José Paulo Kupfer

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Opinião

Inflação já reflete puxa-estica entre gasto público e juros restritivos

A marcha da inflação, medida pela variação do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), promete percorrer uma gangorra em 2024, mas dentro de um intervalo de altas moderadas.

Esses altos e baixos na curva da inflação refletiriam a luta entre o impulso da demanda, promovido pela ampliação de gastos públicos, determinado pelo governo Lula, e a contenção dessa mesma demanda por uma política de juros restritivas, promovida pelo Banco Central.

Crescimento e inflação em ritmo moderado

Se tudo correr de acordo com esse quadro de puxa-estica, a economia crescerá um pouco mais do que 1,5%, que é a previsão mediana do momento, podendo até passar de 2%, mas sem expectativas de saltos mais fortes. Na mesma linha, a inflação ainda ficará acima da meta, mas se manterá dentro do intervalo de tolerância.

Nas projeções de Fabio Romão, economista da LCA Consultores que acumula grande experiência em acompanhamento de preços, a inflação deve cair até perto de 3,7%, em abril, no acumulado de 12 meses. De maio a outubro, o índice acumulado registraria altas até o pico nas redondezas de 4,2%.

Se as previsões se confirmarem, a inflação pelo IPCA fecharia 2024 em torno de 4%, como já está sendo previsto no Boletim Focus, que reúne estimativas de uma centena de economistas, a maioria do mercado financeiro. É um nível acima do centro da meta de inflação, de 3%, mas dentro do intervalo de tolerância, que vai até 4,5%.

Mês a mês sem estouros

Em termos mensais, as estimativas apontam pico de alta em fevereiro, em torno de 0,8%, com o IPCA sendo puxado principalmente pelas elevações sazonais de mensalidades escolares e por um repique altista dos voláteis preços das passagens aéreas, no período de alta temporada de férias.

No restante de 2024, mês a mês, não há previsão de que a variação do IPCA supere 0,4%, aceleração prevista para dezembro. O nível mensal mais baixo ocorreria em junho e julho, com alta de 0,2% em cada mês.

Embora tenha recuado em janeiro 2024, na comparação com dezembro de 2023, de 0,56% para 0,42%, e também caído no acumulado em 12 meses de 4,62%, em dezembro, para 4,51%, para analistas, piorou a composição do IPCA, no primeiro mês do ano.

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Alimentação e serviços

Alimentação, grupo de grande impacto no orçamento das faixas de renda mais baixas, por exemplo, registrou alta de preços entre dezembro e janeiro. Foi, aliás, o grupo responsável pela maior participação no IPCA de janeiro, com preços 1,38% mais elevados. O grupo não deve repetir a deflação registrada em 2023, quando a alimentação no domicílio recuou 0,5

Depois de alta de apenas 1% em 2023, os preços no grupo alimentação devem subir em torno de 4,5%, em 2024. Mas, lembra Fabio Romão, este é um nível que pode ser considerado próximo da normalidade, quando se observa a série histórica.

De olho nos núcleos

Também foram registradas pressões, em janeiro, no segmento de “serviços subjacentes” — que excluem segmentos mais voláteis como turismo, passagens aéreas, tarifas de internet. Mais sensível às trajetórias da massa de salários, e por isso, acompanhado de perto pelo BC, o sub-grupo registrou alta de 0,76%, em janeiro. A expectativa é que encerre 2024 com aceleração de 5%, repetindo o ritmo de alta de 2023, acima da variação do IPCA como um todo.

A média dos núcleos de inflação — medidas que excluem preços com variações sazonais, voláteis ou por razões extraordinárias —, igualmente recuou em relação a dezembro, de 0,45% para 0,42%, em janeiro, mas terminou bem acima das previsões de alta de 0,31%. A resistência dos núcleos de inflação é um fator de preocupação, em meio ao ambiente de expectativas favoráveis para a inflação, em 2024.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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