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Ninguém merece ser bilionário?

César Esperandio

César Esperandio

César Esperandio é economista com ênfase em planejamento financeiro, com larga experiência no mercado financeiro. Já atuou em setores macroeconômicos de bancos e consultorias, além de ter passado por empresa de pesquisas de mercado. Hoje se dedica exclusivamente ao Econoweek, com foco em investimentos.

29/05/2020 04h00

Frases da internet:

  • "Ninguém deveria ser bilionário!"
  • "O fundador da Amazon, Jeff Bezos (capitalista safado mais rico do mundo) poderia gastar R$ 1 milhão por ano desde a idade da pedra e ainda teria R$ 157 bilhões hoje".

Eu sou César Esperandio, economista do Econoweek, a tradução da economia. Eu li essas frases na internet e, no vídeo acima, quero discutir com você se isso é verdade ou mentira, e fazer um convite à reflexão sobre a grande desigualdade de renda no Brasil e no mundo.

Recentemente, o perfil no Instagram @boletinhos fez um post muito polêmico, com essas afirmações fortes, que dizia que ninguém merece ter R$ 1 bilhão.

"Capitalista safado" são palavras do @boletinhos, não minhas.

Ganhar R$ 1 milhão por ano é equivalente a ter um salário de R$ 83 mil por mês.

E o @boletinhos ainda disse que se você ganha um salário mínimo de R$ 1 mil, um bilionário teria que trabalhar 1 milhão de vezes mais que você para justificar essa diferença de renda.

Será que isso faz sentido?

O que você acha disso?

Desigualdade de renda

No final das contas, o que o @boletinhos está questionando é a desigualdade de renda, mesmo que de maneira muito rasa.

Não pretendo esgotar o tema, mas há algumas linhas de pensamento predominantes sobre isso na literatura econômica.

Do lado dos liberais, há a hipótese inicial de que as desigualdades de renda são o motor do progresso, em que as pessoas têm o estímulo a fazer um trabalho melhor e a inovar para poder ter um salário ou um lucro maior.

Na verdade, ao mesmo tempo em que a desigualdade é motor, também é consequência desse progresso.

É o papo de "interesses privados, benefícios públicos". Essa máxima basicamente diz que um indivíduo que está interessado apenas no próprio ganho busca oferecer um serviço ou produto melhor que os de seus concorrentes, a um preço competitivo, para conquistar mais clientes.

Nesse processo, apesar o empresário apenas querer ganhar mais dinheiro, ele deixa os clientes mais satisfeitos e, à medida que expande seu negócio, gera mais empregos e mais renda para os demais.

Mas por que um empresário tem que ganhar mais que seu funcionário?

Nessa linha de raciocínio, enquanto os funcionários têm um salário certo, os empresários têm uma renda incerta e assumem o risco de ganhar muito ou de perder muito.

Os empresários fazem pagamentos certos aos seus empregados diante de um cenário incerto para o seu negócio. E, por isso, podem ser premiados com uma renda maior.

Se a empresa der prejuízo, o empresário deve continuar pagando os salários dos funcionários.

Do outro lado, há as teorias de Marx, que observou, na época de revolução industrial, um processo de exploração dos trabalhadores, com jornadas de 16 ou 20 horas, e crianças empregadas em trabalhos pesados, com salários que mal davam para sobreviver.

Daí veio a teoria da mais-valia.

A mais-valia de Marx é, simplificadamente, a diferença entre o salário recebido pelo funcionário e o valor de trabalho que ele gera, que ocasiona o lucro do "empresário explorador".

Teoricamente, se o funcionário não tivesse um chefe, seu ganho poderia ser bem maior, fazendo o mesmo serviço.

Mas o problema é que ele não tem os meios para fazer aquele serviço. Ele não tem o maquinário necessário, não tem o espaço físico, não tem o dinheiro para investir no negócio e, por isso, acaba deixando o lucro na mão do patrão.

É daí que veio o Socialismo e o Comunismo.

A principal crítica a essas linhas de pensamento é que quando não há a possibilidade de as pessoas se destacarem e ganharem mais dinheiro que as outras, também não há nenhum estímulo ao progresso e à criação de um trabalho melhor para colher os frutos disso.

