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Dilema de Trump: Agradar Macri ou setor de biodiesel dos EUA

Mario Parker e Jonathan Gilbert

22/01/2019 10h41

(Bloomberg) -- A decisão do governo do presidente americano Donald Trump em abril passado de taxar os derivados de soja da Argentina foi uma benção para Bob Morton.

Sem uma gigante concorrente, Morton elaborou um plano para ampliar a capacidade de sua planta de biodiesel no Estado de Rhode Island em mais de 40 por cento e contratou mais 10 funcionários.

Esse plano de expansão está ameaçado após a Casa Branca chocar a indústria local de biodiesel ao anunciar uma revisão das tarifas depois das mudanças tributárias feitas pela Argentina. Morton e outros produtores americanos torcem para que a amizade de longa data entre Trump e o presidente Mauricio Macri não seja levada em conta.

Os dois se conheceram há três décadas, quando o pai de Macri, um magnata da construção civil, enviou o filho, então com 24 anos, para negociar uma operação imobiliária com Trump. A transação não saiu, mas os dois mantiveram contato, às vezes jogando golfe. Em visitas à Argentina, Trump se hospedava na residência de Macri.

O relacionamento azedou porque Macri apoiou Hillary Clinton na eleição presidencial de 2016, mas os dois foram forçados a reatar quando Trump assumiu o cargo. Ele recebeu Macri na Casa Branca em abril de 2017, quebrando a tradição presidencial de conhecer os líderes do Brasil e do México antes dos outros latino-americanos.

"É possível que o relacionamento Trump-Macri influencie o que acontece com o biodiesel", disse Marcelo Elizondo, diretor da consultoria de comércio Desarrollo deNegocios Internacionales, de Buenos Aires. "Em um governo como o de Donald Trump, as considerações pessoais dele são grande influência, frequentemente desbancando instituições."

Um porta-voz da Casa Branca não respondeu à solicitação de comentário da reportagem.

'Atípico'

Durante a conferência da Federação de Fazendas Americanas, realizada em Nova Orleans na semana passada, Trump deu uma ideia da reciprocidade na relação comercial com Macri. "Acabamos de abrir a Argentina às exportações de suínos americanos", afirmou o presidente. "Eles precisavam de algo e eu disse que precisavam abrir para os suínos."

Elizondo acredita que, considerando o lobby do biodiesel em Washington, Trump e as prioridades do Departamento de Comércio dos EUA não são os únicos fatores em jogo.

"Ainda estamos tentando descobrir quem pode estar por trás disso", disse Kurt Kovarik, vice-presidente de assuntos federais do Conselho Nacional de Biodiesel, em Washington. "Parece atípico para um governo disposto a ir à luta para obter acordos comerciais melhores" para o agronegócio e outros setores.

Precedente

"A legislação dos EUA especificamente permite que o Departamento inicie uma revisão de circunstâncias alteradas nos 24 meses após uma determinação final, se uma 'boa causa' for demonstrada", afirmou por email um porta-voz do Departamento de Comércio . "Embora rara, uma revisão dessas não é sem precedentes e é justificada neste caso, com base nas evidências submetidas pelo governo da Argentina, de que alterou fundamentalmente o regime tributário de exportação que foi tema das investigações subjacentes."

"A indústria americana terá plenos direitos processuais de revisar e comentar essas evidências", acrescentou o comunicado. "Continuamos comprometidos com a aplicação rigorosa e energética de nossas leis comerciais de maneira justa e transparente."

A decisão de reavaliar as tarifas sobre o produto argentino pode ser considerada bem embasada, após o país elevar o imposto de exportação de biodiesel para ter maior alinhamento com o imposto sobre o óleo de soja. A alíquota para o biodiesel feito de soja é somente 3 pontos percentuais menor do que a do óleo de soja. Quando as tarifas preliminares entraram em vigor, em setembro de 2017, a diferença era bem maior, ao redor de 27 pontos.

A Argentina exportava mais de US$ 1 bilhão por ano em biodiesel para os EUA antes da aplicação de taxas contra dumping e subsídios que cercearam o acesso do país ao mercado.

--Com a colaboração de Charlie Devereux e Justin Sink.

Repórteres da matéria original: Mario Parker em Chicago, mparker22@bloomberg.net;Jonathan Gilbert em Buenos Aires, jgilbert63@bloomberg.net