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'Financiamento de carros caiu 80%', diz presidente do BV

Mônica Scaramuzzo

São Paulo

14/04/2020 14h20

Com forte atuação em financiamentos de veículos, o BV (ex-Banco Votorantim) sentiu forte impacto nessa área por causa dos estragos provocados pelo coronavírus na economia. Segundo o presidente do banco, Gabriel Ferreira, ainda é cedo para medir o aumento da inadimplência, mas ele vê um comportamento superior ao que ocorreu na paralisação dos caminhoneiros, em 2018, quando houve recuo de cerca de 20% nos pagamentos. "Porém, como foi um choque curto, a curva de inadimplência se corrigiu nos dois meses seguintes", diz.

Para ele, o que vai definir o tamanho do impacto agora será o tempo de confinamento. Em relação ao financiamento de automóveis, porém, já dá para se ter uma ideia. O final do mês de março registrou queda de 80% nas operações em relação ao período antes de a crise se instalar. A instituição financeira, que tem como acionistas o grupo Votorantim e o Banco do Brasil, doou no fim de março R$ 30 milhões para ajudar no combate à pandemia da covid-19.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

Qual o impacto do coronavírus para o BV, que tem um foco grande em financiamento de veículos?

O impacto para nós tem a ver com a economia real. E aí tem dois blocos: varejo e atacado. No varejo, vimos ao longo de março, até o dia 18, uma operação normal. A partir do dia 19, começamos a ver uma queda de demanda. Fechamos o mês com queda de 80% no financiamento de carros em relação ao início de março. Sobre inadimplência, não tivemos dados suficientes para modelar. Tentamos comparar com o lockdown parecido, que foi a greve dos caminhoneiros. Em 2018, durante 17 dias, algumas regiões do País ficaram paradas. O que deu para ver é um efeito superior ao da greve dos caminhoneiros.

Tem como mensurar isso?

O que a gente viu àquela época foi uma queda de 20% de recebimento diário. Mas, como foi um choque muito curto, a curva de inadimplência se corrigiu nos dois meses seguintes. Dependendo do tempo do confinamento e da situação econômica, conseguiremos ver o impacto na inadimplência. Foi uma medida muito feliz do Banco Central aliviar os efeitos de provisionamento e capital para que os bancos possam renegociar até setembro, dando carência de até 60 dias para o pagamento das parcelas que vencem. Imediatamente, o BV aderiu a essa estratégia e já repactuamos mais de 200 mil contratos. Essa demanda deve continuar alta durante todo o mês de abril. Em cartão de crédito, por exemplo, reduzimos à metade a taxa de juros do parcelamento de fatura.

Comprar automóvel deixou de ser objeto de desejo para muitas pessoas. Essa crise não vai afetar a demanda futura, quando tudo isso passar?

Antes da crise, a gente via uma tendência global de crescimento de demanda por carros, sobretudo nos mercados emergentes. No nosso caso, como nos concentramos na classe média compradora de carros usados, os indicadores mostram que essa frota crescerá por muitos anos. Quando se entra com tecnologia - carro elétrico, autônomo, por exemplo -, a conclusão é a mesma.

E a demanda por crédito ao atacado?

No atacado, o efeito é inverso. Houve uma explosão de demanda, com muitas empresas querendo reforçar o caixa. Nossa carteira está concentrada em empresas de maior porte e não vimos maior degradação dessas carteiras.

O BV planejava a abertura de capital. Como ficou? Outros investimentos de expansão foram cancelados?

Os investimentos que tinham previsão de resultados muito longa ou incerteza muito grande, nós seguramos. Fizemos doação de equipamentos e hospitais com o orçamento que seria usado para marketing. Não faz sentido fazer campanha de marketing neste momento. O BV doou R$ 30 milhões para ajudar no combate à pandemia e deu início a uma campanha para arrecadação de produtos que serão destinados para compra de insumo hospitalares e distribuição de itens de primeira necessidade.

E o IPO?

Em relação ao IPO, ficamos tranquilos porque sempre falamos que a operação estava sempre sujeita às condições do mercado. Não imaginava condições de mercado tão adversas. O IPO, no nosso caso, era menos para gerar recursos para o banco, e mais um movimento de liquidez dos dois acionistas (grupo Votorantim e Banco do Brasil). Então, foi cancelado.

Esse projeto será retomado?

É muito difícil prever ainda.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.