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Impostos, déficit e Asperger: o Bill Gross que você não conhecia

Erik Schatzker

01/03/2019 12h05

(Bloomberg) -- Mesmo depois de uma das carreiras mais célebres dos mercados financeiros, Bill Gross ainda guarda algumas surpresas.

Por exemplo, ele foi diagnosticado com a síndrome de Asperger, um transtorno do espectro do autismo. Gross diz que viveu a maior parte de sua vida sem saber da condição e agora acredita que isso ajuda a explicar não apenas por que ele foi um investidor tão bem-sucedido por tanto tempo, mas também por que, segundo ele mesmo, ele incomodava as pessoas.

Gross, um dos críticos mais expressivos do estímulo pós-crise, agora soa quase convertido à teoria monetária moderna. Ele diz que a deflação representa um enorme desafio para os bancos centrais, admira o que o Japão fez para revigorar sua economia moribunda e acha que o governo dos EUA deveria considerar dobrar o tamanho de seu déficit.

E o bilionário afiliado ao Partido Republicano concorda com a deputada democrata Alexandria Ocasio-Cortez em que os ricos deveriam pagar mais em impostos - embora não os 70 por cento que ela propõe sobre a margem. É um "mal necessário" para corrigir as falhas do capitalismo americano, diz Gross, acrescentando que, se a desigualdade persistir, haverá uma "revolução nas urnas".

Último dia

Gross, 74, compartilhou as revelações em uma entrevista de 90 minutos à Bloomberg Television em seu escritório em Newport Beach, na Califórnia. Ele falou sobre tudo, desde riscos de recessão até uma recente partida de golfe com o pioneiro de corretagem de desconto Chuck Schwab, enquanto contava as horas para sua aposentadoria oficial. Esta sexta-feira é sua última como gerente de portfólio da Janus Henderson Group, a firma em que ingressou em 2014.

Já se passaram 48 anos desde que William Hunt Gross, um nativo de Ohio, formado na Duke University, veterano da Marinha e especialista em blackjack, começou a trabalhar como analista de investimentos na Pacific Mutual Life. Ele ajudou a fundar a Pacific Investment Management Co. em 1974 e desempenhou o papel de protagonista enquanto a Pimco crescia e se tornava um dos maiores gestores de ativos do mundo, administrando mais de US$ 2 trilhões em seu auge. Seu Pimco Total Return Fund derrotou tanto os rivais do mercado de títulos que ele foi apelidado de "o rei dos títulos".

Mais recentemente, Gross teve menos motivos para comemorar. Depois de desentendimentos com seus sócios da Pimco sobre estratégia, sucessão e controle gerencial, Gross foi afastado em 2014. Seu segundo ato na Janus foi um fracasso que virou manchetes, porque retornos ruins estimularam retiradas. Seu casamento de três décadas desmoronou, e a separação foi tão amarga que alimentou tabloides a milhares de quilômetros de distância.

'Universos diferentes'

Isso é muito para qualquer um, ainda mais para um gerente de portfólio responsável por centenas de milhões de dólares em dinheiro de clientes. No entanto, Gross diz que conseguiu manter o foco e não culpa suas provações pessoais por decisões de investimento ruins.

"Eu tenho Asperger, e as pessoas com essa síndrome conseguem compartimentalizar", disse ele, revelando publicamente seu diagnóstico pela primeira vez. "Elas conseguem operar em diferentes universos sem que os outros universos as afetem tanto. Sim, eu tive um divórcio desagradável, e eu ainda tinha, você sabe, sentimentos em relação à Pimco. Mas acho que consegui compartimentá-los muito bem. Não que eu não tenha acordado no meio da noite e começado a amaldiçoar um lado ou o outro. Mas, quando chegava ao trabalho, só pensava no trabalho."

A razão pela qual ele não conseguiu fornecer retornos melhores na Janus é muito mais simples: "Fiz alguns negócios ruins".