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A empresa de jatos executivos que socorre clientes endinheirados

Tom Metcalf

16/10/2018 16h16

(Bloomberg) -- É uma noite agradável de novembro, no arborizado bairro de Gunhill, em Harare, quando o celular de Ameerh Naran toca.

Quem liga é o filho de Emmerson Mnangagwa, então vice-presidente do Zimbábue. Ele quer que Naran ajude o pai a fugir do país. O presidente Robert Mugabe tinha acabado de demitir seu antigo vice e a família foi avisada de que haveria um atentado contra a vida de Mnangagwa.

O telefonema dá início a algumas horas frenéticas para Naran, de 32 anos, especialista em atender aos requisitos de aviação de seus clientes, grupo que inclui bilionários, políticos e celebridades. Ele começa a trabalhar pelo telefone para organizar uma evacuação médica de Mnangagwa para a África do Sul.

Mas então - depois de horas de telefonemas, coordenação cuidadosa e com uma ambulância e uma enfermeira quase chegando ao esconderijo de Mnangagwa -, o político decide seguir seu próprio caminho. Ele foi dirigindo para a fronteira e escapou a pé para Moçambique, antes de retornar alguns dias depois para tomar o poder.

As lembranças de Naran sobre esse episódio - cujos detalhes foram confirmados por uma pessoa com conhecimento da situação - ilustram os pedidos estranhos e imprevisíveis que compõem sua rotina diária. Sua empresa, a Vimana Private Jets, atende a alguns dos clientes mais exigentes do setor, que buscam voos fretados para negócios e lazer.

Este campo está ficando cada vez mais lotado. O uso de aviões executivos está retornando a um nível não visto desde antes da crise financeira de 2008, com mais de 3 milhões de voos de aviação executiva nos EUA e no Canadá no ano passado, de acordo com a provedora de dados Argus International.

Naran concentrou seus negócios na parte mais exclusiva do mercado de afretamento, apostando que seu serviço de alto nível continuará atraindo o tipo de cliente que pode justificar o aluguel de um avião para uma viagem de compras a Hong Kong.

As quantias envolvidas podem ser enormes. A Vimana reservou neste mês o frete de um Boeing 787 Dreamliner por US$ 4,2 milhões, disse Naran. Esse tipo de preço garante uma aeronave de dar inveja até mesmo a um presidente dos EUA: um jumbo para até 40 passageiros que tem uma suíte principal com banheiro próprio. Um pedido mais comum - um voo entre Londres e Los Angeles em um Gulfstream 650 - poderia custar US$ 200.000 a um cliente.

O trabalho é extenuante, e atrasos ou até mesmo detalhes como a cor do interior do avião podem custar um cliente. Naran, que mora em Londres, não tira férias desde 2009 e define alarmes de hora em hora para despertar durante a noite e poder atender às solicitações dos clientes. Seu escritório no Zimbábue tem uma equipe de seis pessoas e nunca fecha.

"Neste nível da aviação, os clientes serão fiéis enquanto você estiver dando resultado", disse Naran em uma entrevista em Londres, sempre atento ao telefone, que vibrava com frequência. "Basta cometer um erro para perdê-los."

--Com a colaboração de Thomas Black e Dan Reichl.