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Opinião: Fed causa desemprego mais alto nos EUA

Karl W Smith

15/10/2018 12h55

(Bloomberg) -- Nestes últimos dois anos e meio, o banco central dos EUA consistentemente subestimou o quanto o desemprego poderia cair antes de desencadear a alta da inflação. Por isso, o Federal Reserve começou a subir os juros antes do necessário ? resultando em desaceleração do crescimento econômico e menos postos de trabalho.

Quantos empregos a menos exatamente? Um estudo de Adam Ozimek, economista sênior da Moody's Analytics, sugere que a economia americana poderia ter criado até 1 milhão de vagas a mais nos últimos anos.

Vale a pena discutir o quadro geral antes de entrar em detalhes. Mesmo na melhor das hipóteses, é inevitável haver algum desemprego. Em uma economia dinâmica, sempre haverá empresas demitindo pessoal e outras com dificuldades para contratar. Esse movimento e a entrada de novos profissionais na força de trabalho significam que sempre haverá uma parcela da população que procura, mas ainda não encontrou colocação.

Na teoria macroeconômica, essa parcela representa a taxa natural de desemprego no longo prazo. Segundo a teoria tradicional, o desemprego só fica abaixo desse patamar por tempo limitado, pois a redução no número de trabalhadores disponíveis obriga as empresas a subir salários. Com a maior concorrência por profissionais, os salários aumentam mais rápido do que a produtividade. Assim, as margens de lucro encolhem e as empresas reajustam preços para compensar a diferença. Então a inflação sobe e corrói os ganhos salariais iniciais. Ou seja, o que parecia boa notícia para os trabalhadores a princípio se transforma em uma corrida entre salários e preços.

Para impedir que isso aconteça, o Federal Reserve tenta reduzir a velocidade da economia quando o desemprego se aproxima de sua taxa natural de longo prazo. É um objetivo que faz sentido, mas passa por um problema: os economistas não sabem precisamente qual é essa taxa.

Voltando ao quadro atual, o Fed começou a subir os juros em março de 2015, quando a taxa de desemprego nos EUA estava em 5 por cento. Na época, a estimativa da instituição para a taxa natural de desemprego era 4,9 por cento. Mesmo se ficasse um pouco abaixo disso, o banco central não via grandes riscos porque a inflação também estava abaixo da meta de 2 por cento. Por isso, o Fed decidiu implementar uma série de aumentos nos juros para desacelerar a economia o suficiente para a inflação ficar ao redor da meta.

Mas desde então, o desemprego continuou caindo ? e a inflação permaneceu baixa. Várias teorias tentam explicar o motivo.

Seja o que for, o Fed reconheceu que suas estimativas para a taxa natural de desemprego eram altas demais e, em junho, revisou a projeção para 4,45 por cento. A taxa de desemprego na época estava em 3,9 por cento e depois chegou a 3,7 por cento.

Ainda assim, a pressão inflacionária parece modesta.

Mesmo presumindo-se que a atual estimativa do Fed esteja correta (embora pareça elevada), a série de acréscimos nos juros seria prematura. Segundo Ozimek, se o Fed desde o início tivesse acreditado que a taxa natural de desemprego era 4,45 por cento, a instituição não teria começado a subir os juros até junho de 2017, o que teria proporcionado a criação de mais 500.000 vagas aproximadamente.

Mas diante da inflação ainda moderada, existe a possibilidade de que o Fed ainda esteja superestimando a taxa natural de desemprego. Supondo-se que o resultado apurado em junho, de 3,9 por cento, seja a verdadeira taxa de natural de desemprego, o estudo de Ozimek aponta que o Fed só teria começado a elevar os juros em março deste ano. Se isso tivesse acontecido, Ozimek calcula que 1 milhão de pessoas a mais estariam empregadas atualmente nos EUA.

A especulação não pode se sobrepor ao argumento central: os acréscimos de juros prematuros pelo Fed quase certamente reduziram a geração de empregos no país.

A economia americana está excepcionalmente forte, em resposta ao crescimento do setor de petróleo e gás e dos estímulos associados à reforma tributária. Se o Fed permanecer na trajetória de aperto, pode haver crescimento lento e desinflação quando esses efeitos se dissiparem.

Ao revisar a estimativa para a taxa natural de desemprego, o Fed implicitamente reconheceu que o atual ciclo de altas nos juros começou mais cedo do que deveria. Revisões no futuro podem revelar que o ciclo foi encerrado tarde demais.

Esta coluna não necessariamente reflete a opinião do comitê editorial ou da Bloomberg LP e seus proprietários.