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"Tocaram em um medo que eu sempre tive", diz vítima de falso sequestro

klebercordeiro/Getty Images
Imagem: klebercordeiro/Getty Images
Flávio Tasinaffo

A coluna Tudo Golpe é a extensão de um projeto criado por Flávio Tasinaffo com o objetivo de alertar e ajudar as pessoas a não caírem em golpes rotineiros. Siga também em facebook.com/tudogolpe e no Instagram @portaltudogolpe

06/08/2020 05h00

Eu me julgava preparado, mas descobri que diante de algumas circunstâncias, ficamos muito vulneráveis.

O golpe do falso sequestro é antigo e já foi abordado por esta coluna. A decisão de retornar ao tópico deve-se a um depoimento emocionado que recebemos, esta semana, de um seguidor que acompanha o Tudo Golpe, no Facebook, desde o seu princípio. Ele foi abordado por criminosos que disseram estar com a tia dele. Em respeito a um pedido que nos fez, vamos mantê-lo no anonimato.

"Dizem que um avião não cai por um único motivo, mas por um conjunto de fatores que, simultâneos ou não, provocam o acidente. Tornei-me uma vítima de um golpe por diversas razões que, juntas, conspiraram para isso".

Antes de fazer qualquer julgamento, vamos entender que os criminosos adotam algumas estratégias para que sejam bem-sucedidos em seus golpes. Por exemplo, eles costumam ligar muito cedo, para que as vítimas estejam despertando e com dificuldade para distinguir o real do quimérico.

"Fui surpreendido em um momento vulnerável; acordado por um telefonema, às 6 da manhã. Normalmente, eu nem atendo quando não conheço o número de origem ou se aparece como desconhecido. Mas eu imaginei ter atendido o telefone fixo e lido o nome 'Tia'. Eu, então, a ouvi dizer: 'entraram na minha casa'. Logo depois, um homem assumiu a conversa e disse: 'ela disse que você vai resolver tudo para ela'; fez ameaças e me extorquiu. Quando tudo terminou, eu me dei conta que a ligação havia sido feita, na verdade, para o meu celular e a partir de um número desconhecido. O restante foi fruto de minha imaginação sonolenta".

E se os bandidos acertarem, ainda que involuntariamente, em um ponto fraco da pessoa abordada, fica ainda mais difícil agir com racionalidade.

"Tocaram em um medo que eu sempre tive. Minha tia é idosa, mora sozinha e a segurança dela sempre é uma preocupação para mim. Assim que o telefone tocou, imediatamente pensei que pudesse ser ela".

Conversamos com a psicóloga cognitivo comportamental, Dra. Marcia Cristina de Altisent Oliveira Cardoso, que fundamentou esta percepção. Ela explicou que, quando estamos em situações em que o medo está nos conduzindo, pensamentos automáticos acabam por influenciar os nossos comportamentos: "os golpistas sabem exatamente o que fazer para não nos deixar pensar e, por consequência, deixarmos a nossa emoção aflorar".

Quando ouvimos o relato de uma vítima, como ocorreu com o nosso seguidor, as táticas dos criminosos ficam mais evidentes:

"É uma lavagem cerebral. A partir do momento que você atende à ligação, não lhe deixam mais desligar; ficam falando o tempo todo para que você não faça outra ligação e não tenha tempo para raciocinar".

Diziam que iam matar minha tia, atear fogo, cortar o pescoço dela e esconder o corpo para que ninguém jamais encontrasse.

O pagamento da extorsão se deu, primeiro, por transferência bancária para diferentes contas a partir do celular da vítima. Quando o limite diário foi atingido, ele precisou sair de casa para realizar saques e depósitos. "Durante todo este processo, sempre estive em contato com algum criminoso. Se a ligação caía, eles religavam imediatamente e falaram tanta coisa que fica até difícil de lembrar de tudo. Assim que concluí os depósitos presenciais, eles anunciaram que tudo havia terminado e desligaram".

Nosso seguidor dividiu conosco algumas percepções: "embora pareça um paradoxo, creio que algumas pessoas mais racionais do que emotivas possam ter mais dificuldade para lidar com este tipo de situação. Mas, tentar manter a mente no lugar certo é fundamental".

A psicóloga Cristina Altisent complementa: "para voltar à racionalidade, é preciso tentar analisar os fatos friamente, mesmo que estejamos sendo pressionados".

A vítima concluiu seu relato compartilhando as lições que tirou a partir do episódio: "eu deveria ter desligado o telefone imediatamente ou, se fosse para falar qualquer coisa, poderia ter pedido que o suposto sequestrador confirmasse algumas informações, como o meu nome e o de meu familiar. E, além de tudo, eu estava sozinho. Ter alguém por perto para ajudar a raciocinar teria sido muito importante".

Ele está certo.

- Procure ligar para o parente citado pelos golpistas ou para alguém que possa lhe ajudar a avaliar o cenário;

- Se não puder fazê-lo naquele momento, peça informações específicas que somente o parente supostamente sequestrado saberia responder;

- Não faça depósitos e transferências bancárias;

- Se imaginar que um sequestro realmente está em curso, acione a Polícia Militar (190);

- Não deixe de denunciar; muitas vítimas, por vergonha, deixam de fazê-lo.

Um ponto que quero acrescentar é: se você já foi vítima do golpe, há algo que pode fazer para tentar recuperar seu dinheiro. Acione judicialmente o beneficiário da conta em que você realizou o depósito e inclua o banco nesta demanda. O banco, além de quebrar o sigilo deste recebedor, precisará ter o processo de abertura desta conta auditado. Se documentos falsos foram apresentados pelo correntista, por exemplo, a instituição financeira passa a ter responsabilidade e deve ser incluída no processo.

Com mais pessoas em casa, por conta da pandemia do coronavírus, os criminosos estão se valendo desses golpes mais antigos aplicados por telefone. O do falso sequestro causa pânico, prejuízo financeiro e deixa marcas emocionais muito fortes.

Quero agradecer, sinceramente, a confiança que nosso seguidor depositou no Tudo Golpe ao dividir conosco esta experiência traumática. "Gostaria de contribuir para que as pessoas não caiam neste tipo de golpe", ele nos disse.