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Com instabilidade menor do real, hedge cambial perde fôlego

Filipe Pacheco

(Bloomberg) -- Depois de fechar 2015 com o pior desempenho entre as principais moedas do mundo, o real tem driblado parte da turbulência do mercado neste ano -- e as empresas deverão colher os benefícios dessa situação.

A moeda brasileira teve a maior queda em uma métrica de oscilações de preço, um indicador de volatilidade, entre as 16 moedas mais negociadas do mundo desde 31 de dezembro, após ter registrado o maior salto no ano passado.

A quantidade de contratos em circulação no Brasil usados para proteger companhias contra a volatilidade cambial em operações de hedge, caiu 18% no último trimestre de 2015 em relação a um recorde em setembro.

O real ainda opera a menos de 5% de sua mínima histórica em meio a um crescente déficit fiscal, à pior recessão em mais de um século e à turbulência política, mas as oscilações estão diminuindo em um momento em que os operadores de câmbio voltam suas atenções para problemas globais.

Com a desaceleração da economia da China, a queda dos preços do petróleo e os bear markets de ações, a relativa calma no Brasil contrasta com o restante do mundo no decorrer de 2016.

"Em setembro havia muitas preocupações em relação a como as coisas avançariam domesticamente -- ninguém sabia exatamente o que estava por vir e muitas empresas estavam dispostas a pagar o preço que fosse necessário por hedge", disse Fábio Zenaro, que administra a negociação de produtos, incluindo forwards cambiais, na Cetip, a maior câmara de compensação do Brasil, em São Paulo.

O momento "é menos volátil, o que torna mais fácil para as empresas realizar projeções e implementar diferentes estratégias de hedge".

Mínima recorde

Embora ninguém possa dizer que o real está bem -- com uma desvalorização de 37% nos últimos 12 meses e após ter atingido a mínima recorde de R$ 4,2478 por dólar em setembro --, a moeda está começando a se estabilizar.

A volatilidade implícita de três meses da moeda caiu para 19% na terça-feira, contra a maior alta em quatro anos, de 25,6%, registrada no fim de setembro. Esta é a maior queda, tanto neste ano quanto em relação ao pico, observada entre as 16 principais moedas monitoradas pela agência de notícias Bloomberg.

A mediana das estimativas de mais de 30 estrategistas consultados pela Bloomberg aponta que o real perderá 3,5% em relação ao fechamento de terça-feira, de R$ 4,0514 por dólar, e chegará a R$ 4,2 no fim do ano.

O valor total de contratos em aberto para posições compradas e vendidas de contratos non-deliverable forward do mercado de balcão, o instrumento de hedge mais comum entre as empresas brasileiras, com exceção dos bancos, totalizou US$ 112 bilhões no fim de dezembro, segundo a Cetip, que registra as transações.

O montante é menor que a alta histórica de US$ 134,5 bilhões registrada em 1º de setembro.

"Setembro foi um mês de alta volatilidade e nós vimos uma corrida por proteção naquele momento -- as pessoas temiam que o real pudesse superar o nível de R$ 4,25 por dólar", disse Cleber Alessie, operador de câmbio da H.Commcor em São Paulo, que tem empresas de commodity entre seus clientes.

"As coisas se estabilizaram depois disso", dando "mais clareza às empresas".

As empresas correram para se proteger da exposição cambial no ano passado no momento em que a turbulência política no Congresso e a tensão em relação ao pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff ameaçavam as finanças do país.

A Standard & Poor's e a Fitch reduziram a nota soberana do Brasil para grau especulativo, rebaixando uma economia que desfrutava do status de grau de investimento desde 2008, época em que o país se encontrava em uma maré positiva decorrente do crescimento impulsionado pela valorização das commodities.

Como esses contratos são bastante caros, muitas empresas brasileiras compram hedges de curto prazo que duram apenas três meses ou menos, e muitos deles expiram sem serem renovados, segundo Zenaro, da Cetip. O vencimento médio dos contratos non- deliverable forward no ano passado estava entre 30 e 90 dias, mostram dados da Cetip.

"Torna-se caro demais para as empresas fazer hedge por um longo período", disse Zenaro. "Poucos são capazes de fazer isso".

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