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José Paulo Kupfer

Queda de Teich é outra crise criada por Bolsonaro que ajuda a afundar país

José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

15/05/2020 16h43

A Bolsa brasileira já mostrava fraqueza, na manhã desta sexta-feira (15), mas o Ibovespa, seu principal índice, embicou tendência de baixa por volta do meio-dia. Ao mesmo tempo, a cotação do dólar, no mercado cambial, abriu em baixa, mas voltou a oscilar no fim da manhã, apontando trajetória de alta. Os mercados reagiram negativamente ao anúncio da saída do ministro da Saúde, Nelson Teich, menos de um mês depois de assumir.

Reações do mercado derivam de um amplo e variado conjunto de elementos. A primeira reação é um sinal, mas nem sempre pode ser tomada como indicador de tendência. Mas, em meio a um ambiente econômico externo frágil e volátil, a tendência, refletida pelas trajetórias da Bolsa e da cotação do dólar, não está deixando dúvidas de que as sucessivas instabilidades políticas produzidas pelo presidente Jair Bolsonaro andam afetando, negativamente, o clima dos negócios.

No momento atual, a atividade econômica também espelha os resultados adversos do combate à pandemia de Covid-19. A escalada de casos de infecção e de mortes responde às interferências de Bolsonaro, igualmente produtoras de instabilidade, na área específica da Saúde.

Contaminados pelas incertezas econômicas, derivadas dos impactos da pandemia no mundo dos negócios, os mercados estão mais sensíveis do que de costume com as ações no campo político. E, neste campo, Bolsonaro tem se firmado como elemento gerador de crises em sequência. Manter a área crucial da Saúde em permanente instabilidade e desorganização é tudo o que um governo não deveria fazer em tempos de pandemia.

É inevitável que, em ambiente tão infectado, a reação da economia seja negativa. Já fortemente abalada pela paralisação nas linhas de montagem, nos balcões das lojas e no fornecimento de serviços, as crises causadas por Bolsonaro ajudam a empurrar a atividade econômica rumo a uma contração inédita.

Reações planejadas e organizadas têm sido capaz, em outros países, de mitigar as perdas - de vidas e econômicas. Disciplina no cumprimento das medidas de isolamento é a a chave encontrada até agora para conter os casos de infecção e, principalmente, de mortes. As evidências estão confirmando que, quanto mais rápido e mais eficaz for o isolamento, mais cedo e mais bem sucedido será o retorno da atividade econômica.

O Brasil tem sido um ponto negativo fora da curva entre os países às voltas com a pandemia e a virtual paralisação das atividades econômicas. Todas as economias estão sendo fortemente atingidas, na fase inicial de propagação do vírus, mas as perspectivas de saída, nas etapas posteriores ao relativo controle do contágio - e do alívio da pressão sobre os sistemas de saúde - estão permitindo revisões favoráveis nas projeções. No caso brasileiro, as expectativas, em razão das incertezas em relação à eventual futura retomada, são mais pessimistas.

A publicação, pelo Banco Central, nesta quinta-feira (15), do IBC-Br de março, que é tido como uma medida que antecipa os movimentos do PIB (Produto Interno Bruto), ainda é apenas uma indicação de quanto a economia será afetada pela pandemia. O recuo de 5,9%, em relação a fevereiro, significou recuo de queda 2% no primeiro trimestre, mas em março os estragos da Covid-19 ainda eram incipientes.

Este resultado está em linha com as projeções para a evolução do PIB, de queda de 2%, no primeiro trimestre. Para o segundo trimestre, quando os efeitos da pandemia e das medidas de isolamento influenciarão em cheio a atividade, a contração prevista é inédita, alcançando as vizinhanças de 10%, a exemplo do que se espera para outras economias muito afetadas pela Covid-19, como as de Estados Unidos e Reino Unido.

A diferença é que, a esta altura, países que adotaram o isolamento com consciência e adotaram programas de sustentação de empresas, trabalhadores e vulneráveis mais eficazes, já estão ingressando numa segunda fase de reabertura controlada da economia. Isso deverá reduzir propiciar retomada mais rápida e consistente.

Com a insistência do presidente em relaxar o isolamento antes do controle da infecção, e a até aqui baixa efetividade dos programas de suporte econômico, o Brasil pode caminhar para uma inusitada contração na vizinhança de 10%, em 2020. As recorrentes crises políticas alimentadas por Bolsonaro terão, com certeza, importante parcela de responsabilidade nesse histórico mergulho.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

José Paulo Kupfer