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Esperança para economia, maior porto do país convive com a violência

David Biller e Marie Monteleone

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    Agente da Receita Federal patrulha porto de Santos (SP)

    Agente da Receita Federal patrulha porto de Santos (SP)

(Bloomberg) -- Para medir a pulsação do Brasil, dirija uma hora de São Paulo até o porto de Santos, o mais movimentado da América Latina.

Detrás das águas esmeraldas e condomínios luxuosos à beira-mar, o porto dessa cidade de cinco séculos abriga várias favelas em barracos sobre palafitas, terminais repletos de produtos que impulsionam uma recuperação econômica e, cada vez mais, cocaína.

O complexo portuário é um microcosmo de cerca de 5 quilômetros quadrados em um país golpeado pela turbulência política, pela violência alimentada pelas drogas e pela persistente desigualdade de renda à medida em que emerge de uma recessão opressora. Haverá recuperação? Há respostas, de certo modo, nos montes de contêineres empilhados e nos guindastes gigantescos.

O porto recuperou o status de número 1 da América Latina em 2015, superando os dois instalados em cada ponta do Canal do Panamá. Foi um avanço significativo, mas neste ano houve um grande passo: no primeiro trimestre, as vendas de produtos agrícolas a clientes estrangeiros tiraram o Brasil da pior crise de sua história.

O crescimento das importações, particularmente de autopeças e bens de capital, dá uma ideia do aumento da demanda doméstica, finalmente em curso. Com quase 13 milhões de desempregados, a recuperação é super bem-vinda.

A retomada da agricultura vem alimentando outros setores à medida em que a economia avança lentamente rumo a um crescimento de base ampla, diz Marcelle Chauvet, professora de Economia da Universidade da Califórnia em Riverside, com assento em um comitê que monitora os ciclos econômicos do Brasil na Fundação Getúlio Vargas.

A recuperação de um setor puxa os outros para cima e então ocorre uma espécie de efeito dominó
Marcelle Chauvet

Tráfico de drogas

Os contêineres estão carregados de café, soja, milho e mais --inclusive cocaína. As autoridades de Santos apreenderam um recorde de 11,5 toneladas até esta altura do ano, encontradas escondidas em carregamentos de todos os tipos, desde sacos de açúcar até cabeças de porco congeladas.

Os traficantes estão sempre à procura de novos truques; nos últimos tempos, eles têm encostado nos navios que estão saindo para o mar e formam conluios com membros da tripulação, que jogam cordas para içar a carga ilícita para bordo, disse o chefe da Polícia Federal em Santos, Júlio César Baida.

A polícia pegou um barco que partia de uma das favelas do porto em agosto e o tiroteio resultante deixou quatro contrabandistas mortos.

A competição violenta pelas principais rotas de tráfico entrou em erupção no fim de 2016 depois que as duas maiores quadrilhas do Brasil encerraram 23 anos de trégua, observa Robert Muggah, diretor de pesquisa do Instituto Igarapé.

O crescimento dos homicídios aumenta o apelo dos políticos de direita, que pedem um controle de armas mais flexível e uma justiça vigilante, diz ele, e as práticas repressivas de policiamento e encarceramento fortaleceram o poder dos grupos do crime organizado.

Segundo Muggah, "a postura linha-dura contra o crime na verdade está exacerbando os ciclos de violência e marginalização".

A marginalização pode ser vista dentro do porto, que abriga três favelas. Estudos recentes questionam em que medida a expansão da última década, impulsionada pelas commodities, contribuiu para a redução da desigualdade.

Um estudo da World Wealth & Income Database, codirigido pelo economista francês Thomas Piketty, estimou uma desigualdade consideravelmente maior do que a sugerida pelas estimativas oficiais --a faixa superior de 10% dos assalariados responde por mais da metade da renda nacional.

A concentração de riqueza crescente é uma ameaça para o crescimento econômico, afirmou Piketty em seu best-seller "O Capital no Século 21" (Capital In The Twenty-First Century), e para o funcionamento da democracia.

Suspeita de corrupção

Santos está no cerne da última investigação de corrupção pendente que ameaça o presidente Michel Temer. O STF (Supremo Tribunal Federal) autorizou investigar supostos subornos pagos por executivos da operadora portuária Rodrimar em troca de um decreto presidencial que ampliou as concessões dos operadores.

A Rodrimar nega ter recebido tratamento favorável, pontuando que o decreto não beneficiou apenas a empresa, e Temer negou irregularidades. O presidente já evitou dois julgamentos por corrupção, derrubados pelo Congresso, após três anos de um escândalo abrangente.

Com a aproximação da eleição presidencial, programada para outubro de 2018, cerca de nove entre 10 brasileiros afirmam que é "muito importante" que seu candidato não esteja envolvido em casos de corrupção.

O fato de o governo federal controlar certos aspectos em Santos, como as concessões, ressalta sua importância nacional: o porto responde por cerca de 30% do comércio.

Mas o diretor de Relações com o Mercado e Comunidade da autoridade portuária, Cleveland Sampaio Lofrano, afirma que a maior conclusão de uma viagem que ele e outros executivos fizeram ao porto de Antuérpia, em setembro, foi que eles deveriam operar com autonomia.

Isso não está necessariamente previsto, embora o governo esteja trabalhando para reduzir a burocracia que cria gargalos para as empresas. Isso inclui a eliminação de algumas tramitações em papel e a instituição de serviços online, como um portal de comércio exterior que está quase concluído e que, segundo estimativa das autoridades, reduzirá o tempo para exportação em pelo menos 4%.

O portal faz parte de um esforço mais amplo para reforçar a incipiente recuperação da economia e estabelecer um caminho para o crescimento a longo prazo.

Como é difícil encontrar um produto "Made In Brazil" no comércio

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