Você trabalharia mais ou se preocuparia em fazer um serviço melhor se no final do mês fosse sempre ganhar a mesma coisa que o seu colega que só está ali para cumprir tabela?

Ou acha que hoje haveria Instagram, smartphones, YouTube ou computadores se não houvesse alguém com iniciativa para criar esse tipo de coisa, podendo se destacar e ganhar mais dinheiro com suas ideias?

Por que poucos têm muito e muitos têm tão pouco?

A diferença entre os ricos e os pobres vem aumentando muito.

Um estudo da OCDE mostra que os 10% mais ricos tem um rendimento dez vezes maior que os 10% mais pobres. Isso significa que se toda a população mundial se resumisse a dez pessoas, o indivíduo mais rico ganharia dez vezes mais dinheiro que o indivíduo mais pobre.

Se o mais pobre ganhasse R$ 1 mil, o mais rico teria salário de R$ 10 mil.

Será que deveria ser assim mesmo?

E essa desigualdade tem crescido.

Nos anos 80, os 10% mais ricos ganhavam sete vezes que os 10% mais pobres. Nos anos 90, essa diferença cresceu para oito vezes, enquanto a disparidade chegou a nove vezes nos anos 2000, e a dez vezes agora.

Uma disparidade tão grande como essa é ruim para todo mundo.

O estudo da OCDE mostrou que aumento da desigualdade de renda impede que o crescimento do PIB e a geração de riqueza da sociedade seja maior do que poderia ser caso a diferença entre ricos e pobres não fosse tão grande como é.

Mas não é só a diferença de rendimentos e salários que explica a desigualdade.

A riqueza acumulada é muito mais concentrada do que os rendimentos.

Os 10% mais ricos detêm metade de toda a riqueza e patrimônio do mundo, os 50% seguintes são donos de quase todo o resto, enquanto o restante da população é dono de apenas 3% das riquezas e propriedades do planeta.

Em um mundo em que houvesse apenas 100 pessoas e R$ 1 mil reais, é como se dez pessoas fossem donas de R$ 500 (com R$ 50 de cada uma), outras 50 pessoas fossem donas de outros R$ 470 (R$ 9,40 por pessoa dessa classe média), e as 40 pessoas restantes dividissem os R$ 30 que sobraram, com meros R$ 0,80 cada uma.

É uma diferença e tanto.

Levando em conta que muitos têm patrimônio negativo, já que estão endividados, essa disparidade é ainda maior e limita, e muito, os mais pobres de progredirem.

O que pode ser feito?

Não há uma fórmula mágica para resolver esse problema, mas a OCDE propõe quatro caminhos principais para diminuir essa desigualdade, todas com ação do governo.

1. Políticas que eliminem tratamentos diferentes entre homens e mulheres no mercado de trabalho, para que elas tenham chances iguais de terem os mesmos salários e as mesmas perspectivas de progresso profissional e promoções na carreira.

Estudos mostram que o empoderamento feminino na história foi um vetor que fez diminuir a desigualdade social.

2. O desenvolvimento de empregos de boa qualidade, com possibilidade de progredir dentro da carreira e não que sejam um fim em si mesmas, como em vários casos em que as pessoas acabam passando o resto da vida fazendo praticamente a mesma coisa, sem grandes alterações salariais.

3. Investimento em educação de qualidade desde o ensino básico, de maneira que crie situações menos desiguais entre jovens ricos e pobres nas fases iniciais da carreira e no ingresso ao mercado de trabalho.

Depois disso, há a necessidade de atualização contínua ao longo da carreira e da vida adulta para desenvolver as habilidades e competências necessárias para acompanhar o ritmo das inovações tecnológicas, com participação ativa além do estado. Empresas e sindicatos também deveriam participar desse processo de educação.

4. Reforma tributária que alivie a incidência de impostos sobre os mais pobres. No Brasil, através de impostos indiretos sobre o consumo, a carga tributária é muito maior sobre os rendimentos dos mais pobres do que sobre os mais ricos.

Afinal, se o imposto para quem faz a compra no supermercado representa 1/3 do valor final da compra, isso pesa muito mais no orçamento dos mais pobres do que dos mais ricos.

Imagine uma compra de R$ 500 por mês no supermercado, em que R$ 150 vão para o governo via impostos.

