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A Alemanha já não investe mais como antes e isso é um problema

Alessandro Speciale e Nicholas Brautlecht

(Bloomberg) - Todas as peças parecem se encaixar para que os investimentos corporativos cresçam vertiginosamente na Alemanha - exceto um elemento fundamental.

Embora os custos do crédito baixos, o consumo doméstico robusto e os limites de capacidade impliquem que as empresas deveriam estar morrendo de vontade de gastar, falta a confiança para fazê-lo. A turbulência dos mercados, os sinais de enfraquecimento da demanda mundial e a população envelhecida da própria Alemanha estão dando aos chefes muitos motivos para se conter, o que faz com que o dispêndio de capital como proporção da produção insista em permanecer no nível mais baixo em cinco anos.

Isso é importante tanto para a Alemanha, onde, de acordo com o FMI, é preciso mais gasto de capital para garantir o crescimento no futuro, quanto para a zona do euro, de dezenove países. A força da maior economia da região poderia ser fundamental para determinar se a frágil recuperação do bloco monetário pode se sustentar.

"Em todos os anos desde 2013, a maioria dos gurus, inclusive nós mesmos, vem prevendo que este será o ano em que os investimentos realmente aumentarão", disse Timo Klein, economista da IHS Global Insight em Frankfurt. "Mas todos os anos aparece alguma coisa que obscurece o cenário, da Ucrânia à China, e os investimentos são adiados de novo. A consequência disso no longo prazo é uma redução no potencial de crescimento".

Investimentos em queda

Um relatório que será publicado na terça-feira esclarecerá o papel dos investimentos na expansão econômica da Alemanha durante o quarto trimestre. Dados preliminares mostram que o PIB aumentou 0,3 por cento e igualou o ritmo dos três meses anteriores, encabeçado pelo gasto do governo e dos consumidores.

Contudo, os investimentos como porção do PIB alemão caíram de cerca de 23 por cento na virada do século para menos de 20 por cento no ano passado, mostrou um estudo do Bundesbank em janeiro. Os investimentos privados recuaram de 13,4 por cento para 11,5 por cento, segundo o Eurostat.

O FMI e as autoridades alemãs concordaram no ano passado que é preciso melhorar as condições para fortalecer os investimentos privados. O FMI sugeriu reformas, como aumentar a participação das mulheres em empregos de horário integral, aumentar o dinamismo do setor de serviços e fazer mais para ajudar na transição do país para um maior uso da energia renovável.

Cenário desfavorável

Projeta-se que os investimentos aumentarão neste ano, ainda que moderadamente. A proporção de empresas de pequeno e médio porte que planejam aumentar o dispêndio de capital é a mais alta em cinco anos, segundo uma pesquisa anual publicada pela associação empresarial BVMW em dezembro.

Contudo, as recentes turbulências globais não favorecem um boom de investimentos. A confiança das empresas alemãs está enfraquecendo e a crise recente das ações de bancos europeus poderia minar a disposição deles para emprestar. A desaceleração da China fez com que os preços das commodities despencassem e ameaça afetar o crescimento econômico mundial.

A produção fabril alemã estava "perto da estagnação" em fevereiro. Um indicador da atividade fabril caiu para o menor valor em quinze meses, disse a Markit Economics nesta segunda-feira em sua pesquisa de gerentes de compras.

Quando as empresas alemãs investem, elas costumam buscar alvos fora do país. A Osram Licht iniciará a construção de uma fábrica de produção de 1 bilhão de euros (US$ 1,1 bilhão) na Malásia em março. A Manz, fabricante de equipamentos solares, telas e baterias, transferirá uma parte maior da produção da Alemanha e de Taiwan para a China. A Evonik Industries, a segunda maior fabricante de produtos químicos do país, planeja construir uma fábrica de escala mundial em Cingapura em resposta à demanda forte.

Martin Gornig, economista do Instituto Alemão de Pesquisa Econômica (DIW, na sigla em alemão) em Berlim, diz que embora essa atitude esteja ajudando a abrir novos mercados, o problema no longo prazo é um estoque de capital envelhecido que poderia acabar com a competitividade da Alemanha.

"Isso representa uma grande ameaça", disse ele.

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