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Os juros negativos chegaram à renda fixa e fazem você perder dinheiro

César Esperandio

César Esperandio

César Esperandio é economista com ênfase em planejamento financeiro, com larga experiência no mercado financeiro. Já atuou em setores macroeconômicos de bancos e consultorias, além de ter passado por empresa de pesquisas de mercado. Hoje se dedica exclusivamente ao Econoweek, com foco em investimentos.

24/07/2020 04h00

A taxa Selic está baixa e todo mundo já sabe disso! Mas o que ninguém nunca te explicou direito é que depois que você desconta a taxa de custódia (aquela que você paga para a B3 guardar seus investimentos de maneira segura), o Imposto de Renda e a própria inflação, terá um rendimento negativo ao investir no Tesouro Selic. Exatamente isso: você perde dinheiro.

Eu sou César Esperandio, economista do Econoweek, a tradução da economia. E, nesse artigo, bem como no vídeo acima, vou traduzir o que é o juro real negativo do seu investimento e como conseguir ter rendimentos melhores na renda fixa sem se expor tanto ao risco.

A realidade do juro negativo já chegou ao Brasil. Para driblar isso e conseguir rendimentos positivos, eu não vou ficar de fora do Tesouro Selic para minha reserva de segurança, mas tenho uma estratégia mais agressiva que inclui ativos de renda fixa que rendem mais de 10% ao ano, como alguns CDBs e outros exemplos que vou contar aqui.

O que são juros negativos?

Antes de mais nada, os juros negativos acontecem exatamente quando a taxa de juro é menor que zero. Nessa situação, em vez de você ganhar dinheiro investindo, você tem que pagar para investir, sem receber nada em troca.

Pode parecer um absurdo, mas desde a crise de 2008, essa tem sido uma prática recorrente em alguns países ricos, como no Japão ou na Suíça.

O objetivo é fazer com que as pessoas não deixem o dinheiro parado no banco e voltem a gastar mais para reaquecer a economia.

O que é juro real negativo?

Mas você deve saber que os juros no Brasil, apesar de estarem muito baixos, não são negativos. Ao contrário, são positivos e ainda precisaria cair relativamente bastante para chegarem a zero.

O que importa de verdade não são os juros em si. A taxa de juro que faz um investimento render e gerar dinheiro para você é conhecida como "juro nominal".

Além dela, ainda existe a taxa de juro real, que desconta a inflação para saber quanto você ganhou de verdade.

Imagine que você aplicou R$ 1.000 (ou qualquer valor) a uma taxa de 2% ao ano. Essa é a taxa de juro nominal. Um ano depois, esses R$ 1.000 viraram R$ 1.020.

Só que se, ao mesmo tempo, a inflação, que é a alta de preço de tudo o que compramos, foi de 3% nesse mesmo ano, isso significa que o que você comprava com R$ 1.000 um ano antes, passou a custar R$ 1.030 um ano depois.

Você acabou de perceber que, apesar de seus R$ 1.000 reais terem rendido 2% e virado R$ 1.020, vai faltar -R$ 10 para você conseguir comprar as mesmas coisas que comprava antes, já que elas subiram de preço e passaram a custar R$ 1.030.

Apesar de você ter conseguido investir a uma taxa nominal de 2% de rendimento, seu retorno real foi -1%, já que a inflação foi de 3%.

Como saber qual é o rendimento real?

Toda vez que eu vou investir, eu verifico as projeções do Focus, relatório do Banco Central que agrupa as projeções de muitos economistas de grandes instituições.

Dessa maneira, eu sei quanto esperar para o rendimento do Tesouro Selic e para a inflação, olhando o IPCA.

Vamos supor que hoje seja o primeiro dia de 2020 e você queira investir por um ano. Então, é só olhar para a Selic e IPCA projetados para o final desse ano.

Na data que escrevo esse texto, a projeção mais recente era que a Selic estaria em 2% no final de 2020 e a inflação seria de 1,72%.

Supondo que foram essas as taxas vigentes no ano todo, você reparou que, mesmo assim, a expectativa é de juro real positivo, já que a Selic vai ser maior que a inflação medida pelo IPCA.

Mas, aqui entra o detalhe que faz toda a diferença: ao investir no Tesouro Selic, há uma taxa de custódia de 0,25% ao ano e Imposto de Renda, que na melhor das hipóteses, se deixar o investimento parado por mais de dois anos, chega a 15% sobre o rendimento.

