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Somos 200 milhões de brasileiros na mão de 6 bancos?

César Esperandio

César Esperandio

César Esperandio é economista com ênfase em planejamento financeiro, com larga experiência no mercado financeiro. Já atuou em setores macroeconômicos de bancos e consultorias, além de ter passado por empresa de pesquisas de mercado. Hoje se dedica exclusivamente ao Econoweek, com foco em investimentos.

15/05/2020 04h00

Somos "200 milhões de trouxas sendo explorados por seis bancos". Quem falou isso foi Paulo Guedes, o Ministro da Economia.

Eu sou César Esperandio, economista do Econoweek, a tradução da economia. E agora, vou mostrar o que ele quis dizer com isso, quais as diferenças entre um oligopólio de bancos, um monopólio e o modelo talvez ideal, onde haveria muito mais bancos e juros mais baixos, com maior competição.

Na verdade, o sistema bancário está na mão de cinco bancos. Não seis, como Guedes disse. Na lista do Valor Econômico, entre os 100 maiores bancos brasileiros, os cinco primeiros dominam 80% do mercado. Sendo o Itaú com 20%, o Banco do Brasil com 18%, o Bradesco e a Caixa Econômica com 16% cada um e o Santander com 10%. O 6º maior banco é o Safra, com apenas 2% do mercado.

Do 7º lugar em diante, quase todos têm participação próxima de zero, mostrando o tamanho da concentração bancária no Brasil.

Muitos argumentam que isso caracteriza um oligopólio e desfavorece os clientes, que, sem muita opção, acabam pagando juros altos por um serviço não tão bom como poderia ser.

Agora, vou mostrar as diferenças entre um mercado de grande concorrência e, do outro lado, onde há nenhuma ou pouca concorrência, características do monopólio e do oligopólio.

Concorrência

A concorrência perfeita é caracterizada por um mercado em que há infinitos clientes e infinitas empresas oferecendo o mesmo produto, de modo que sempre haverá um estímulo às empresas entregarem o melhor produto ao menor preço possível, ou os clientes comprarão do concorrente.

É claro que nunca existiram infinitas empresas, mas essa é uma ideia conceitual para entendermos qual seria a situação ideal e pensarmos em o que ser feito para que as coisas se aproximem disso, de modo a favorecer todo mundo: tanto o empresário que se destacar, oferecendo o melhor produto ao menor preço, atraindo mais clientes; como seus consumidores, que vão ficar mais satisfeitos e ainda economizar, pagando mais barato por um produto melhor.

Diferente do mercado de petróleo, em que todos os produtores oferecem exatamente o mesmo produto, na maior parte dos casos quase sempre há a possibilidade de diferenciação de produtos, em que o tênis da Nike não é exatamente igual ao tênis da Adidas, por exemplo, permitindo agradar a diferentes grupos de clientes, com preços diferentes.

Ou até no setor bancário, com algumas fintechs inovando e entregando soluções disruptivas. Há alguns exemplos disso:

  1. O Banco Inter e o PagBank, que estão longe dos cinco maiores bancos, mas vêm subindo na tabela desse campeonato, oferecendo conta gratuita e digital, com transferências ilimitadas e sem custo;
  2. A corretora XP, que foi uma das primeiras a realmente ganhar muito espaço com serviços de investimentos grátis, diferente dos grandes bancos, que concentravam esse setor e as vezes ofereciam produtos de investimentos caros e pouco vantajosos. Ou ainda a corretora Toro, que tem a proposta de simplificar os investimentos, fazendo-os ficarem parecidos com a navegação em uma rede social.
  3. Fintechs, como a MatchMoney, com selo de segurança da ABFintechs. Ela tem investimentos que rendem 400% do CDI, muito acima da renda fixa tradicional e oferece empréstimos às empresas com juros mais baixos, aceitando imóvel como garantia.
  4. Ou ainda fintechs de empréstimos, como a Creditas, que otimizou o processo de análise pelo celular e consegue praticar juros abaixo de muitos bancos.

Eu já fiz dois conteúdos falando dos 10 melhores apps para juntar dinheiro e dos 10 melhores apps para investir o dinheiro economizado. Vale a pena conferir.

Mesmo assim, o setor bancário no Brasil está longe da concorrência perfeita.

Monopólio

No outro extremo, a raiz da palavra monopólio vem do grego "monos", que significa "único" e "poleo", que significa vender ou praticar o comércio. De modo que a palavra se refere à venda de uma mercadoria por um único fabricante ou vendedor, que detém a exclusividade dessa produção ou da venda.

O pessoal do Canal ProjetoX fez uma comparação ótima com a situação de um relacionamento possessivo, em que um não deixa mais o outro ter amigos e nem fazer mais nada que não seja exclusivamente com ele, controlando tudo da vida do parceiro.

