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0,24 Ago.2020
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Para que serve a reserva de emergência e por que te ensinaram isso errado?

César Esperandio

César Esperandio

César Esperandio é economista com ênfase em planejamento financeiro, com larga experiência no mercado financeiro. Já atuou em setores macroeconômicos de bancos e consultorias, além de ter passado por empresa de pesquisas de mercado. Hoje se dedica exclusivamente ao Econoweek, com foco em investimentos.

28/08/2020 04h00

Durante a última crise, muita gente perdeu o emprego ou teve o salário reduzido. Quem tem uma empresa ou é profissional autônomo também teve que enfrentar um período de "vacas magras", com muito menos dinheiro entrando em caixa.

Enquanto isso, os boletos e as faturas não pararam de chegar e, para muita gente, a conta não fechou no fim do mês.

Você passou por isso? Qual foi a sensação? Foi de desespero ou, apesar de não estar feliz com a situação, tinha dinheiro guardado para enfrentar toda a situação tranquilamente?

Eu sou César Esperandio, economista do Econoweek, a tradução da economia. E, nesse artigo, bem como no vídeo acima, vou traduzir o conceito de reserva de emergência, já que a crise escancarou a importância de ter esse dinheiro para lidar com situações inesperadas (que não são tão inesperadas assim). Vou mostrar como investir sua reserva e te dar dicas sobre o que eu olho para escolher meus investimentos.

Imprevistos (sejam eles bons ou ruins) não são tão imprevisíveis assim. A gente sabe que eles vão acontecer. Só não sabemos quando.

A diferença é que algumas pessoas estão preparadas e têm dinheiro para tudo isso, mesmo sem saber quando elas vão acontecer, e outras são pegas de surpresa.

Quem tem uma reserva de segurança não é pego de "calça curta" e não precisa se desesperar com nada disso. Ao contrário, pode até curtir algumas dessas situações, enquanto outros estariam "arrancando os cabelos" de estresse.

Você reparou que eu comecei falando de "reserva de emergência" e agora estou falando de "reserva de segurança".O sentido é o mesmo, mas eu prefiro chamar de reserva de segurança:

  1. Primeiro, porque o dinheiro dessa reserva não é para ser usado só em emergências (pode ser uma oportunidade como uma viagem de estudos);
  2. O segundo motivo é que o cérebro humano evita pensamentos que envolvam "emergências", afinal, a gente espera que emergências nunca aconteçam, embora coisas não planejadas aconteçam o tempo todo.

Então, deixa eu mostrar algumas situações em que é muito útil ter uma reserva de segurança.

Para que serve a reserva de segurança?

A reserva de segurança é feita para coisas como:

  • Uma perda de emprego ou renda, tendo a tranquilidade de conseguir manter o mesmo padrão de vida até arrumar outro emprego ou as receitas voltarem a melhorar;
  • Consertar o celular quebrado;
  • Estar preparado para um presente de casamento, caso seja convidado para ser padrinho, ou até para fazer uma viagem em um convite de última hora;
  • Ter liberdade de escolha por não precisar tolerar abusos do chefe chato (já que não tem medo de ser demitido) e;
  • O mais importante, ter a tranquilidade de saber que mesmo que as coisas comecem a dar errado, tudo vai dar certo, pois você está preparado para isso.

E esses foram só alguns exemplos!

Qual é o tamanho da reserva de segurança?

Eu acabei de falar situações em que é muito útil (para não dizer fundamental) ter uma reserva de segurança. Mas qual é o tamanho dessa reserva?

O recomendável é que você tenha dinheiro equivalente a entre seis e 12 meses dos seus gastos mensais médios investidos na sua reserva de segurança.

Se você costuma gastar R$ 1.000 por mês, é legal ter entre seis e 12 vezes esse valor na sua reserva. Ou seja, entre R$ 6.000 e R$ 12 mil.

Se seus gastos giram em torno de R$ 5 mil, é só multiplicar isso por seis ou 12 para chegar ao tamanho recomendado da sua reserva de segurança. Nesse caso, seria entre R$ 30 mil e R$ 60 mil.

A verdade é que isso não está "escrito em pedra". Você pode ter o valor que te deixar confortável, que pode ser um pouco menos ou muito mais do que isso.

Se você for um funcionário público, com estabilidade, pode pensar em algo mais próximo dos seis meses. Se for CLT, com carteira assinada, algo no meio do caminho. Já se for um profissional autônomo ou um pequeno empresário, é melhor ter algo mais próximo dos 12 meses.

A reserva de segurança, e todos os investimentos, servem para dar a tranquilidade no presente de sabermos que temos um futuro muito mais garantido. Então, fique à vontade para montar a sua como for melhor para você.

A paz que essa reserva de segurança te proporcionará vai ser um bom termômetro para definir o tamanho que ela deve ter.

