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Crédito fica mais caro para empresas; isso pode até ser bom para investidor

Alta da Selic e eleições ano que vem vão encarecer crédito para empresas. O que isso significa para quem investe em ações ou debêntures? - Getty Images/iStockphoto/lucadp
Alta da Selic e eleições ano que vem vão encarecer crédito para empresas. O que isso significa para quem investe em ações ou debêntures? Imagem: Getty Images/iStockphoto/lucadp
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João José Oliveira

Do UOL, em São Paulo

30/07/2021 04h00

Com a taxa básica de juros Selic em alta e a caminho de chegar a 7% ainda este ano e possibilidade de aumento do risco Brasil em 2022 por causa das eleições presidenciais, as empresas vão pagar mais caro para tomar empréstimos no mercado, dizem profissionais de mercado.

Isso poderia afetar o investidor de ações, já que as companhias vão gastar uma parte maior das receitas para cobrir dívidas. Mas os mesmos analistas de mercado dizem que as empresas com ações negociadas em Bolsa estão hoje mais preparadas para enfrentar esse cenário adverso. Profissionais de mercado apontam que a boa notícia para o investidor é que títulos, como debêntures, poderão oferecer rendimento maior aos aplicadores. Veja mais detalhes abaixo.

Por que os custos das dívidas vão subir?

A taxa básica de juros, que começou o ano a 2% ao ano, já chegou a 4,25%, e, segundo projeções do mercado, vai até 7% ainda este ano. Isso puxa junto as taxas dos empréstimos.

Nos bancos, a taxa média de juros cobrada das pessoas jurídicas fechou junho em 14,5%, ante 13,9% em março, quando a Selic começou a subir, segundo dados do Banco Central.

Além das diferentes linhas de crédito que as empresas podem pegar no tradicional empréstimo bancário, as empresas podem tomar dívida no mercado de capitais, emitindo debêntures, por exemplo.

Segundo o sócio gestor e fundador da gestora de recursos especializada em crédito privado Devant Asset, David Camacho, debêntures emitidas por empresas com boas notas de crédito, a chamadas high grade -ou seja, com baixo risco de calote- estão pagando o equivalente a CDI (Certificados de Depósito Interbancário), mais 1,5% a 2% ao ano para papéis com até dois anos de prazo.

Já empresas com classificação de crédito pior, as chamadas high yield, podem pagar até 4% a 5% além do CDI em títulos de mesmo prazo.

Como o CDI está subindo, as taxas de captação para novas debêntures devem acompanhar em parte esse movimento.

Mas o custo para uma nova captação vai depender também do momento da companhia e do próprio mercado. Uma empresa que tem maior acesso a mercados pode pagar um prêmio menor em relação ao CDI, compensando em parte o aumento da Selic.
David Camacho, Devant Asset

Juros em alta no exterior também

Além da alta da Selic, dois outros fatores também devem elevar os custos de dívida para as empresas brasileiras.

Retomada da economia: Os juros no exterior também devem subir ano que vem com a retomada da economia no pós-pandemia, dizem economistas. Isso vai afetar os custos das empresas que tomam dinheiro emprestado lá fora.

Incertezas políticas: Historicamente, em anos de eleições presidenciais as incertezas com relação a um novo governo levam estrangeiros a exigirem taxas mais altas para investir no Brasil, elevando o risco-Brasil -indicador que mostra o quanto uma empresa precisa pagar a mais que a taxa paga pelo governo dos Estados Unidos no mercado.

A gente já vê aumento dos custos das dívidas das empresas. Para os empréstimos em reais, por causa da alta da Selic, e no caso dos empréstimos em moeda estrangeira, por causa das incertezas provocadas pelo cenário político local.
Rafaela Vitória, economista-chefe do Banco Inter

Maiores dívidas das empresas na Bolsa

Levantamento feito pela empresa de informações financeiras Economatica para o UOL mostra a lista com as 20 maiores dívidas de empresas que têm ações negociadas na Bolsa há pelo menos cinco anos.

maiores dividas - Arte/UOL - Arte/UOL
Imagem: Arte/UOL

O gerente de relacionamento institucional e comercial da Economatica, Einar Rivero, destaca que o tamanho da dívida de uma empresa não é, por si só, motivo para preocupação de investidores.

