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Graciliano Rocha

REPORTAGEM

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Haddad critica Americanas por fraude e "tombo" em 16 mil credores

Colunista do UOL

15/02/2023 13h30

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O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, adotou um tom crítico para falar sobre as manobras contábeis que esconderam ao menos R$ 20 bilhões da dívida nos balanços das Americanas, levando a varejista à recuperação judicial.

"O André [Esteves, sócio do BTG] um dia falou pra mim assim: 'estou com um problema microeconômico', e eu disse: 'não, nós estamos com um problema macroeconômico porque é meio por cento do PIB'", contou Haddad, que participou de evento do BTG nesta quarta-feira (15), em São Paulo.

O BTG é um dos bancos prejudicados pelas manobras da companhia, tendo ao menos R$ 1,2 bilhão a receber.

O ministro reforçou a carga: "Pô, um cara que dá um tombo de meio por cento do PIB em 16 mil credores e nós estamos esperando um pronunciamento? Cadê a solução?"

Haddad não citou nominalmente nenhum acionista de referência das Americanas - o trio Jorge Paulo Lemann, Beto Sicupira e Marcel Telles, também é controlador de outras empresas, como a Ambev.

O trio foi muito criticado por ter levado uma semana para se manifestar pela primeira vez sobre a situação das Americanas após o anúncio do rombo. Por meio de nota, os acionistas de referência disseram não ter conhecimento das manobras que excluíram bilhões de reais de endividamento dos balanços.

"Aquilo [a dívida não lançada no balanço] veio à tona por causa da taxa de juros, você poderia rolar mais três ou quatro anos aquela bagunça lá. Em algum momento ia se perceber. De repente, a taxa sobe de 2% para quase 14% o corpo boia, o cadáver que estava lá no fundo mar sobe e aí fica tudo exposto", prosseguiu o ministro.

"Agora foi um problema de fraude, mas e daqui um mês, dois meses, seis meses? Será que aquele que se comportou bonitinho, que pagou seus fornecedores, que registrou suas dívidas vai suportar isso [juros altos]?"

Briga de Lula com o Banco Central

As críticas às Americanas foram feitas em um contexto em que Haddad respondia a uma pergunta do economista-chefe do BTG, Mansueto Almeida (ex-secretário do Tesouro no governo Temer e no início do governo Bolsonaro), sobre a conciliação da questão fiscal com a melhora em indicadores de desigualdade e combate à pobreza.

No evento do BTG, houve sucessivas tentativas de distensionar o ambiente entre Ministério da Fazenda e o Banco Central na sequência das críticas feitas por Lula ao presidente do BC, Roberto Campos Neto, por conta da taxa de juros de 13,75% ao ano e da autonomia da instituição.

No mesmo evento do BTG, na terça, Campos Neto disse que era necessário dar um voto de confiança ao governo do PT, que estava no início da gestão. Ao tratar de Campos Neto, Haddad se equilibrou entre a crítica e o afago à autoridade monetária.

Primeiro deu uma no cravo: "Eu acho que a situação é melhor do que um mês atrás, embora reconheça que as expectativas estejam muito contaminadas pelo ruído todo. Sei que está e lamento que esteja e lamento ainda se a autoridade monetária se deixar levar por isso. Não é esse o papel, se deixar levar pelo ruído, tem que levar pro fundamento".

Logo depois, na resposta seguinte, deu outra na ferradura: "Todo dia Fazenda e BC conversam, não tem como não conversar porque tem decisões conjuntas para tomar, projetos de lei que chegam na Receita ou na Procuradoria da Fazenda que vêm do BC. A gente tem dúvidas para tirar. A comunicação nunca deixou de existir nem deixará. Não há como governar sem essa tranquilidade de pegar no telefone e somar".