Se o seu namorado ou namorada te controla, ele não tem mais tanto estímulo para te agradar e não existe mais aquela ideia de carinho e atenção como antes. Ou seja, o produto perde qualidade.

E isso normalmente é visto como uma oportunidade para aumentar os lucros, oferecendo um produto de baixa qualidade a um preço maior.

Um exemplo é a cantina de escola. Se só há uma cantina, eles podem cobrar o preço que quiserem e ainda oferecer salgados "meia boca", pois você não tem outra opção. Se estiver com fome, é só aquilo que tem para comer.

Há ainda um tipo particular chamado de monopólio natural, como por exemplo a distribuição de energia elétrica para as casas.

Não faz sentido mais de uma rede de postes e fios levando energia para os mesmos lugares para você poder escolher qual energia vai usar, já que a estrutura é muito cara e faz pouco sentido uma rua com cinco postes, um ao lado do outro, e uma montoeira de fios e cabos lá no alto.

Nesse caso, é preciso que o governo estabeleça regras para esse monopolista, como a qualidade do serviço e o preço cobrado do cliente.

Oligopólio

Voltando à raiz grega, "oligo" significa "poucos", de modo que oligopólio faz referência a um restrito grupo de fabricantes ou vendedores que detêm a exclusividade da produção ou da venda de determinados produtos.

Nesse caso, pode haver ainda uma formação de cartel, onde essas poucas empresas se juntam para combinar a qualidade e a quantidade a ser oferecida aos clientes, de modo que estabelecem um preço para maximizar seus lucros.

Um bom exemplo é a OPEP+, o grupo de produtores de petróleo que quase sempre combinam a quantidade produzida para manter o preço no nível desejado, sem competirem entre si pelos mesmos clientes.

É claro que às vezes eles se desentendem, mas a lógica do lucro sempre fala mais alto e as coisas acabam voltando ao normal esperado.

Um exemplo de oligopólio em que não há formação de cartel e a qualidade do serviço oferecido pode ser diferenciado, diferente do exemplo do petróleo, é o setor de telefonia, em que há muitos clientes e poucas empresas oferecendo o serviço.

Mas não necessariamente os serviços são bons ou baratos, já que, em alguns momentos, as empresas podem se portar de maneira mais parecida com um mercado monopolista, em que há pouco ou nenhum incentivo a melhorar o produto e nem a baixar os preços. Já em outros momentos, começam uma competição por clientes, se aproximando do modelo de concorrência perfeita.

Outro exemplo é o setor bancário, que o ministro da Economia Paulo Guedes falou que há "200 milhões de trouxas sendo explorados por seis bancos". Já deixou seu comentário falando o que acha disso?

Esses modelos ferem o princípio da competição e da concorrência, onde as empresas competem pela atenção dos clientes, melhorando seus produtos e serviços, e baixando os preços.

E daí?

Apesar de os grandes bancos terem sido parte da solidez e desenvolvimento da economia, também resistindo mais às crises e fornecendo crédito a quem precisa, o Banco Central está fazendo algumas coisas para melhorar esse ambiente, fomentando bem mais que a competição.

Eles querem que haja mais pequenos e médios bancos, mais modernos e com juros mais baixos, além de terem iniciativa para levar educação financeira às escolas.

Mudando de assunto

No vídeo que expliquei como funcionaria, na prática, a medida que permitiu que empresários reduzissem a jornada e o salário dos funcionários em até 70%, o Francisco perguntou quantas horas ele teria que trabalhar se tivesse essa redução de 70%.

Depende do seu regime de trabalho, Francisco. Se você trabalha 8 horas por dia, de segunda a sexta, tinha jornada de 40 horas semanais, equivalente a 160 horas mensais. Com redução de 70%, iria para 12 horas semanais e 48 horas mensais.

Já no conteúdo que comentei sobre os cursos de pós-graduação e MBA para o mercado de finanças, a Mariana Reis, que está no 4º semestre da faculdade de Administração, perguntou se ela poderia começar uma pós ou um MBA antes de se formar e a resposta é não.

No mínimo, é preciso se formar na graduação para começar uma pós ou MBA.

Mas eu acho que dar início a um novo curso sem pausa normalmente é uma estratégia ruim, pois provavelmente terá pouca experiência profissional e pouca certeza da área que pretende se especializar, podendo gastar dinheiro à toa.

Penso que para entrar em uma pós-graduação, é bem melhor acumular bagagem profissional antes. Aliás, no currículo, tem muito mais peso a experiência no mercado de trabalho do que um título em uma pós-graduação, porém sem experiência.

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