Características dos investimentos da reserva de segurança

Que tipo de investimento serve para a reserva de segurança? Eles precisam ser ativos seguros, de liquidez imediata e, atendidas as duas hipóteses anteriores, ter a melhor rentabilidade possível.

Traduzindo para o português, a reserva de segurança precisa ter três características:

1. Liquidez imediata: o dinheiro precisa estar disponível para você usar a qualquer momento. Não dá para deixar esse dinheiro investido em um fundo que só permite o saque após 30 dias de você solicitar o resgate. Afinal, ele serve para imprevistos. E nenhum imprevisto espera tanto tempo.

Então, é preciso que seja um investimento que se converta em dinheiro à mão instantaneamente;

2. Segurança elevada (baixo risco): como o dinheiro da reserva de segurança tem que estar disponível assim que precisar, é fundamental que você escolha investimentos seguros para isso.

Imagine que você tenha colocado sua reserva de segurança em investimentos como ações: além de não haver garantias de que você consiga vender suas ações para ter dinheiro à mão (apesar de ser razoavelmente fácil fazer isso), o mais importante é que esse é um investimento muito volátil e você pode ter prejuízo por se desfazer de suas ações justamente em um momento em que elas estão em baixa.

Já imaginou investir R$ 10 mil hoje, daqui a uns meses, justamente na hora que mais precisar, ter só R$ 5 mil por que as ações caíram bem nesse dia? Não seria legal, não é?

Então, sua reserva de segurança precisa estar investida em ativos seguros e com pouco (ou nenhum) "sobe e desce";

3. Rentabilidade razoável: atendidos os dois critérios anteriores, o que você vai buscar é a melhor rentabilidade possível para sua reserva de segurança. Mas esse não será o foco.

Nos investimentos, quanto mais seguro e mais líquido (mais "à mão") é um investimento, menor tende a ser sua rentabilidade.

Então, lembre-se: a reserva de segurança não serve para buscar rentabilidades extraordinárias, mas sim para te dar a tranquilidade de poder contar com esse dinheiro a qualquer momento que precisar.

Agora, irei contar quais são e onde encontrar investimentos com essas características para montar sua reserva de segurança.

No que investir a reserva de segurança?

Muita gente deve ter lembrado imediatamente da poupança para a reserva de segurança. Apesar de a poupança ser, sim, um investimento seguro e de liquidez imediata, ele deixa a desejar em rentabilidade.

Para quem investiu na poupança de 2012 para cá, na chamada Poupança Nova, a rentabilidade é de 70% da Selic. Isso significa que ela vai render pouco mais de 2/3 da taxa Selic.

Se a Selic estiver em 2%, a poupança vai render apenas 1,4% ao ano. Esse rendimento é menor que a inflação e, na prática, apesar de seu dinheiro estar crescendo, a inflação cresce mais rápido e você consegue comprar menos coisas do que antes com ele.

Então, vou mostrar os principais investimentos para a reserva de segurança:

  • Tesouro Selic: é o investimento de renda fixa da fonte mais segura do Brasil, que é o próprio governo. Ele tem todas as duas características fundamentais, que é liquidez imediata e baixo risco, com rentabilidade razoável para esse tipo de investimento. Vai ter rendimento muito parecido com a Selic;
  • Fundos de renda fixa: são um conjunto de investimentos geridos por um profissional especializado. Se você prefere deixar que outra pessoa cuide disso para você, essa pode ser uma boa alternativa. Atenção às características de sempre (alta liquidez e baixo risco), mas também fique atento às taxas de administração, que também têm que ser baixas para esse investimento fazer sentido para a reserva de segurança;
  • CDBs de liquidez diária: esse tipo de investimento também é garantido pelo FGC e é muito seguro. Mas fique atento à rentabilidade. É preciso que te pague 100% do CDI ou mais.

"100% do CDI" significa que o investimento vai render exatamente a taxa Selic, de modo que é uma rentabilidade justa para esse propósito. Se encontrar CDBs que paguem mais do que isso e ainda tenha liquidez imediata, pode investir para sua reserva de segurança, que é "sucesso".

Onde pesquisar sobre investimentos?

Agora, vamos à dica bônus para você pesquisar onde investir sua reserva de segurança e, assim, poder se virar sozinho:

  • O App Renda Fixa é um buscador que elenca todas as opções de investimentos em renda fixa, do Tesouro Direto às debêntures de todas as corretoras, mostrando suas rentabilidades, prazo de retorno e risco de cada um. São justamente os títulos com vencimento mais longo que apresentam as melhores taxas de retorno;
  • Com função muito parecida, a ferramenta Yubb também funciona como um buscador de investimentos de diversas corretoras ao mesmo tempo, mas vai além da renda fixa e também elenca outros ativos não recomendados para a reserva de segurança, como fundos de investimentos de renda variável, fundos imobiliários, ETFs, etc.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.