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No governo Bolsonaro, militares atuam como moderadores

Simone Iglesias e Rachel Gamarski

03/03/2019 07h00

(Bloomberg) -- Ao desembarcar na Colômbia para liderar pelo Brasil as conversas sobre a crise na Venezuela, o vice-presidente, general Hamilton Mourão, foi objetivo: "Vamos manter a linha de não intervenção. Sem aventuras". A frase sintetiza o espírito de atuação dos militares desde que voltaram a ter protagonismo no poder com Jair Bolsonaro. Os militares não ocupavam postos relevantes na cúpula do governo brasileiro desde 1985, quando se encerrou o mandato do último presidente do período da ditadura.

De temidos na campanha eleitoral por potencialmente chegarem ao poder e decretarem uma nova ditadura militar no Brasil, eles se tornaram fiadores da estabilidade do governo. Congressistas, analistas políticos, investidores e parte substancial da mídia brasileira têm elogiado a atuação de generais que hoje dominam a hierarquia da máquina pública. Em meio a crises internas e externas, veio deste grupo a mediação de conflitos.

Para o historiador e ex-deputado Chico Alencar (PSol), o vice-presidente se tornou uma surpresa positiva, após uma campanha eleitoral extremamente radicalizada e dentro de um governo conservador de direita. "Ele é uma surpresa geral. Mourão faz ponderações, tem saído melhor que a encomenda, já que ele é ultraconservador. Reconheço que está impressionando, sempre com ponderações", avalia Alencar, que presidiu por vários anos a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. O ex-parlamentar afirmou, no entanto, que é preciso observar as movimentações dos ministros oriundos dos quartéis. "Não podemos nos enganar, eles são defensores do regime militar."

Nos últimos dias, Bolsonaro elogiou o ex-ditador paraguaio Alfredo Stroessner e seu ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araujo, sugeriu que o regime venezuelano é pior do que o governo da Coréia do Norte. Enquanto isso, militares desempenharam um papel importante na redução das tensões.

Durante a frustrada operação de ajuda humanitária na fronteira de Roraima com a Venezuela, partiu do ministro da Defesa, general Fernando Azevedo, a ordem por um entendimento com a Guarda Nacional Bolivariana, em meio à crescente tensão entre civis e militares, quando chegavam alimentos e medicamentos. O general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional e considerado o militar mais próximo do presidente, foi quem tentou apagar um incêndio entre Carlos Bolsonaro e o Gustavo Bebbiano, que acabou demitido da Secretaria-Geral depois de chamado de mentiroso nas redes sociais.

Quando o deputado de esquerda Jean Wyllys renunciou ao mandato e foi embora do Brasil, há algumas semanas, citando ameaças de morte, Bolsonaro e milhares de eleitores aplaudiram a notícia nas redes sociais. Mourão, por sua vez, disse que tais ameaças eram "um crime contra a democracia".

"Os militares são os cabeças do governo, eles dão estabilidade, são preparados. Achava que seria uma experiência ruim pela imagem que eu tenho da ditadura", disse o deputado Fernando Monteiro (PP), do segundo maior partido aliado ao governo de Jair Bolsonaro.

Para o líder da oposição na Câmara, deputado Alessandro Molon (PSB-RJ), a ala militar demonstra mais equilíbrio no governo: "Não há dúvida que tem mais bom senso do que o presidente da República".

Pesquisa publicada em 26 de fevereiro pela Confederação Nacional dos Transportes aponta que 53,5% de mais de dois mil entrevistados consideram boa para o país a presença de militares no governo, enquanto apenas 14,4% acham ruim. No mesmo levantamento, as Forças Armadas aparecem como terceira instituição mais respeitada do país, atrás apenas da Igreja e dos bombeiros. Os números são emblemáticos já que o Brasil é considerado uma democracia jovem, com pouco mais de 30 anos de eleições diretas. E também pela memória dos crimes cometidos pelo regime nos anos de 1960 e 1970.

"A presença dos militares é boa. Não podemos ter visão estereotipada, de quem quer buscar o poder pelo poder, essa época passou", avalia Thiago de Aragão, analista político da Arko Advice. "Os militares são força muito importante, basta ver o ponto de vista sensato em vários temas."

Oito dos 22 ministros de Bolsonaro são oriundos das Forças Armadas e atuam nas mais diversas áreas, da Defesa, a Minas e Energia, até o programa de concessões de obras para a iniciativa privada. O vice-presidente cavou espaço e passou a centralizar assuntos polêmicos, como crise na Venezuela, relações com Rússia e China e com países árabes. Bolsonaro prometeu durante a campanha transferir a embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém. Mas como a mudança pode levar a retaliações comerciais, Mourão, em conjunto com a ala militar, tem atuado para postergar o assunto.

"Não temos visto com preocupação a presença dos militares. No macro, se faz certo, favorece todo o ambiente econômico", afirmou Flávio Serrano, economista-sênior do Haitong. "Há percepção de que Mourão tem alinhamento com questões econômicas centrais, que é do que precisamos", avalia. Outros pontos considerados importantes por investidores são a visão estratégica dos militares e o fato de muitos serem fluentes em outras línguas.