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Avanço da tecnologia do DNA torna possível fazer bebês editados

Kristen V. Brown e Robert Langreth

27/11/2018 16h18

(Bloomberg) -- Quando um pesquisador chinês afirmou ter criado os primeiros bebês com genes editados do mundo, ele ultrapassou um limite que há muito tempo muitas pessoas na medicina temiam.

Graças à proliferação e à rápida queda de custos da nova tecnologia genética, era inevitável que algum dia os cientistas alterassem o DNA de um nascituro. He Jiankui, cientista educado nos EUA que trabalha em Shenzhen, na China, disse que usou a ferramenta de edição de genes conhecida como Crispr para adaptar os genes de gêmeas que nasceram neste mês, a fim de torná-las resistentes ao vírus HIV.

O ritmo propulsor do desenvolvimento tecnológico colocou a ciência genética frente a problemas aparentemente insolúveis de ética médica, como a conveniência de projetar bebês, a sobreposição de regimes regulatórios e as implicações de longo prazo de mexer nos elementos fundamentais da vida humana.

"A capacidade de usar algumas dessas novas tecnologias está se tornando mais onipresente e não requer muita sofisticação", disse o chefe da Administração de Alimentos e Medicamentos dos EUA (FDA, na sigla em inglês), Scott Gottlieb, em entrevista à Bloomberg. "Você pode ter um doutorado e seu próprio laboratório e usar algumas dessas técnicas em sua casa."

Condenação

A ciência genética fez muitos avanços nos últimos anos, e muitos progressos significativos ocorreram na China onde, segundo alguns observadores, há menos restrições. A crescente onipresença e sofisticação das tecnologias genéticas tem dificultado o controle de seu uso e tem havido poucas tentativas de desenvolver padrões internacionais para regulá-las.

O trabalho de He suscitou a condenação imediata de outros cientistas, que disseram que isso representava uma ruptura em relação às normas éticas estabelecidas.

"Pouquíssimas vezes algo assim aconteceu na história da medicina", disse Eric Topol, geneticista do Scripps Research Institute, que chamou a revelação de crise. "Estamos falando em mudar cada uma das 37 trilhões de células do corpo humano. Isso nunca foi feito antes. E foi feito de maneira desonesta."

Edição facilitada

O Crispr tornou possível editar minúsculos segmentos de um genoma e executar essa edição com muito mais facilidade do que nunca. Agora também é possível solicitar todas as ferramentas necessárias para realizar experimentos básicos com Crispr on-line. Alguns trabalhos genéticos básicos usando Crispr podem ser feitos por menos de US$ 1.000.

A chamada edição da linha germinal, na qual os genes de um embrião são alterados de modo a serem transmitidos a futuros descendentes, é controversa porque seus efeitos ainda não são bem entendidos e devido ao receio de que possam ser usados para outras finalidades além da prevenção de doenças, como melhorar a inteligência ou outras características.

"Algum dia teremos uma edição responsável de embriões humanos", disse Topol. "Isso é inevitável, mas tem que ser feito corretamente."

Repórteres da matéria original: Kristen V. Brown em São Francisco, kbrown340@bloomberg.net;Robert Langreth em N York, rlangreth@bloomberg.net