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Sonhos do blockchain enfrentarão realidade dura em 2017: Gadfly

Lionel Laurent

(Bloomberg) -- A tentativa do mundo das finanças de construir uma versão profissional do blockchain - a tecnologia de livro-razão compartilhado que sustenta moedas virtuais rebeldes como o bitcoin - fez um barulho digno do Vale do Silício. Contudo, não se viu nem muitos atrevimentos verdadeiramente arriscados nem muitos resultados.

Este ano trará uma necessária dose de realidade. Ele pode até ser o anúncio de uma sacudida de um setor com um destaque cada vez mais exagerado, considerando que o setor bancário tenta tirar diversos projetos do laboratório e levá-los para o mundo real.

O recente entusiasmo por lançar projetos-piloto de blockchain para diversos tipos de atividades, do comércio de diamantes ao trading de títulos, seguiu uma trajetória que vai do medo à necessidade: o medo de ser usurpado por recém-chegados especialistas em tecnologia ou por alternativas populares; a necessidade de aumentar os escassos retornos declarando guerra a processos administrativos pouco práticos e caros.

Projeta-se que a mediana de retorno sobre o patrimônio (ROE, na sigla em inglês) para os maiores bancos de investimento do mundo seja de 7 ou 8 por cento nos próximos dois anos, segundo a Bloomberg Intelligence, um pouco melhor que a do ano passado, mas abaixo dos padrões históricos. Uma tecnologia melhor poderia ajudar, mas correr atrás do sonho do blockchain está começando a parecer uma nova versão da triste realidade de deixar de usar papel.

O único ponto em comum na onda de iniciativas foi a relutância em usar o bitcoin. Aliás, é difícil dizer que as últimas propostas do consórcio de investment banking R3 ou da Digital Asset Holdings de Blythe Masters se parecem com blockchains na acepção mais pura. Elas se parecem mais com bancos de dados comuns que respeitam os reguladores, com autoridades centralizadas e usuários pré-aprovados, do que com uma rede igualitária de colegas que registram e verificam operações de forma pública.

Contudo, iniciativas relativamente monótonas para arrastar sistemas de TI desajeitados para o século XXI foram apresentadas como um grande avanço. Isso gerou certas projeções questionáveis, como afirmar que um décimo do PIB chegará ao blockchain por volta de 2025 (Fórum Econômico Mundial) ou que os bancos economizarão até US$ 20 bilhões por ano em custos de infraestrutura por volta de 2022 (Santander).

Obviamente, não se deve desprezar tudo o que já existe (seria rude, considerando que muita gente comparecerá à London Blockchain Week nos próximos dias). Após atingir o que a Forrester Research descreveu como "o auge da propaganda exagerada" em 2016, provavelmente o blockchain já está pronto para começar a amadurecer - pelo menos em alguns casos.

A Depository Trust & Clearing (DTCC), entidade com sede em Nova York que compensa as operações com ações e títulos dos EUA, está construindo um livro-razão distribuído para processar derivativos depois do trading. Parece muito um sistema de administração centralizada da DTCC e não há sinais de economia de custos. Mas pelo menos as metas são claras: registrar e administrar acordos na nuvem sem erro e liberar o pessoal administrativo do trabalho chato.

Contudo, o verdadeiro risco aparece quando esses aplicativos saem do laboratório. Não há certeza de que os blockchains de finanças com escala industrial vão funcionar conforme o esperado, inclusive com ajustes para aumentar a segurança e a privacidade. A ameaça de um ataque cibernético se tornará ainda maior.

E com tantas firmas de blockchain autorizadas disputando para chamar a atenção - o Centro de Finanças Alternativas de Cambridge calcula que já existem 70 -, com certeza algumas vão fracassar ou se fusionar. Os bancos querem bases de dados melhores, mas elas devem ser rentáveis, segundo a consultora Siân Jones.

As empresas de finanças em breve enfrentarão perguntas sobre quanto mais elas deveriam investir em tecnologia e quantos dados de clientes armazenarão na nuvem. Se os evangelistas tiverem razão, a economia justificará o esforço. Mas as ações dos bancos já estão se recuperando fortemente, e a presidência de Trump implica que os investidores estão apostando em retornos mais altos graças a normas menos estritas.

Se quiserem conservar o interesse, os partidários do blockchain para o setor bancário terão que demonstrar que podem oferecer recompensas ainda maiores, sem o incentivo para assumir mais riscos que teria vindo de uma forte queda dos valores de mercado. Está na hora de um banho frio.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião da Bloomberg LP e de seus proprietários.

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