Aliás, há uma novidade quentíssima: a taxa de custódia, a partir de agosto, passará a ser zero para quem tiver investimentos de até R$ 10 mil no Tesouro Direto. Sendo que essa faixa permanecerá isenta dessa taxa mesmo para quem tiver investimentos acima desse valor. Por exemplo: quem investir R$ 11 mil no Tesouro, pagará taxa de custódia apenas sobre os R$ 1.000 que excederem os R$ 10 mil isentos dessa cobrança.

Porém, como na minha conta eu considerei a menor alíquota de Imposto de Renda, vou desconsiderar isso por simplificação.

O juro nominal de 2% já vira 1,75% ao descontar a taxa de custódia. Ao descontar o Imposto de Renda de 15% sobre o rendimento, o juro da sua aplicação cai para 1,5%. Esse será rendimento líquido de impostos e taxas.

Agora é que você vai descontar a inflação. Se ela for de 1,72%, como os economistas esperam, seu rendimento real no ano vai ser de -0,2%.

Isso significa que se você investiu R$ 1.000 no começo do ano, um ano depois isso viraria R$ 1.020. Ao descontar a taxa de custódia, esse valor cai para R$ 1.017. Desconta o Imposto de Renda e cai para R$ 1.015.

Só que com a inflação de 1,72%, as mesmas coisas que você comprava com R$ 1.000 um ano antes passaram a custar R$ 1.017.

Ficou bem claro que pode até parecer que você está ganhando um pouquinho. Mas, na realidade, você está perdendo.

Como encontrar juros altos na renda fixa?

O único remédio para contornar isso e ter rendimentos acima da inflação é diversificar seus investimentos em busca de melhores rentabilidades.

Eu não recomendo que você tire seu dinheiro da sua reserva de segurança do Tesouro Selic, do seu CDB de liquidez diária ou da sua Nuconta, já que esses tipo de investimento não têm como objetivo ter rentabilidades altas, mas sim te dar a tranquilidade de poder contar com aquele dinheiro a qualquer momento que precisar.

É por isso que o conselho é ter uma reserva de segurança equivalente a seis ou doze meses dos seus gastos mensais médios. Daí em diante, você tem que buscar rendimentos melhores, atrelados a maiores riscos e menor liquidez.

Traduzindo, você pode arriscar mais o dinheiro que você sabe que não vai precisar no curto prazo, até porque o sobe e desce perde importância quando você mira em prazos maiores de retorno.

Hoje, não vou nem falar de ações, algo tão procurado por pessoas físicas neste ano. Mas mesmo dentro da renda fixa há boas oportunidades fora dos objetivos da reserva de segurança.

Eu mesmo acabei de ver um CDB de um banco pequeno com taxa prefixada de 12% ao ano, que é um ótimo rendimento já que é garantido pelo FGC se você investir até R$ 250 mil nesse título. Só que você tem que deixar o dinheiro investido por seis ou sete anos.

Além disso, há investimentos de renda fixa alternativos, tais como:

  • CCBs da MatchMoney, com selo de segurança da ABFintechs e rendimentos de mais de 400% do CDI. Eles disponibilizam empréstimos às empresas com juros mais baixos, que deixam um imóvel como garantia (o que permitiu que eles tenham inadimplência zero), enquanto é possível investir em renda fixa com essa segurança, aumentando a rentabilidade da carteira, sem estar tão exposto à possibilidade de nova queda da Bolsa;
  • Na Hurst Capital é possível investir até em direitos autorais de músicas em streaming, em que o artista antecipa seus recebíveis e o investidor o ajuda com isso em troca de rendimentos;
  • A Glebba, uma plataforma que permite escolher em qual empreendimento imobiliário investir com a partir de R$ 1.000, que é muito menor que a entrada de qualquer financiamento, e oferecem retornos superiores à renda fixa;
  • A Nexoos faz o papel de intermediadora entre pessoas dispostas a investir e empresas que querem esse investimento. Além da intermediação em uma plataforma digital, também avaliam o risco de cada empresa para que o retorno do investimento esteja alinhado ao risco.

Aliás, já fizemos um vídeo mostrando as ações "imunes" ao coronavírus e outro mostrando quais são as ações defensivas da Bolsa, além de termos uma playlist no YouTube só de dicas de investimentos, passando por fundos imobiliários e várias opções. Já é um bom começo para você decidir por onde começar a investir. Está tudo no canal Econoweek no YouTube.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.