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Produção maior de petróleo no Brasil é dor de cabeça para Opep

Sabrina Valle e Javier Blas

20/02/2019 16h40

(Bloomberg) -- Quando a plataforma flutuante P-67 soltou sua primeira chama no início do mês, foi dada a largada numa expansão da produção de petróleo no Brasil que deverá desafiar os esforços da Opep para equilibrar o mercado global.

Essa enorme plataforma -- longa e comprida o suficiente para caber um campo de futebol americano -- é a primeira de quatro grandes plataformas a começar a extrair petróleo neste ano, acrescentando à produção brasileira cerca de 365.000 barris por dia, maior aumento anual em pelo menos 20 anos, mostram estimativas da Agência Internacional de Energia (AIE). Uma segunda plataforma, a P-76, também iniciou a produção, segundo comunicado ao mercado publicado nesta quarta-feira.

A expansão brasileira, aliada à maior quantidade de petróleo de campos de xisto de estados americanos como Texas e Dakota do Norte, deve criar uma dor de cabeça para a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). Na pior das hipóteses, poderia obrigar Arábia Saudita e Rússia a prolongar os cortes de produção até o segundo semestre, testando a força da relação entre Riad e Moscou no setor de petróleo.

"O Brasil está perto de um grande crescimento da oferta", disse Francisco Blanch, chefe de pesquisa de commodities do Bank of America em Nova York. "O shale americano não é o único motor de aumento nos volumes."

O desempenho do Brasil decepcionou no passado, quando o crescimento da produção foi muito inferior às expectativas devido a problemas de manutenção, declínios em campos maduros e atrasos na instalação de novas embarcações para a produção e o armazenamento de petróleo. O campo de Tartaruga Verde, que deveria ter entrado em operação no fim de 2017, foi ativado apenas em junho de 2018. O início da operação da própria P-67 foi adiado por vários meses.

Ainda assim, traders e executivos do setor de petróleo acreditam que neste ano o Brasil cumprirá suas promessas. A plataforma P-67, que está a cerca de 260 quilômetros do Rio de Janeiro, vai extrair cerca de 150.000 barris por dia nos próximos meses, quando a produção se estabilizará.

A P-67 pertence a um consórcio formado por Petrobras e Royal Dutch Shell. Segunda plataforma a ser ativada neste ano, a P-76 também poderá processar até 150.000 barris por dia. Segundo a programação, as duas plataformas serão seguidas pela P-68 e pela P-77 em 2019, e a Petrobras pretende instalar mais 10 grandes plataformas de 2020 a 2023.

"O Brasil está atingindo um novo patamar de produção, e isso é um fato", disse o diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), Décio Oddone, em entrevista. "2019 vai ser um ano chave"

A Opep está de olho no Brasil e ressaltou que o país terá o segundo maior aumento na produção anual de petróleo entre os países que não fazem parte da Opep, atrás apenas do xisto americano. O Brasil produziu quase 2,7 milhões de barris de petróleo por dia em dezembro, o que coloca a produção do País perto do patamar do Kuwait e do Irã, que são membros da Opep.

"A produção de petróleo pode aumentar significativamente em 2019" se as unidades flutuantes de armazenamento e produção atrasadas e outras embarcações programadas começarem a operar neste ano, afirmou a Opep a respeito do Brasil em seu último relatório mensal. O cartel projeta um crescimento brasileiro de 360.000 barris por dia.

Águas profundas

Os campos do pré-sal, que são reservas localizadas nas profundezas do Oceano Atlântico sob uma espessa camada de sal, deverão superar as estimativas de produção elaboradas quando os blocos de petróleo foram descobertos, há mais de uma década. O campo de Lula, onde está a P-67, provavelmente vai superar 1 milhão de barris por dia de produção neste ano, tornando-se um dos maiores campos de petróleo offshore do mundo, atrás apenas do Safaniyah, na Arábia Saudita.

Além disso, o País está rapidamente se tornando menos dependente da estatal Petrobras, que gerava 93 por cento da produção total do Brasil em 2010.

"Brasil e Petrobras costumavam ser sinônimos em termos de produção de petróleo até recentemente. Não mais", disse Oddone.

O crescimento brasileiro se dá no momento certo, já que o mercado internacional de petróleo está sedento pelo tipo de petróleo produzido nos campos do pré-sal: óleo bruto médio-pesado, ideal para ser transformado em diesel por meio de refino. Os cortes de produção da Opep e do Canadá, somados às sanções americanas ao Irã e à Venezuela, reduziram significativamente a disponibilidade de petróleo bruto médio-pesado, elevando seu preço em relação à referência global.

"Com exceção do xisto americano, não há nada no mundo como o Brasil em termos de oferta" de petróleo bruto, disse o ex-geólogo da Petrobras e consultor em petróleo Pedro Zalán, do Rio de Janeiro. "As reservas são gigantescas e a produtividade do pré-sal é enorme."

Repórteres da matéria original: Sabrina Valle em Rio De Janeiro, svalle@bloomberg.net;Javier Blas em Londres, jblas3@bloomberg.net