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Pânico por Brexit gera medidas desesperadas em lares britânicos

Kitty Donaldson e Thomas Penny

26/03/2019 12h10

(Bloomberg) -- Melvin tem estado tão preocupado com a caótica busca do Reino Unido para deixar a União Europeia que consultou uma fonte fora do comum: o guia de sobrevivência dos mórmons.

Os membros da Igreja dos Santos dos Últimos Dias são incentivados a se prepararem para a adversidade na forma de furacão, tempestade de gelo, terremoto, distúrbios ou atos de terrorismo. O engenheiro de software de 45 anos, que mora perto de Cambridge, na Inglaterra, está se planejando para a escassez de alimentos no caso de o Brexit ocorrer sem nenhum acordo para manter as fronteiras abertas.

Melvin não é mórmon, mas após uma pesquisa na internet ficou sabendo que os mórmons são especialistas em planejamento de desastres.

"O livro Mórmon deu algumas orientações sobre o alimento que a gente precisaria, e quanto por dia, e a partir disso eu fiz uma planilha", disse, preferindo não se identificar com o nome completo devido ao temor de ser alvo de ladrões.

Uma petição pedindo uma nova votação pública teve mais de 5 milhões de assinaturas e uma passeata anti-Brexit lotou as ruas de Londres no fim de semana. E, embora o Reino Unido pareça mais um país irritado e frustrado do que com medo de a vida ser virada do avesso, há cada vez mais histórias de pessoas pensando na possibilidade de um súbito fim de décadas de livre comércio e em uma nova era de isolamento.

A primeira-ministra Theresa May ganhou algum fôlego da UE na semana passada ao mudar o dia do Brexit de 29 de março para abril ou maio, quase três anos depois de o Reino Unido ter decidido deixar a UE em referendo. Mas ainda parece pouco provável que ela consiga a aprovação de seu acordo no Parlamento e, como ela afirmou à Câmara dos Comuns na segunda-feira, não há sobre a mesa atualmente nenhum plano alternativo que possa evitar distúrbios e manter o fluxo do comércio.

A preocupação com o abastecimento de alimentos e remédios se centra nos bloqueios nos portos, em meio a temores de que a documentação adicional necessária leve a atrasos quando os caminhoneiros tiverem que esperar para passar pela aduana. Como o Reino Unido depende de entregas imediatas, os alimentos e vegetais frescos importados do continente podem acabar faltando. O governo exortou supermercados e empresas farmacêuticas a fazerem estoque.

Melvin, no entanto, não se arrisca. Ele tem um banheiro lotado com seis meses de suprimentos para a esposa e o filho de oito anos. Ele priorizou comida enlatada e baterias em vez de rolos de papel higiênico, explicando que comprou um chuveirinho para o vaso sanitário.

Em Cardiff, no País de Gales, Helena está mais preocupada com o fato de seu cão da raça Jack Russell, Charlie, ter o suficiente para comer em um cenário sem acordo.

"Tenho cerca de três meses de alimento humano e um ano de comida de cachorro com base no fato de que, se houver problemas de abastecimento, o governo não vai priorizar ração para cães nos portos", disse Helena, 27. "Eu passaria fome antes de deixá-lo passar fome. Sorte que ele não precisa de tanta comida quanto um Mastiff ou um Great Dane."