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Compra de 49,9% da XP pelo Itaú é ruim para investidor, dizem analistas

Sophia Camargo

Colaboração para o UOL, em São Paulo

  • Miguel Gutierrez/AFP

O Itaú Unibanco, maior banco brasileiro, confirmou a compra de 49,9% da XP Investimentos, maior corretora do país. As negociações haviam sido noticiadas nesta quinta-feira (11). Segundo especialistas ouvidos pelo UOL, os demais grandes bancos deverão fazer movimentos parecidos e comprar outras corretoras, e isso não deve ser positivo para o investidor brasileiro.

Quanto maior a concentração do mercado, pior para o consumidor.

Fabio Gallo, professor de Finanças da FGV e PUC

Segundo ele, a concentração de mercado tende a fazer com que as tarifas cobradas do consumidor aumentem e que a oferta de serviços diminua. Quando várias empresas fazem o mesmo serviço, elas precisam oferecer vantagens para vencer a concorrência --por exemplo, isenção de tarifas ou melhores serviços. Se o número de empresas diminui, as opções para o consumidor tendem a diminuir também, afirma Gallo.

O professor de finanças e sócio da consultoria de educação financeira 4everGreen Liao Yu Chieh concorda que a menor concorrência é um fator que pode pesar negativamente para o investidor.

Mesmo que outras empresas continuem ofertando produtos, não vai haver outra do porte da XP em pouco tempo.

Liao Yu Chieh, professor de finanças e sócio da consultoria 4everGreen

A XP ficou conhecida como uma boutique de investimentos, que oferece investimentos de diferentes instituições financeiras. Clientes de corretoras vão em busca da diversificação de produtos, o que não costuma ocorrer quando o investidor procura um banco, que normalmente oferece apenas os produtos da própria instituição.

Criada em 2001, a empresa tem crescido nos últimos anos apoiada numa agressiva campanha de compras, especialmente de corretoras menores não ligadas a grandes bancos. Entre as compras mais recentes estão Clear e Rico. A XP afirmava gerir R$ 68,8 bilhões no fim de março, e ter cerca de 2% do mercado de investimentos pessoa física no país.

Independência comprometida?

Para Chieh, a venda de parte do controle faz com que a corretora perca um dos principais argumentos de venda que sempre utilizou, que foi se colocar como alternativa aos bancos. "Ela perde um atributo que é a independência, mas continua com outros, como a oferta de produtos e a plataforma de serviços", diz.

Um economista que pediu para não ser identificado afirmou que, para o consumidor, a compra não é boa porque a independência da corretora pode ser comprometida.

A XP não vai vender algo que vá contra o interesse do Itaú.

Economista (não quis ser identificado)

Ele também diz que a compra pode ter sido feita com o objetivo de eliminar um concorrente que tem incomodado nos últimos anos. "Acho que é ruim para os dois, a não ser que o banco esteja só com o objetivo de matar o inimigo, e não ficar com ele."

Caminho sem volta

Para Rodrigo Assumpção, diretor da Ethos Investimentos, esse pensamento não tem sentido, pois mesmo que a XP deixe de atuar como fazia, o sucesso do modelo de trabalho da empresa, que cresceu incentivando a 'desbancarização' das pessoas, já provou que o investidor quer esse tipo de serviço, e outras corretoras preencheriam o nicho de mercado. "O caminho está aberto, não tem mais volta", diz.

Chieh concorda com Assumpção nesse ponto.

O Itaú não investiria na XP para matar a plataforma, não faz sentido. Ele mata um, vem outro e toma o lugar. Minha leitura é que o Itaú estava vendo seus investimentos serem realocados para essas corretoras, entendeu que esse é um mercado interessante, lucrativo e decidiu: quero esse mercado. 

Liao Yu Chieh, professor de finanças e sócio da consultoria 4everGreen

"Ele [o Itaú] já demonstrou que estava interessado nisso quando lançou há cerca de um mês o Investimento 360 [plataforma de investimentos destinada ao público de alta renda do banco]", afirma Chieh.

Ponto positivo: aumento da segurança

Um aspecto positivo da fusão, segundo Assumpção, deve ser o aumento da segurança. "Quanto maior a instituição, mais regras de segurança ela tem que seguir", diz.

Ele afirma que muitos investidores não optam por corretoras por terem receio de que elas não ofereçam uma boa segurança ao seu dinheiro.

Chieh afirma que o fato de grandes bancos oferecerem acesso a investimentos de outros não é novo. "Há mais de dez anos, os correntistas do Citibank já podiam comprar fundos de outros gestores. Agora, isso se popularizou", diz.

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