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Bancos centrais preferem mal que já conhecem: metas de inflação

Michael Heath

(Bloomberg) -- Quando Don Brash apresentou uma meta de inflação de zero a 2% em 1990, na Nova Zelândia, ela foi considerada "extremamente improvável".

"Tem que ser piada", recorda Brash como foi a reação. Até mesmo seus colegas no banco central estavam incrédulos e diziam: "Só pode ser brincadeira. Baixá-la a menos de 5? Sim, provavelmente. Mas menos de 2? Sem chance".

A inflação tinha atingido um pico de quase 19 por cento em 1987 e estava em 7,2% no último trimestre de 1989, quando a lei foi promulgada - alguns anos depois do histórico triunfo de Paul Volcker sobre a inflação no Federal Reserve (Fed) dos EUA. Desde então a média de ganhos do índice de preços ao consumidor é de 2,2%, portanto não é de admirar que a ideia de fazer metas tenha virado moda.

Como os tempos mudam. Em um mundo com problemas de desinflação ou deflação direta, agora as metas parecem muito altas em vez de muito baixas, o que alimenta os pedidos de trocar ou até mesmo descartar a régua.

Analistas de bancos centrais, entre eles Bill Evans, da Westpac Banking, instam o futuro presidente do Banco Central da Austrália, Philip Lowe, a utilizar a aprovação de uma nova Declaração sobre a Conduta da Política Monetária com o governo para reduzir ou ampliar a faixa atual, de 2% a 3%. Um debate similar está efervescendo no Canadá, onde um acordo de cinco anos sobre política monetária entre o governo e o banco central será renovado.

Menos credibilidade

Enquanto isso, o banco central do Japão parece estar cedendo à realidade em seu compromisso com um período de dois anos para atingir sua meta de inflação, de 2%.

Anunciada há três anos, a ideia era salientar a determinação de impulsionar os preços. Em vez disso, a constante incapacidade em respeitar as projeções para cumprir a meta corroeu a credibilidade da instituição.

O Banco Central Europeu não atinge seu objetivo de inflação, de pouco menos de 2%, há mais de três anos, e projeções atualizadas na semana passada mostraram que o banco não antecipa chegar até a meta pelo menos até o fim de 2018.

A taxa atual é de 0,2% e até mesmo a Alemanha --com um nível mínimo recorde de desemprego e juros provavelmente muito baixos para sua economia-- publicou dados na terça-feira que tiveram ganhos de apenas 0,3 por cento nos preços ao consumidor.

Metas mais altas?

Antes da chegada das metas de inflação, a maioria dos bancos centrais tentava garantir a estabilidade de preços mediante fatores intermediários, como agregados monetários ou taxas de câmbio.

A intenção da criação de metas de inflação específicas era aumentar a transparência e a prestação de contas e eliminar o viés inflacionário de estruturas que priorizavam o crescimento ou o emprego. No mundo de hoje, com crescimento e inflação baixos, esses benefícios são menos persuasivos.

O pedido de alteração das metas visa aumentar as duas coisas, e há quem sugira que níveis mais elevados seriam uma forma mais segura de se proteger de ameaças deflacionárias.

Em um simpósio do Fed no mês passado em Jackson Hole, Wyoming, a presidente Janet Yellen levantou a possibilidade de que futuras autoridades possam elevar sua meta de inflação e ampliar os tipos de ativos que podem comprar para aumentar sua capacidade de agir contra uma recessão severa.

Contudo, as metas de inflação continuam sendo o modo padrão para muitos bancos centrais, com base na velha máxima de que é melhor o mal que já se conhece.

"A paranoia com as taxas de inflação baixas é um tanto exagerada", disse Brash, hoje com 75 anos e aposentado. "Acho que tem certa lógica dizer ao banco central: estamos tranquilos com o fato de a inflação estar abaixo da meta, não cortem os juros mecanicamente, só para aumentar a taxa de inflação".

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