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0,24 Ago.2020
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Tudo Golpe


Tudo Golpe

Desabafo: "Ele sabia tudo sobre a minha mãe; ela poderia estar morta".

Gerd Altmann/Pixabay
Imagem: Gerd Altmann/Pixabay
Flávio Tasinaffo

A coluna Tudo Golpe é a extensão de um projeto criado por Flávio Tasinaffo com o objetivo de alertar e ajudar as pessoas a não caírem em golpes rotineiros. Siga também em facebook.com/tudogolpe e no Instagram @portaltudogolpe

24/08/2020 05h00

Este é um depoimento real, enviado por alguém do meu convívio, a quem empresto o espaço. Com informação, mais pessoas estarão protegidas de golpistas.

"Muitos irão julgar minha mãe, mas eu não me importo. Afinal, ela mesma, quando me ligou chorando do telefone da vizinha, disse: 'caí em um golpe, fui muito burra'.

O que eu percebo é que o que é óbvio para alguns não é tão intuitivo para outros, principalmente para os idosos e se forem envolvidos em alguma trama que, de algum modo, os toquem no coração.

Minha mãe mora no litoral e, há cerca de dois anos, veio para São Paulo para passar um final de semana. Ao voltar, descobriu que sua cadelinha, da raça Shih-tsu, havia desaparecido.

Quem já passou por isso e ama os animais sabe como é devastador. Espalhou cartazes, que geraram alarmes falsos, publicou nas redes sociais, foi aos comércios locais, à prefeitura, mas não obteve êxito.

No último sábado, um rapaz foi até a casa da minha mãe; ele a chamou pelo nome, comentou sobre o desaparecimento da cachorrinha e disse que sabia com quem ela estava. Disse que a cachorrinha, mesmo depois de tanto tempo, estava muito triste e que poderia levar minha mãe até a casa da mulher que a havia encontrado; sugeriu que minha mãe o acompanhasse naquele exato momento. Estava tarde e minha mãe disse que seria melhor se fossem na manhã do dia seguinte.

Inicialmente, o rapaz insistiu. Quando percebeu que minha mãe não iria sair, se propôs a ligar para a suposta mulher que estava com a cadelinha. Olhou para o celular dele e avisou que estava sem bateria. Pediu o celular da minha mãe emprestado e ela o entregou pelo vão do portão; ele simulou uma ligação, avisou à minha mãe que precisava anotar um endereço e pediu, às pressas, que ela lhe providenciasse uma caneta. Ela entrou em casa e, alguns segundos depois, quando voltou, o bandido havia desaparecido.

Minha mãe está triste com a perda do celular, que ela estava radiante de ter conseguido comprar em 10 parcelas de R$130. Está chateada porque só pagou duas parcelas até agora e o aparelho já deve ter sido trocado por drogas ou repassado para alguém que, ao comprar, incentiva este tipo de crime. Ela recebe um salário mínimo de aposentadoria e me disse, bastante chateada:. A gente faz tanto sacrifício pra ter as coisas

O que me assusta, porém, é que este bandido sabia o nome da minha mãe, citou o nome de três outros vizinhos, comentou que dias antes ela e uma amiga (cujo nome ele também sabia) estavam limpando a calçada, sabia do desaparecimento da cachorrinha... ou seja, ele investigou a vida dela.
O que me apavora é que a intenção inicial não era o celular. Ele a chamou para ir buscar a cadelinha. Provavelmente, ou pretendia invadir a casa ou levar minha mãe para um sequestro relâmpago. E, se fosse mais cedo, ela admitiu que possivelmente teria ido. Não é exagero dizer que minha mãe poderia estar morta.

O que me revolta é saber que são muitos os brasileiros que perdem seus bens: celulares, tênis, computadores comprados com muito suor e que, passado o susto, são obrigados a engolirem seco e agradecerem por estar bem.
É fundamental que tenhamos mais espaços como este, que orientem as pessoas a como se prevenirem.
Principalmente os mais idosos gostam de conversar. É provável que, passeando com seu outro cachorrinho, minha mãe tenha sido abordada por alguém mal-intencionado e fornecido informações valiosas para o bandido.
No celular, ela tem aplicativos de banco, do INSS, WhatsApp sem autenticação de dois fatores, números de documentos, fotos do cartão de crédito. Eu poderia e deveria tê-la orientado sobre todas essas coisas. Então, se você tem informação, compartilhe. Cuide dos seus pais, seus avós. Ative as proteções por eles, ensine-os como fazer, não cometa os mesmos erros que estou expondo aqui.

Quando somos crianças, eles nos orientam a não falar e não aceitar nada de estranhos. É nossa vez de alertá-los. O que se diz na fila do banco ou do supermercado, dentro do veículo de aplicativo ou para pessoas que você não conhece, o que se joga no lixo, as informações que constam nas correspondências, os links enviados por e-mails, os joguinhos nas redes sociais, as ligações suspeitas, o telemarketing abusivo. Tudo isso merece atenção.

Minha mãe disse: tava na cara que era tudo mentira, mas fiquei preocupada com a cachorrinha; eles são muito bons, parece que hipnotizam a gente


Sim, eles são bons e não tem dó de ninguém. Então, precisamos combater com informação. É um jogo de gato e rato em que precisamos sempre estar à frente.

Percebi que minha mãe estava até um pouco envergonhada. E, por vergonha, muitos não denunciam. E aí os golpistas vencem de novo.

Meu pedido: cuidem de seus pais e avós e fiquem atentos também, porque em um momento de forte emoção, qualquer um pode ser a próxima vítima. Agradeço ao Flávio e ao Tudo Golpe pelo espaço".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.