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No estilo 'Exterminador', ETF robô compra sem parar: Gadfly

Lionel Laurent

25/10/2017 14h48

(Bloomberg) -- Os robôs estão com tudo no momento. Os CEOs sabem disso, o Vale do Silício sabe disso e até mesmo os robôs sabem disso (ou quase). Os investidores, naturalmente, querem ganhar dinheiro com o oba-oba. Mas a ânsia de comprar tudo o que ostenta a palavra "robô" criou disparidades de preços com jeito de bolha -- a exemplo de quando um aspirador de pó rende o mesmo ágio que androides de última geração.

Outra história que serve de alerta é a da fabricante de robôs alemã Kuka e do fundo negociado em bolsa (ETF) que não deixa de comprar suas ações.

O fundo em questão é o Global X Robotics & Artificial Intelligence ETF, ou BOTZ, uma cesta de ações compilada pela Indxx. O fundo tem US$ 975,6 milhões em ativos líquidos e apresenta 56 por cento de retorno no ano até o momento, superando S&P 500 e Nasdaq. Os 10 principais ativos do fundo subiram em 2017, mas aquele que realmente compensou foi a Kuka -- avançou incríveis 170 por cento.

O intrigante é que a Kuka não é uma ação normal. O controle da empresa foi assumido no ano passado pela chinesa Midea, dona de 94,6 por cento da fabricante de robôs industriais, segundo dados da Bloomberg. Como o fundo soberano de investimentos da Noruega detém outros 2 por cento, não sobra muito da Kuka para ser negociado no mercado. Ainda mais curiosa é a velocidade com que a minúscula fatia da Kuka em ações de livre flutuação subiu. Avançou 50 por cento nas últimas três semanas.

O BOTZ pode ter parte da culpa. Fundo passivo, o BOTZ é, em si, uma espécie de robô que cumpre cegamente suas próprias regras de investimento. Isso o torna ao mesmo tempo barato e atraente. O robô reequilibra seus ativos uma vez por ano e sua missão é simplesmente acompanhar um índice. Ele não tenta ter desempenho acima da média, nem reage aos altos e baixos do mercado. Como anuncia em seu prospecto, o fundo é feito para segurar as ações até que o índice determine o contrário. Só segue ordens, como uma máquina.

E parece que a máquina simplesmente não consegue parar de comprar.

Dados da Bloomberg mostram que, no fim de 2016, quando a Midea estava finalizando a aquisição de 37,6 milhões de ações da Kuka, o BOTZ detinha 1.425 ações. Mas desde então a participação do BOTZ disparou para 284.576 ações, ou 0,7 por cento, subindo a cada trimestre. É o único grande comprador no mercado. Em comunicado de 23 de outubro, o fundo informa que comprou 15.300 ações da Kuka. Naquele dia, o volume negociado na Kuka foi de 17.672 ações.

O BOTZ, agora, é um mercado em si.

Se o BOTZ fosse um gerente de fundos ativo, poderia haver um bom motivo para tudo isso: talvez a Midea tente algum dia absorver as participações minoritárias? Talvez as oportunidades de crescimento no setor de robótica sejam tão grandes que comprar o equivalente a 87 por cento do volume diário de uma ação valerá a pena no fim? Mesmo assim, um cliente do BOTZ poderia se perguntar por que o custo médio estimado por ação do fundo para uma minúscula participação na Kuka foi 25 por cento superior ao preço pago pela Midea por uma participação controladora.

Mas, na qualidade de ETF, o BOTZ pode simplesmente estar cumprindo cegamente a função para a qual foi criado. Se o fundo reequilibrar os ativos, deixar de comprar ou começar a vender, o resultado pode ser doloroso.

Vale notar que nem todos os ETFs se comportariam dessa forma. A provedora de índices ROBO Global, usada por um ETF robótico rival, diz ter retirado a Kuka de seu índice de automação em 2016 quando a Midea assumiu o controle da empresa, segundo metodologia própria.

Talvez o toque humano não seja tão ruim assim, afinal.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião da Bloomberg LP e de seus proprietários.