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Pugliesi promove day trading, mas risco é alto e maioria perde dinheiro

Reprodução/Instagram
Imagem: Reprodução/Instagram

Vinícius Pereira

Colaboração para o UOL, em São Paulo

24/07/2020 16h04

Três meses após ser criticada por dar uma festa em plena pandemia, a influencer Gabriela Pugliesi voltou às redes sociais para se desculpar e dizer que descobriu um novo talento em meio ao isolamento social: o day trading (compra e venda de ações no mesmo dia).

Conhecida por vender um estilo de vida saudável, Pugliesi propagandeou as operações e afirmou que está ganhando dinheiro com elas, mas não apresentou os perigos de viver especulando na Bolsa. Especialistas ouvidos pelo UOL dizem que a prática tem grandes riscos e que a possibilidade de um investidor ficar rico rapidamente é mínima.

Está cheio de gente falando que [day trading] é fácil, prometendo fórmula milagrosa, dizendo que você ganha R$ 300, R$ 400 por dia. A realidade, porém, não é bem essa.
Virginia Prestes, professora de finanças da Faap (Fundação Armando Alvares Penteado)

"Hoje em dia, existem bancos e robôs, com toda infraestrutura, informação e rapidez, que estão no mercado o tempo todo fazendo isso. Para a pessoa física, em casa, sem conhecimento ou qualquer sistema, com custos altos de operação e tempo escasso, fica quase impossível ganhar deles", afirmou a professora.

O que é day trading?

A prática consiste em comprar e vender, no mesmo dia, ações, opções e alguns tipos de contratos. O lucro ocorre quando o preço de venda é maior que o preço de compra, descontados os custos de operação, como corretagem. Ou seja, você precisa comprar barato e vender caro. Toda vez.

Não há limite de operações diárias, e o investidor pode comprar e vender até com poucos minutos de intervalo. Segundo especialistas, o risco das operações é grande. Como se trata de renda variável, o investidor pode perder boa parte ou até mesmo todo o dinheiro investido.

"O day trading é uma atividade como qualquer outra. Existem técnicas, estudos e profissionais que o fazem. Até porque se fosse superfácil, qualquer um replicaria e ficaria rico", disse a educadora financeira Cintia Senna.

A democratização dos aplicativos de investimento vem difundindo a prática. Com a facilidade de operação na palma da mão e a possibilidade fácil de alavancagem (utilizar recursos de terceiros para operar), a prática do day trading vem crescendo no Brasil e no mundo.

A soma das facilidades com o alto risco da operação já causou tragédias. Nos EUA, por exemplo, um jovem se suicidou após acreditar que havia perdido uma quantia grande de dinheiro operando no day trading.

Todo investidor pensa que é racional, mas na verdade é sempre emocional. Geralmente, ele ganha um pouco e quer ganhar mais ou perde e quer entrar mais para recuperar a perda e isso gera uma bola de neve que pode acabar mal.
Cintia Senna, educadora financeira

90% dos day traders perdem dinheiro

No ano passado, a CVM (Comissão de Valores Mobiliários), que regula o mercado de capitais brasileiro, encomendou um estudo sobre a chance de enriquecimento com as operações diárias na Bolsa.

O estudo mostrou que mais de 90% dos investidores que optaram por comprar e vender ativos no mesmo dia perderam dinheiro.

A pesquisa se concentrou nas negociações dos dois ativos preferidos dos "day traders": os contratos futuros de mini-índice (que oscila em função da pontuação do Índice Bovespa Futuro) e de mini-dólar (vinculado ao preço da moeda norte-americana).

A incidência de desistentes também é alta. Dos 19.696 que começaram a operar entre 2013 e 2015, apenas 7,9% permaneceram operando por mais de um ano.

"A Bolsa remunera capital. Se o investidor tem R$ 1 milhão investido, ele pode fazer um dinheiro considerável. Mas com R$ 3.000 ou R$ 5.000, o percentual que isso rende é mínimo", afirmou Virginia Prestes.

"As pessoas vendem uma ilusão de liberdade, de que dá para trabalhar de qualquer lugar. Aí o pessoal coloca o dinheiro de uma vida na Bolsa e quebra rápido", completou.