Segundo ele, é importante levar em conta o tamanho da empresa e o negócio em que ele atua. Uma empresa maior pode ter mais endividamento que uma empresa de menor porte. E tem algumas atividades que exigem mesmo mais crédito que outras.

Além disso, é fundamental comparar o tamanho da dívida com outros indicadores da empresa, como patrimônio, receitas e lucro. Uma empresa pode ter uma dívida maior que uma concorrente, mas se tiver um volume de receitas maior, a capacidade de pagamento dessa dívida também será melhor.
Einar Rivero, Economatica
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Empresas estão mais preparadas

Feita essa ressalva, Einar Rivero, da Economatica destaca que o levantamento mostrou que as empresas com ações negociadas em Bolsa apresentam hoje melhores indicadores de endividamento do que no ano passado. No geral, o peso das dívidas dessas companhias está diminuindo em relação ao lucro operacional.

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Imagem: Arte/UOL

Além disso, essas empresas listadas na B3 estão reduzindo o peso das dívidas de curto prazo em relação ao endividamento total. O que significa menor necessidade de dinheiro para cobrir endividamento no prazo de 12 meses.

dividas em relação ao lucro - Arte/UOL - Arte/UOL
Imagem: Arte/UOL

Empresas se anteciparam e já pegaram mais dinheiro

A melhora da saúde financeira das empresas com relação ao endividamento tem a ver com uma estratégia adotada nos últimos anos, em especial após a pandemia. Para atravessar a crise marcada pela queda de vendas, as companhias foram ao mercado para levantar recursos e aumentar o dinheiro em caixa.

Segundo dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), as companhias levantaram apenas no primeiro semestre deste ano R$ 253 bilhões no mercado de capitais, ou 65% mais que a soma arrecadada no mesmo período do ano passado. Além disso, as emissões no mercado externo de janeiro a junho atingiram US$ 15 bilhões captados, ou algo como R$ 81,2 bilhões, pela cotação média do dólar comercial no primeiro semestre.

Empresas cotadas em Bolsa são, em geral, já robustas em estrutura de balanço. Além disso, muitas dessas empresas se capitalizaram ao longo desse ano.
Phil Soares, chefe de análise de ações na Órama Investimentos

Como isso afeta o investidor?

O aumento do custo do endividamento das empresas pode afetar o investidor que aplica em ações ou que investe em títulos de dívida de empresas, como debêntures. Veja abaixo.

Impacto na Bolsa: Para quem investe na Bolsa, o aumento do custo do crédito para as empresas pode reduzir o lucro final distribuído aos acionistas. Assim, juros mais elevados para as companhias representam algo negativo para o aplicador que tem ações dessas empresas.

Mas profissionais de mercado destacam que esse impacto ainda é limitado este ano e mesmo em 2022 exatamente porque as empresas se anteciparam, tomando dinheiro emprestado antes da elevação dos custos, como mostramos acima.

A economia também está voltando a crescer, o que vai ajudar a elevar as vendas das empresas. Assim, o peso do endividamento tende a cair porque as receitas também estão aumentando.
Jerson Zanlorenzi, responsável pela mesa de renda variável e derivativos do BTG Pactual digital

Impacto na renda fixa: Para quem investe em títulos emitidos por empresas, como debêntures e notas promissórias, por exemplo, ou em fundos que aplicam nesses papéis, o aumento dos juros tende a melhorar o rendimento que o aplicador vai receber nas próximas emissões.

Como a Selic é uma das principais referências para as aplicações em renda fixa, quando essa taxa sobe, os títulos privados também precisam pagar mais aos aplicadores.

O investidor vai buscar uma remuneração maior, pressionando as empresas a terem que pagar mais por títulos privados. Já as empresas, por seu lado, tentarão manter os custos de captação.
Gustavo Pondian, gestor de crédito privado da Fator Administração de Recursos

Este material é exclusivamente informativo, e não recomendação de investimento. Aplicações de risco estão sujeitas a perdas. Rentabilidade do passado não garante rentabilidade futura.

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