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Por que o real se desvalorizou mais se covid-19 também afeta outros países?

Márcio Anaya

Colaboração para o UOL, em São Paulo

22/03/2020 04h00

Os sucessivos recordes do dólar em relação ao real colocam o Brasil como o país com a moeda de maior desvalorização entre emergentes em 2020, até 18 de março.

Até o dia 18, a moeda brasileira já havia perdido 26,8% do seu valor no ano, seguida pelo peso mexicano (-26,7%), peso colombiano (-22,8%) e o rublo russo (-20,7%).

Os cálculos consideram o dólar Ptax de venda, que é apurado pelo Banco Central a partir da média das taxas de instituições financeiras. As cotações divulgadas diariamente pela imprensa podem ser um pouco diferentes.

Especialistas consultados pelo UOL dizem que o recuo forte do real está ligado à previsão de recessão mundial, com a pandemia do coronavírus.

Em momentos de crise, investidores estrangeiros saem de países de mais risco, como o Brasil, e compram em massa títulos do Tesouro americano -considerados uma das poucas alternativas seguras para preservar capital.

Ronaldo Patah, estrategista do UBS Wealth Management, diz que a credibilidade americana acaba prevalecendo, mesmo o país também sendo duramente afetado pelo coronavírus.

"Uma das nações que mais vão sofrer com a pandemia são os Estados Unidos, mas, ainda assim, o Tesouro americano é talvez a instituição mais respeitada do mundo, pelo histórico de lidar com crises." afirma.

"O dólar se mantém forte mesmo diante de uma recessão. Não é só o real que se desvaloriza, é o dólar que ganha muito valor.

Fuga de dinheiro para o exterior

O mercado de câmbio responde, basicamente, a três fatores: balança comercial, investimentos e taxa de juros. Nenhum dos três joga a favor da atração de recursos externos para o Brasil, pelo contrário.

Patah destaca a forte saída de capital estrangeiro da Bolsa de Valores brasileira neste ano.

Nos dois primeiros meses de 2020, o fluxo de capital externo na Bolsa fechou negativo em R$ 40 bilhões, quase igualando a saída líquida de R$ 44,5 bilhões no ano inteiro de 2019.

Em março, o movimento se acentuou, e o último saldo disponível mostrava uma fuga de R$ 54,9 bilhões, até o dia 13. Os números consideram apenas os negócios no mercado secundário, excluindo as ofertas de ações.

"Esses resultados já representam uma pressão enorme no câmbio", diz Patah. Os estrangeiros representam 44,5% dos investidores da Bolsa.

Economia do Brasil é muito ligada à China

O estrategista do UBS diz que o fato de a crise do coronavírus ter tido origem na China piorou rapidamente as expectativas em relação à economia brasileira.

Isso porque o país asiático é o maior parceiro comercial do Brasil, responsável pela compra de commodities como soja e minério de ferro.

Além de os preços internacionais desses produtos terem recuado, com a expectativa de uma menor demanda mundial, caíram também as estimativas de volume de compras, ou seja, a pior combinação possível. Com isso, o horizonte para a balança comercial do Brasil piora, pois a tendência é exportar menos e a um preço menor.

Petróleo e minério influenciam

"Basicamente, o mercado financeiro está interessado nas relações de preços entre as coisas. Quando eu compro algo, não estou olhando a coisa a si, mas como ela deve oscilar em função de alguma outra", afirma André Perfeito, economista-chefe da Necton Investimentos.

"E como o Brasil é muito sensível à variação de commodities, porque boa parte do mercado de capitais é atrelado a isso (Petrobras, com petróleo, e Vale, com minério de ferro), o investidor compra ou vende reais de acordo com a expectativa de alta ou baixa nos preços desses produtos." Juntas, as companhias respondem hoje por quase 20% do Ibovespa, principal índice da Bolsa.

No caso do petróleo, a briga recente entre Arábia Saudita e Rússia derrubou as cotações. O preço do Brent já caiu quase 55% nos últimos 30 dias, saindo de US$ 57,5 para cerca de US$ 27 o barril.

E como Brasil é um dos maiores produtores mundiais, sofre uma pressão imediata, que é canalizada para o câmbio. O movimento também afetou as moedas de outros países exportadores, como Rússia, México e Noruega.

Brasil não tem agora nada que atraia investidor

O economista-chefe da Quantitas Asset Management, Ivo Chermont, declara que, de maneira geral, o estrangeiro vem para o Brasil por dois motivos: juro alto, para ganhar com a diferença cambial, ou crescimento econômico vigoroso, o que abre oportunidade de novos negócios, fusões ou aquisições.

Mas atualmente o país não se enquadra em nenhuma dessas condições. "O juro é o mais baixo da história, e o crescimento não tem sido satisfatório. Portanto, o real não tem motivos para se valorizar."

BC evitou desvalorização maior do real

O professor doutor em economia internacional da FEA/USP, Simão Davi Silber, lembra que o Banco Central pode entrar no mercado de diferentes maneiras, vendendo dólares, para não deixar o real se desvalorizar demais.

Somente em março, o governo já injetou mais de US$ 15 bilhões no mercado de câmbio. O chefe global de estratégia para mercados emergentes do BNP Paribas, Gabriel Gersztein, diz que isso tem impedido uma depreciação desordenada do real.

"Nas duas últimas semanas, o real não tem se desvalorizado tanto em relação a outras moedas, graças à correta intervenção do Banco Central", afirma.

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