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Analistas ficam sem chão com a Bolsa: "não sabemos qual é o fundo do poço"

João José Oliveira

Do UOL, em São Paulo

16/03/2020 11h13Atualizada em 16/03/2020 15h47

Investidores e profissionais de mercado ficaram sem chão com a forte e rápida queda da Bolsa, que chegou a despencar 39,28% em menos de dois meses, desde que atingiu o último recorde histórico, em 23 de janeiro (mais de 119 mil pontos). A pandemia de coronavirus não estava no radar, dizem analistas. E agora, como ninguém sabe o real impacto que a doença terá sobre a economia global, analistas estão revisando cenários.

Com tamanha incerteza, as ações entraram em espiral de baixa, provocando quatro interrupções das sessões na semana passada, o chamado "circuit breaker", numa frequência que nunca havia acontecido. Nesta segunda-feira (16), a Bolsa foi interrompida de novo, após abrir em queda de mais de 12%. "A gente não sabe onde está o fundo do poço", afirmou o fundador e CEO da plataforma de comparação de investimentos Yubb, Bernardo Pascowitch.

Quem tinha estimativas para o Ibovespa, o principal índice da Bolsa brasileira, agora prefere não arriscar palpites. Para esses profissionais de mercado, a recuperação será lenta, e a Bolsa pode cair mais antes de começar uma recuperação. No último trimestre de 2008, por exemplo, quando o Ibovespa entrou em uma rota de perdas, com a crise financeira mundial, as ações levaram mais de cinco meses para voltar ao patamar anterior ao ciclo de perdas.

Bolsa desce de elevador e sobe de escada

Segundo a equipe de analistas da XP, maior empresa independente de investimentos do país, a recuperação do Ibovespa pode demorar pelo menos quatro meses.

"O Ibovespa desce de elevador e sobe de escadinha", afirmou o analista da Genial Investimentos Igor Graminhani, que utiliza análise de gráficos para projetar movimentos de alta ou de baixa para os ativos.

Segundo ele, a forte queda do Ibovespa na semana passada "furou" diversos pontos de suporte —nome técnico dado às pontuações do Ibovespa que podem servir para segurar o mercado. Quando a Bolsa vai caindo e bate num ponto de suporte, isso serve de alerta para investidores que veem aquele nível como um bom momento para comprar ações, o que faz com que a Bolsa pare de cair.

Bolsa é como uma faca caindo de ponta para baixo

Mas não foi o que aconteceu na semana passada. Empurrado pelo pânico da pandemia do coronavírus, que derrubou as Bolsas em todo o planeta, o Ibovespa "furou" cinco pontos de suporte e continuou caindo. Graminhani comparou o tombo à queda de uma faca com a ponta para baixo. "Quando a faca está caindo de ponta, furando tudo, o melhor é esperá-la bater no chão. Se você tentar pegar a faca quando ela está caindo, vai se machucar", disse.

Segundo ele, o Ibovespa pode buscar outros pontos de suporte nas próximas semanas e meses, dependendo das novidades negativas relacionadas ao coronavírus e ao petróleo. Esse ciclo pode ir até os 60.540 pontos, ou seja, uma queda de mais 27% a partir do último fechamento, de sexta-feira (13).

Instituições que projetavam o Ibovespa entre 130 mil e 140 mil pontos no final do ano estão revisando os números. O banco norte-americano Morgan Stanley, por exemplo, cortou a projeção do Ibovespa para este ano em 32%, e agora espera que o índice feche 2020 em 85 mil pontos.

Analistas dizem que não conseguem prever

"Nossa projeção para o Ibovespa neste ano já estava em revisão nesta semana. E não temos como precificar [prever] agora", afirmou o analista-chefe do banco Daycoval, Enrico Cozzolino. Segundo ele, os motivos que deixaram o mercado incerto e volátil podem seguir no cenário por algum tempo.

"Antes desses acontecimentos a nossa previsão era de 130 mil pontos. Agora é difícil prever", disse o sócio da Portofino Investimentos, Adriano Cantrera.

"Tem que esperar essa nuvem negra passar. Como o Ibovespa caiu forte, pode voltar a subir forte. O índice pode ficar dias oscilando ao redor de um mesmo ponto. Por isso, não tenho projeção para o Ibovespa no fim do ano" afirmou o chefe de análises da Toro Investimentos, Rafael Panonko.

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Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do que era informado no primeiro parágrafo, a Bolsa chegou a despencar 39,28% em menos de dois meses, e não 65%. A informação foi corrigida.

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