A equipe da cantora, em nota, disse que foi realizado um pouso forçado, e fãs falam em pouso de emergência. No caso do voo da cantora Maiara, foi algo fora do normal? Quando é necessário fazer um "pouso de emergência" em caso de colisão com aves?

Situação é recorrente e prevista nos manuais

O bird strike, nome pelo qual é chamada a colisão de aviões com aves, não é algo incomum na aviação, contando com protocolos a serem seguidos pelos pilotos em situações como essa. No geral, é recomendado que, após identificar que houve a colisão, o avião cancele a decolagem.

Caso isso não seja possível ou o avião já tenha decolado, o piloto avalia a situação para definir se é possível continuar o voo ou se a aeronave deve pousar o quanto antes.

Segundo Ronald Van Der Put, piloto e um dos fundadores do Grupo Brazilian Pilots Teaching For Free, grupo voltado a ajudar pilotos que buscam recolocação no mercado, quando não há grandes danos e os dois motores continuam funcionando normalmente, é possível continuar o voo em segurança.

Por outro lado, se o impacto representar algo mais severo, é recomendado o pouso assim que possível, de acordo com a análise feita pelo piloto. "É necessário pousar [após uma colisão com aves] quando há um dano que cause vibrações ou em uma situação de perda de potência que não permita prosseguir o voo em condições normais", diz o piloto.

"Se uma aeronave de dois motores 'perde' um deles, ela consegue decolar com segurança. Após subir, o piloto vai dizer no rádio a frase 'pan-pan' três vezes, indicando que o avião sofreu uma pane, está passando por uma situação anormal, mas ainda não é considerada uma emergência".

Pouso não programado não é pouso de emergência

Ainda segundo Van Der Put, um pouso não programado, como o que ocorreu com o avião que levava a cantora Maiara, é diferente de um pouso de emergência e de um pouso forçado.

"Pouso de emergência é quando há uma situação grave com o avião, o que não ocorreu no voo realizado na noite de terça-feira. Ele ocorre, por exemplo, quando há fogo a bordo, um problema de despressurização etc., que obriga o piloto a pousar o avião o mais rápido que der em um aeroporto o mais próximo possível", diz o piloto.

Já o pouso forçado, segundo Van Der Put, é aquele feito também dentro do contexto de uma emergência, mas em um aeroporto que não é adequado para aquele avião ou, até mesmo, fora de um desses locais, como em pastos ou na água.

Um exemplo de pouso forçado foi o que ocorreu com o voo Varig 820 em 1973 na França, onde o avião, que estava pegando fogo de maneira descontrolada, precisou pousar em uma plantação de cebolas para diminuir o risco de uma queda, que poderia causar a morte de todos a bordo. "Se o piloto aguardasse até chegar ao aeroporto, provavelmente, todos teriam morrido. Pousar antes foi uma tentativa de controlar o fogo a bordo e salvar a maior quantidade de vidas possível", afirma o piloto.

Van Der Put ainda diz que pousar em Florianópolis foi mais uma marca de como a operação ocorreu em segurança. Isso se deve ao fato de que a pista do aeroporto da capital catarinense é maior que a do local de origem, além de contar com infraestrutura melhor para um eventual socorro, caso fosse necessário.

Pouso no Rio Hudson em 2009

Um acidente famoso envolvendo colisão com pássaros foi o que levou ao pouso no rio Hudson, ocorrido em Nova York (EUA) em 2009. Um avião Airbus A320 com 155 pessoas a bordo perdeu os dois motores ao colidir com pássaros após a decolagem e ficou incapaz de pousar em qualquer aeroporto próximo.

Segundo Van Der Put, como o avião ficou com os dois motores danificados, ele precisou decretar emergência. "Nesse momento, ele diz no rádio a frase padrão 'mayday' três vezes, indicando que está passando por uma emergência grave e que, por isso, precisa de prioridade", diz o piloto.

Essa história foi relatada no filme "Sully: O Herói do Rio Hudson" (2016). Veja a reconstituição do voo feita pelos órgãos de investigação (legendado):

Latam emite nota sobre voo de Maiara

Sobre o incidente no voo de Maiara, veja na íntegra a nota da Latam:

"A Latam esclarece que não houve nenhum "pouso de emergência" ou "pouso forçado".

Por precaução, às 21h57 de ontem (4/1), a companhia pousou normalmente e em completa segurança em Florianópolis a aeronave do voo LA3275 (Navegantes-São Paulo/Congonhas), após uma colisão com um pássaro. Este é um procedimento comum quando ocorre o evento chamado de "bird strike".

A Latam prestou toda a assistência aos passageiros, acomodados em uma nova aeronave que decolou para São Paulo às 23h56 e pousou no aeroporto de Guarulhos à 0h56 desta quarta-feira (5/1).

A companhia reitera ainda que não divulga a identidade de seus passageiros e que todas as suas decisões visam garantir uma operação segura."