EUA escondem dados sobre títulos do Tesouro que agora são cruciais

Andrea Wong e Liz Capo McCormick

(Bloomberg) -- É um segredo no vasto mercado de títulos do Tesouro dos EUA e um vestígio de uma era de escassez de petróleo e dos poderosos petrodólares: quantos títulos de dívida dos EUA estão em posse da Arábia Saudita?

Mas essa questão -- sem resposta desde os anos 1970, devido a uma censura incomum do Departamento do Tesouro dos EUA -- veio à tona agora que a Arábia Saudita se vê pressionada pela queda dos preços do petróleo e pelas guerras caras no Oriente Médio.

Apenas nos últimos 12 meses, a Arábia Saudita consumiu cerca de US$ 100 bilhões de suas reservas em moeda estrangeira para cobrir seu maior déficit fiscal em 25 anos. Pela primeira vez, o país está estudando também vender um pedaço de sua joia da coroa -- a companhia estatal de petróleo Saudi Aramco. Os sinais de tensão estão provocando preocupação a respeito da posição desmedida da Arábia Saudita no maior e mais importante mercado de títulos do mundo.

Um dos grandes riscos é que o reino esteja vendendo parte de suas reservas em títulos do Tesouro dos EUA, que estariam entre as maiores do mundo, para reunir os dólares que necessita. Ou o país poderia estar comprando, em busca de um porto seguro para a mais recente tempestade financeira?

Como política, o Tesouro nunca revelou as reservas da Arábia Saudita, há tempos uma importante aliada no volátil Oriente Médio, e em vez disso agrupa o país com outras 14 nações da Opep, incluindo Kuwait, Emirados Árabes Unidos e Nigéria. Para mais de 100 outros países, da China ao Vaticano, o Tesouro oferece informações detalhadas de quanta dívida dos EUA cada um possui.

"É espantoso que não tenham acabado com isso", disse Edwin Truman, ex-secretário-assistente do Tesouro para assuntos internacionais no final dos anos 1990, atualmente pesquisador sênior do Instituto Peterson para a Economia Internacional, em Washington. Considerando que as relações eram instáveis e que os EUA precisam do petróleo, o Tesouro "não queria ofender a Opep. Mas é difícil justificar esse tratamento especial à Opep a essa altura".

Outros países

O Tesouro "combina dados onde uma informação mais detalhada poderia revelar as posições dos detentores individuais", disse a porta-voz Whitney Smith, por email.

Embora essa posição seja coerente com a Lei de Pesquisa sobre Investimentos Internacionais e Comércio de Serviços (IITSA, na sigla em inglês), que rege as divulgações de investimentos feitos por pessoas e governos estrangeiros e protege indivíduos em países onde a posse dos títulos do Tesouro dos EUA é limitada, ela não impediu o Tesouro de revelar as cifras correspondentes a uma série de outros países -- grandes e pequenos.

A lista abarca desde uma participação de US$ 3 milhões mantida pelo país insular de Seychelles até um investimento de US$ 69,7 bilhões da economia produtora de petróleo da Noruega, além dos montantes mantidos pela China e pelo Japão, que excedem, em ambos os casos, US$ 1 trilhão.

Representantes da Agência Monetária da Arábia Saudita, conhecida como Sama, e do Ministério das Finanças do país preferiram não comentar.

Além do reino em si, apenas um punhado de altos funcionários do Tesouro, e aqueles que compilam os dados no Federal Reserve em seu nome, têm uma ideia clara das reservas de dívida americana em posse da Arábia Saudita e sabem se elas estão subindo ou caindo.

Para todo o resto, trata-se de um jogo de adivinhação.

Relação estratégica

O acordo especial, nascido com o choque petrolífero de 1973 após o embargo árabe, é apenas uma pequena concessão entre muitas que os sucessivos governos dos EUA fizeram ao longo dos anos para manter a relação estratégica dos EUA com a família real saudita -- e seu acesso às enormes reservas de petróleo do reino.

A exceção se estende a outros 12 países do grupo de exportadores de petróleo do Tesouro, todos do Oriente Médio ou da África. Com base em dados combinados divulgados nesta semana, esse grupo reduziu suas participações em alguns bilhões de dólares desde março e tinha US$ 289 bilhões até novembro.

