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Confusão com passageiro desobediente a bordo de avião triplica em 2021

Passageiros indisciplinados podem colocar em risco a segurança do voo e costumam ser expulsos dos aviões - Getty Images
Passageiros indisciplinados podem colocar em risco a segurança do voo e costumam ser expulsos dos aviões Imagem: Getty Images

Alexandre Saconi

Colaboração para o UOL, em São Paulo

23/04/2022 04h00

Confusões com passageiros indisciplinados a bordo de aviões quase triplicaram em empresas aéreas do Brasil em um ano, entre 2020 e 2021, indo de 222 para 612 casos. Um passageiro desobediente costuma ser um grande transtorno. Além de colocar a segurança do voo em risco, ele pode causar prejuízos para outros passageiros e para as companhias aéreas, que tendem a repassar esses valores nas passagens.

Mesmo que ele não tenha um surto e saia destruindo o avião, às vezes é necessário ter de fazer um pouso não programado em um aeroporto diferente daquele do de destino, podendo atrasar conexões e gerando custos operacionais com equipes, possível manutenção e combustível.

São situações causadas por passageiros agressivos, que se recusam a respeitar as normas sanitárias ou que estejam excessivamente alcoolizados. Mesmo um transtorno menor a bordo pode gerar uma série de problemas.

612 ocorrências em 2021

Durante todo o ano de 2021, foram registradas 612 ocorrências com passageiros indisciplinados entre as empresas associadas à Abear (Associação Brasileira das Empresas Aéreas), que abarca Gol, Latam, Abaeté, Rima (Rio Madeira Aviação) e Voepass (antiga Passaredo). Em 2019, no pré-pandemia, foram 304 casos, e, em 2020, 222 eventos com passageiros indisciplinados.

A maior parte das ocorrências no ano passado se deu por desrespeito às normas sanitárias, como o uso de máscara e respeito ao distanciamento social.

Existem três categorias de ocorrências com passageiros indisciplinados, estejam eles no embarque, a bordo no solo ou em voo:

  • Categoria 1 - 28% dos casos: Geram transtornos menores, como pequenos problemas no embarque ou a bordo, mas são situações que podem ser rapidamente controladas pelas equipes das empresas e dos aeroportos sem a necessidade de intervenção policial.
  • Categoria 2 - 59% dos casos: São situações que afetam a segurança, com o passageiro desacatando as instruções da tripulação. Podem requerer o apoio do supervisor no aeroporto ou de segurança para conter o passageiro.
  • Categoria 3 - 13% dos casos: Afeta de maneira profunda a segurança, pois o passageiro desenvolve um comportamento agressivo e violento, chegando a agredir os funcionários.

As duas últimas categorias, que representam a maioria das situações, podem precisar da intervenção da polícia para serem contornadas, como é o caso quando um passageiro precisa ser expulso do voo para que o avião possa prosseguir em segurança.

Custos em série

Uma ocorrência com um passageiro indisciplinado pode gerar uma cadeia de custos de cifras milionárias em um ano, segundo fontes das empresas aéreas ouvidas pelo UOL. O valor específico é difícil de ser estimado, pois são vários custos diluídos na operação.

Veja alguns dos gastos que podem ser gerados se um avião precisar ser desviado para fazer um pouso não programado em outro aeroporto devido a um passageiro indisciplinado:

  • Novos custos com taxas de pouso e decolagem além de taxas de comunicação com os órgãos de controle do tráfego aéreo
  • Custos com empresas de serviço em solo para retirada de bagagem, uso de escadas para o desembarque e reposição de alimentos a bordo
  • Combustível, em especial no momento da decolagem, que é a fase de voo com o maior consumo em um curto intervalo
  • Atrasos nas conexões dos passageiros que iriam pegar outro voo no destino
  • Troca de tripulação, caso o horário de trabalho dela esteja perto do fim
  • Eventual manutenção a bordo, caso algo tenha sido danificado
  • Manutenção do avião, tanto a inspeção de rotina feita a cada voo quanto a de emergência
  • Possível processo judicial devido ao atraso causado por outro passageiro

Soma-se a isso o possível atraso que pode ser causado nos outros voos com o desvio das equipes para atender o avião que não precisaria ter pousado se não fosse o passageiro indisciplinado.

Ainda é preciso levar em conta o transtorno causado nas equipes dos aeroportos e nos agentes públicos, como os da Polícia Federal, que terão de se deslocar até o avião para efetuar a retirada dos desobedientes.

Caso recente

Em março, um voo da Latam que seria realizado entre o Rio de Janeiro e Vitória (ES) teve de retornar para o aeroporto Santos Dumont (RJ) após grupo de músicos ter se recusado a usar máscara durante o voo. O rapper PL Quest, um dos passageiros que tiveram de ser retirados do avião, disse que a atitude foi um preconceito contra os artistas.

Jerome Cadier, presidente da empresa, defendeu em seu perfil do LinkedIn o cumprimento das normas sanitárias ainda vigentes em voos no Brasil.

"E se o passageiro se recusar a usar a máscara corretamente, independente de quem seja, ele será desembarcado. Simples. Não adianta tentar argumentar, discutir ou convencer quem quer que seja. [...] Não é discriminação! É cumprir a determinação da Anvisa", escreveu o executivo à época.

Casos na Latam

Apenas na Latam em 2021, foram 264 ocorrências de passageiros indisciplinados, tanto em voos domésticos e internacionais. Grande parte aconteceu ainda no solo, com 68% das ocorrências, e 32% dos casos foram registrados durante o voo.

Desse total, segundo a empresa, 27% foram por não cumprimento das regras sanitárias, como uso de máscara e manutenção do distanciamento social. Ainda 26% foram por comportamento agressivo e 12% por ingestão de bebida alcoólica, sendo o restante (35%) por outros motivos.

Em um ano, todos os atrasos causados por indisciplina a bordo somaram um tempo de 42 horas e 41 minutos na companhia.

Procurada, a Gol não relatou os casos específicos, e orientou a utilizar os dados fornecidos pela Abear. A Azul não se manifestou até a publicação desta reportagem.