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BC japonês deve reagir à perspectiva de guerra cambial: Gadfly

Shuli Ren

(Bloomberg) -- Como se não bastasse uma guerra comercial no horizonte, os investidores também precisam ficar alertas para a ameaça de um grande conflito cambial.

Em entrevista ao The Wall Street Journal nesta semana, Norihiro Takahashi, comandante do Fundo de Pensão do Governo do Japão, afirmou que o plano do presidente americano, Donald Trump, de impor tarifas de importação não passa de uma "performance" para seus eleitores e que os ativos dos EUA não estão mais caros. É uma postura radicalmente diferente da adotada há poucos meses pelo maior fundo de pensão do mundo, que no último trimestre do ano passado reduziu a exposição a ativos estrangeiros.

Os comentários de Takahashi podem ser interpretados como reprovação velada da valorização do iene. A moeda japonesa se apreciou 6,6 por cento em relação ao dólar em 2018, sendo que o ano mal começou. Para investidores que usam ienes, os títulos do Tesouro americano, em particular, estão com preços mais razoáveis do que em dezembro.

Teoricamente, a política cambial é da alçada no Ministério das Finanças do Japão. Na prática, os órgãos governamentais ? incluindo o banco central e o próprio fundo de pensão liderado por Takahashi ? agem de modo coordenado. Vale lembrar que, em 31 de outubro de 2014, o Banco do Japão expandiu a política monetária no mesmo dia em que o fundo de pensão adotou uma "nova política para o mix de ativos" que ampliou sua exposição a títulos estrangeiros.

O comandante Haruhiko Kuroda pode negar, mas o Banco do Japão tem todos os motivos para buscar um iene mais fraco. Os lucros das empresas japonesas são bastante cíclicos. Segundo uma métrica ponderada, as componentes do índice Topix geram mais de 37 por cento da receita delas no exterior, segundo dados compilados por esta coluna. A apreciação do iene pode derrubar as ações, deprimir o consumo e despertar novamente a deflação.

Como o Topix caiu mais de 10 por cento em relação à pontuação máxima atingida em janeiro, trata-se de uma ameaça considerável. O núcleo do índice de preços ao consumidor excluindo alimentos, o indicador preferido do Banco do Japão, subiu 0,9 por cento nos 12 meses até janeiro ? nem perto da meta de 2 por cento, alcançada pela última vez em 2015. Paralelamente, as ferramentas à disposição de Kuroda estão mais escassas. O banco central já detém 40 por cento dos títulos públicos, a maior parcela em registro, e há menos ativos que possam ser comprados.

Períodos de desespero suscitam medidas desesperadas. Do ponto de vista do Japão, a fraqueza do dólar é frustrante, ainda que o novo presidente do banco central dos EUA,
Jerome Powell, esteja se preparando para elevar os juros pelo menos três vezes neste ano. Os rendimentos dos títulos dos EUA se descolaram da moeda. Teoricamente, a ampliação do diferencial de juros (o Japão prometeu manter a taxa dos títulos com prazo de 10 anos em zero) deveria valorizar o dólar.

Na prática, ocorre o contrário.
O problema é a imprudência fiscal de Trump. Após o corte de impostos que ele costurou, o déficit público vai aumentar ainda mais. E diante da postura dele em relação ao comércio exterior, conclui-se que o presidente americano prefere que o dólar se deprecie.

Os comentários do comandante do Fundo de Pensão do Governo do Japão acrescentam uma dose de curiosidade a uma ideia ventilada no fim de fevereiro. Koichi Hamada, assessor econômico do primeiro-ministro Shinzo Abe, disse em entrevista à Reuters que o banco central pode manter o iene fraco comprando títulos públicos dos EUA "como meio de entregar política monetária adequada no Japão".

No momento, os mercados estão se apoiando nas palavras ditas por Kuroda em 2 de março. Segundo ele, o Banco do Japão começará a pensar sobre a saída do programa de flexibilização monetária no ano fiscal que começa em abril. Se é que uma saída foi de fato contemplada, a retórica de Trump sobre o comércio internacional talvez precise entrar nos cálculos.

Kuroda é um inovador que já surpreendeu os mercados no passado. O banco central japonês se reúne na quinta e sexta-feira. Que ninguém descarte a possibilidade de um novo choque.

Esta coluna não necessariamente reflete a opinião da Bloomberg LP e seus proprietários.

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