Como se considera que suas reservas são as maiores, os movimentos da Arábia Saudita chamaram a atenção, particularmente porque outros bancos centrais de mercados emergentes estão vendendo títulos do Tesouro dos EUA com o objetivo de juntar dinheiro para defender suas moedas.

(O Tesouro não destrincha as reservas privadas e públicas, mas suas divulgações dizem que cerca de dois terços das reservas internacionais são mantidas por instituições oficiais, como bancos centrais).

Essas vendas tiveram um impacto pequeno, porém visível, sobre os custos de financiamento nos EUA. Segundo o Deutsche Bank, a venda por bancos centrais estrangeiros desde março adicionou 0,3 ponto percentual aos rendimentos sobre os títulos do Tesouro de 10 anos, que na quinta-feira fecharam a 2,03%.

Os próprios números da Sama mostram que os ativos de reserva mantidos em títulos internacionais caíram um total recorde de US$ 108 bilhões em 2015. O banco central saudita, que não divulga números separados para os títulos do Tesouro dos EUA, possuía US$ 423 bilhões em títulos internacionais até novembro.

"Eu tendo a pensar que deveria haver mais transparência", disse Jeff Caughron, diretor de operações da Baker Group, que assessora bancos comunitários com mais de US$ 45 bilhões em investimentos. Mas ao mesmo tempo "o Tesouro se vê limitado pelas sensibilidades políticas e isso conflita com os participantes do mercado que querem mais transparência. É um conflito compreensível".

Independentemente das considerações políticas, alguns analistas especulam que a Arábia Saudita pode na verdade estar tentando manter seus títulos do Tesouro como parte de uma estratégia para acumular ativos em dólares em meio ao aprofundamento da turbulência nos mercados financeiros internacionais.

"Sendo produtor de petróleo, você precisa de dólares e também precisa garantir dólares no balanço geral", disse Sebastien Galy, diretor de estratégia de câmbio do Deutsche Bank, que sugere que a Sama poderia estar captando dinheiro por meio da liquidação de investimentos de maior risco, como ações, imóveis e private equity. Manter dólares também tem lógica para a proteção contra a queda do preço do petróleo, que é precificado na moeda americana.

Os números da Sama sugerem que o reino poderia estar realocando parte de suas reservas em ativos líquidos de curto prazo para ajudar o Ministério das Finanças a honrar os compromissos orçamentários e defender o câmbio de 3,75 riyales por dólar, mantido há 30 anos.

O banco central aumentou as reservas internacionais e os depósitos mantidos no exterior em 7% nos 11 primeiros meses de 2015 e ao mesmo tempo reduziu os títulos estrangeiros, que consistiam em ações e dívidas de longo prazo, em 20%.

Esse dinheiro passou a ser chave. A queda do barril de petróleo para menos de US$ 30, contra mais de US$ 100 dois anos atrás, corroeu a riqueza gerada pelo petróleo, que quadruplicou a renda per capita desde o final dos anos 1980 e possibilitou à Arábia Saudita o benefício de oferecer saúde gratuita, subsídios à gasolina e aumentos salariais rotineiros.

"Quando a Sama precisa aumentar a liquidez para o Ministério das Finanças, os depósitos e o dinheiro vivo aumentam e eles liquidam outros ativos", disse Khalid Alsweilem, ex-chefe de investimentos da Sama. "Eles sabem quando o Ministério das Finanças irá gastar todos os seus riyales. Por isso, deixam uma certa quantia disponível em dinheiro com base nessas expectativas".

Alsweilem, que trabalhou 20 anos na Sama e agora defende reformas fiscais como pesquisador da Escola de Governo John F. Kennedy da Universidade de Harvard, diz que os observadores do mercado podem superestimar a quantidade de dinheiro que o banco central realmente aloca em títulos do Tesouro.

A Sama não é um banco central típico porque atua como um fundo de investimentos quase soberano, disse ele. Como tal, se propõe a ter retornos mais altos como proteção contra a queda da receita com o petróleo e investe em um amplo leque de ativos de risco, o que explica por que se tornou mais transparente apenas recentemente, disse Alsweilem.

Para Truman, do Instituto Peterson, os bancos centrais devem uma clareza maior há tempos -- em particular no que diz respeito ao Tesouro dos EUA.

"Antigamente, no Tesouro e nos bancos centrais, a transparência não estava na moda" e a política não dava importância aos tratamentos especiais, disse ele. Agora, "este é um problema herdado. Convém abordá-lo, mais cedo ou mais tarde".

 

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