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Bloomberg View: Debate dos britânicos sobre Europa decepciona

(Bloomberg) -- As pesquisas de opinião indicam que vai ser apertada a votação no Reino Unido, em 23 de junho, sobre a permanência ou saída da União Europeia.

É preocupante. O voto pela permanência é a escolha mais segura e sábia. O debate que antecede o referendo deveria ter estimulado esse consenso, mas não foi o que ocorreu, principalmente porque a qualidade da conversa foi decepcionante.

Os dois lados argumentaram que uma questão complexa é muito simples. A campanha que o governo liderou pela permanência afirmou que o Brexit seria uma catástrofe. A campanha pela saída garante que a escolha traria uma nova 'Era de Ouro'. Ambas confundiram eleitores, alimentaram preconceitos, subverteram os fatos e fizeram pouca gente mudar de ideia. O debate inteligente que era necessário não aconteceu. Deu nisso a democracia direta.

Os que defendem a saída se comportaram pior, frequentemente apresentando erroneamente os fatos mais básicos. O ex-prefeito de Londres Boris Johnson, um dos principais porta-vozes da campanha pelo Brexit, chegou a dizer que a legislação da UE impedia crianças com menos de oito anos de encher bexigas, proibia a reciclagem de sachês de chá e limitava o tamanho dos caixões funerários. O chefe de um comitê parlamentar expôs a fala dele como 'ficção' durante uma audiência em março.

O argumento de que a UE "deu à Turquia permissão" para se tornar membro pleno do bloco chamou a atenção de eleitores alarmados com a imigração. Na melhor das hipóteses, é equivocado. A Turquia foi considerada elegível para se juntar à UE em 1997, mas as negociações ainda estão em estágio inicial e todos os integrantes precisam entrar em acordo antes que as negociações sejam concluídas. Portanto, o Reino Unido tem poder de veto.

Outro importante defensor da saída, o secretário de Justiça Michael Gove, disse que sair do bloco permitiria "tomarmos de volta as 350 milhões de libras esterlinas que damos à UE toda semana". Outro erro. O número ignora as devoluções imediatas ao Reino Unido e outros pagamentos e concessões que os britânicos recebem. Além disso, a declaração de Gove de que a saída da UE aumentaria os gastos do serviço público de saúde foi tão absurda que levou um parlamentar do partido conservador a debandar da campanha.

O pior de tudo é que os defensores da saída não avisaram o que o Brexit traria - a começar pelos arranjos comerciais que seriam necessários para substituir os direitos e obrigações dos britânicos como parte da UE. Há divisão interna na campanha sobre o tema, portanto incerteza é tudo o que eles podem oferecer.

Deveria ter sido fácil derrotar uma campanha tão fraca, mas os defensores da permanência não fizeram progressos nas pesquisas de opinião desde que o debate começou. Isso porque a campanha lançou mão de táticas de espalhar medos infundados. A sugestão do primeiro-ministro David Cameron, em 9 de maio, de que a saída da UE ameaçaria a paz e a estabilidade na Europa foi recebida com incredulidade.

Esse lado da campanha também usou hipérboles ao falar de economia. Os riscos da saída são reais, diversos estudos deixaram isso claro. Mas a ideia de que a economia britânica estaria condenada ao colapso não é plausível. Afinal, a vida na Suíça continua. E se o governo acha mesmo loucura sair do bloco, os eleitores se perguntam o motivo para ter convocado esse referendo, para início de conversa. A campanha pela permanência também não discutiu as preocupações dos eleitores em relação à imigração e se mantém curiosamente calada sobre as reformas adicionais que são necessárias para a Europa funcionar para seus cidadãos.

O dia 23 de junho se aproxima e existe chance de disparada no apoio ao status quo. Torcemos por isso. O voto pela permanência é a escolha certa. Mas é uma vergonha que as campanhas tenham feito tão pouco para os eleitores poderem pensar com clareza e escolher com sabedoria.

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