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México abriga provável capital mundial de roubo a trem

Andrea Navarro e Nacha Cattan

24/07/2018 15h34

(Bloomberg) -- Saindo da Cidade do México e viajando na direção sudeste por cerca de quatro horas chega-se à cidade de Acultzingo.

Trata-se de um lugar pequeno, pobre e empoeirado, alojado nos picos escarpados da Sierra Madre. A maioria dos habitantes ganha a vida lavrando a terra. Eles cultivam milho e abacate e criam gado e porcos. E, além disso, roubam trens. Muitos trens. Tantos que Acultzingo não é a capital do roubo de trens apenas do México, mas possivelmente também do mundo.

Somente nos últimos 12 meses foram cometidos 521 crimes contra trens de carga na cidade. E uma parte desses incidentes não pareceu em nada com os crimes comuns vistos nas grandes cidades do norte do México -- vandalismos contra vagões ou roubos de placas ferroviárias. Não, estes são crimes enormes e coreografados, muitas vezes iniciados com um truque de baixa tecnologia que remonta à época do Velho Oeste -- colocar pedras nos trilhos --, e envolvem pequenos exércitos de ladrões que invadem os vagões descarrilados em busca do butim.

Eles roubaram tequila, sapatos, papel higiênico, pneus: tudo o que foi possível agarrar. Um incidente particularmente violento, no qual dezenas de vagões descarrilaram a poucos quilômetros ao leste de Acultzingo, provocou um prejuízo de mais de US$ 15 milhões à gigante ferroviária GMexico Transportes. E, nos escritórios da Mazda Motor na Cidade do México, os executivos ficaram tão cansados dos roubos de peças de seus veículos que começaram a enviá-los pela região por rodovias. Analistas estimam que a medida eleve em 30 por cento o custo de transporte da empresa. A Mazda preferiu não fornecer os números.

As forças de segurança estão tão sobrecarregadas pelo grande número de agressores, diz o analista de risco político Alejandro Schtulmann, que a sensação de impunidade predomina na região. "O problema piora a cada momento", diz Schtulmann, que chefia a consultoria EMPRA, com sede na Cidade do México.

É esse tipo de ilegalidade extrema que levou alguns analistas do México a se perguntarem, em certos momentos, se o país é uma espécie de Estado falido, com dificuldades para governar todo o seu território. Os homicídios registram uma alta recorde. Os sequestros também estão aumentando. Controlar a criminalidade, pelo menos um pouco, em breve será tarefa para Andrés Manuel López Obrador, o líder populista que conseguiu uma vitória esmagadora nas urnas neste mês, em parte devido à promessa de restaurar a lei e a ordem.

O surto de roubos de cargas ferroviárias se concentra predominantemente no sudeste do México -- em Veracruz, onde se localiza Acultzingo, e em Puebla, estado vizinho. Todos os ingredientes estão presentes: pobreza desenfreada, montanhas que oferecem uma cobertura natural e um suprimento constante de cargas destinadas à exportação que atravessa a região a caminho do porto de Veracruz, próximo dali.

Para as empresas do México, o assunto é uma dor de cabeça cada vez maior. Eduardo Solís, chefe da associação da indústria automotiva do país, disse que a situação é "simplesmente inaceitável" em entrevista coletiva, no mês passado. E a Audi, que transporta até 3.300 carros por dia de sua fábrica em Puebla ao porto de Veracruz, afirmou que os roubos tiveram um "grande impacto" sobre suas operações de distribuição. "Todo carro que produzimos tem um cliente à espera."

E a solução pensada pela Mazda -- transportar parte dos carros por rodovia -- pode não servir a longo prazo. Enrique González, chefe da associação de transporte rodoviário do México, se reuniu com López Obrador no início do mês. Na ocasião, ele pressionou o presidente eleito a nomear um promotor especial para combater roubos nas rodovias. A frota de caminhões do país, disse González, é atacada dia e noite.

--Com a colaboração de Caleb Mutua e Rafael Gayol.

Repórteres da matéria original: Andrea Navarro em Cidade do México, anavarro30@bloomberg.net;Nacha Cattan em Cidade do México, ncattan@bloomberg.net