Esses R$ 150 representam 15% sobre um salário mínimo de aproximadamente R$ 1 mil, enquanto significam apenas 1,5% de quem tem renda de R$ 10 mil por mês. Faz muita diferença.

Chega de teoria

No final das contas, se Jeff Bezos é bilionário ou qualquer outro CEO tem um salário milionário, isso não quer dizer que isso é injusto por eles não trabalharem muito mais horas que alguém que ganha um salário mínimo.

Dizer que a diferença salarial se dá apenas por quantidade de horas trabalhadas é supor que não há diferença nenhuma na qualidade do trabalho de cada um.

Fosse assim, bastaria colocar qualquer um de nós no lugar do Jeff Bezos e do Bill Gates que criaríamos a Amazon e a Microsoft do mesmo jeito que eles criaram.

Se não houvesse diferenciação do trabalho, não pagaríamos mais caro pelo cabeleireiro que corta o nosso cabelo do jeito que a gente gosta. E nem preferiríamos ir a um restaurante em vez e outro, afinal, seria o mesmo corte e a mesma comida em qualquer lugar.

Além disso, não é porque uma pessoa é rica, que ela é má.

Esse é um raciocínio muito preconceituoso, que limita a capacidade de progredir de quem pensa assim.

O dinheiro dá a liberdade de a pessoa ser quem ela é. Afinal, quando não temos dinheiro suficiente, não temos a liberdade de fazer tudo o que queremos.

Quando algumas pessoas atingem a liberdade financeira, elas podem ser elas mesmas. E ser "você mesmo" pode significar ser uma pessoa ruim. Enquanto, para outros, significa ter a possibilidade de ajudar mais o próximo, de ajudar a comunidade, de dar uma qualidade de vida melhor para seus funcionários. Depende de cada um.

Por fim, em algum nível, a desigualdade faz parte do capitalismo e serve para estimular as pessoas a estudar, trabalhar e progredir para enriquecer.

Não fosse assim, não teríamos as redes sociais como Whatsapp, Instagram e YouTube. Nem o celular e o notebook que usamos todo dia. Todos eles foram criados a partir da vontade de alguns empresários de ganharem mais dinheiro, criando um produto ou um serviço que atendesse melhor seus clientes.

O problema é quando a desigualdade fica tão grande que os próprios incentivos começam a parecer desestimulantes, como pode estar acontecendo.

Assim, o ponto que eu questionaria não é porque alguns ganham muito. Mas eu me perguntaria por que outros ganham tão pouco.

Não vejo nenhum problema em ver milionários e bilionários. O que me incomoda é ver pobres e miseráveis, que são coisas diferentes e não precisaria acontecer se tivéssemos os governos e a instituições trabalhando para progredir e enriquecer, enquanto geram as condições e incentivos necessários para que todos tenham chances menos desiguais do que hoje.

Mudando de assunto

No vídeo em que a Yolanda falou dos três erros da falsa diversificação nos investimentos, o Canal As aventuras de Caio e Ayla falou que, além de diversificar os investimentos por setor, é bom ter entre dez e 20 ações diferentes.

Eu gosto muito de diversificar para diminuir o risco, mas há alguns estudos que mostram que não é preciso nem ir tão longe assim. E que investir em umas sete ações diferentes já é diversificado o bastante, e ir muito além disso dificulta o acompanhamento de qualidade nas empresas que está investindo.

Ah! E não podemos esquecer que a diversificação também tem que levar em conta os investimentos em renda fixa, que são mais seguros, além de termos a nossa reserva de segurança em dia.

Falamos muito disso no Econoweek e é só buscar nossos vídeos no YouTube na playlist de investimentos ou de finanças pessoais para ver mais conteúdo desses assuntos.

No vídeo que mostrei a minha seleção dos dez melhores cursos de investimentos, o Rafael Lucena falou que está interessado em fazer o curso de análise fundamentalista de investimentos da faculdade Saint Paul, mas que está meio caro.

Rafa, a Saint Paul é uma instituição bem conceituada e reconhecida, mas várias faculdades de renome, deixaram seus cursos online gratuitos e nesse vídeo eu mostrei vários, inclusive da FGV, Udemy e Insper.

Dá uma olhada, que vale muito a pena!

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.