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Brasil terá contração de 4% do PIB em 2016, diz BNP Paribas, que vê "tripla ameaça"

SÃO PAULO - No Brasil de hoje, parece que não há previsão ruim que não possa piorar. Em relatório, o banco BNP Paribas reduziu a previsão para o PIB do Brasil em 2016: de contração de 3% para 4%, o que os afasta um pouco do consenso de mercado. Com isso, a economia terá uma contração de 8% apenas entre o biênio de 2015-2016, enquanto que, em 1930-1931, no último biênio de recessão que o Brasil sofreu uma contração de 5%. Assim, o Brasil está "quebrando recordes", afirma o BNP.  

O economista do banco, Marcelo Carvalho, ressaltou que no ano em que o Brasil sediará os Jogos Olimpícos, o Brasil registra perspectivas fiscais ruins, preocupação com a nota soberanaa, alta do desemprego, aumento do descontentamento popular e conflitos políticos. 

Apesar da melhora da balança comercial com o mergulho das importações, o real provavelmente vai se enfraquecer ainda mais, afirma. A inflação continuará acima da meta, forçando o Banco Central a aumentar as taxas de juros. 

"Nós adoramos nos tornar um consenso, mas odiamos ser consenso. Nossa previsão de crescimento foi cortada muitas vezes ao longo do último ano, ficando um pouco à frente da multidão. Que possamos soar como um disco quebrado, mas pensamos que o consenso sigará o nosso exemplo novamente", afirma o economista. 

Desde que os registros começaram há um século, o Brasil enfrentou dois anos consecutivos de crescimento negativo apenas uma vez antes, em meio a uma depressão global em 1930-1931, quando houve um período de dois anos queda acumulada de 5% no PIB real. E, segundo Carvalho, com as tendências atuais, o crescimento médio do PIB real em 2017 parece improvável que seja muito acima de zero.

"A economia brasileira tem sofrido uma tripla ameaça", afirma. Primeiro,  os ventos contrários para o crescimento como a economia da China intensificaram e afetaram os preços das commoditie. Em segundo lugar, a economia doméstica está sentindo as consequências do acumúlo de erros de política ao longo de vários anos. Em terceiro lugar, uma série de investigações de corrupção continua, no curto prazo, levando a efeitos negativos para a economia e "azedando" o ambiente político, com figuras-chave sendo ameaçadas de prisão.

O PIB está sendo martelado por um mergulho na confiança, estoques elevados, crescente desemprego, efeitos das investigações de corrupção, uma crise de crédito doméstica, a discórdia política e crescente preocupação política interna sobre as perspectivas - além de ventos contrários internacionais.

"Acima de tudo, uma recuperação nos negócios e na confiança do consumidor parece improvável enquanto permanecem as dúvidas sobre a vontade e a capacidade de entregar a política de correção muito necessária (mas impopular) enquanto o governo concentra a energia na luta contra um processo de impeachment do governo. Uma das consequências de uma recessão mais profunda será deterioração das perspectivas financeiras. O governo central está encontrando dificuldades para cortar gastos ou aumentar os impostos, enquanto a recessão enfraquece as receitas; os estados locais estão em uma situação cada vez mais terrível", afirma Carvalho.

O superávit primário não deve ser muito melhor do que o déficit primário de cerca de 2% do PIB de 2015, afirma o banco. Como resultado, a dinâmica da dívida piorou rapidamente. "Esperamos que a dívida bruta em relação ao PIB atingirá 80% dentro de poucos anos [..] Não é de admirar que o Brasil já perdeu seu grau de investimento, com novos rebaixamentos no radar". 

Enquanto isso, a deterioração do mercado de trabalho continua e a taxa de desemprego deve chegar a dois dígitos este ano, afirma. Juntamente com o aumento das taxas de juro, o aumento do desemprego vai bater as finanças domésticas, elevando a inadimplência. Carvalho ressalta que os grandes bancos estão bem capitalizados e são bem administrados, mas talvez o mais preocupante é o provável aumento da inadimplência das empresas, especialmente para as pequenas e médias, que parecem ter acordado para a recessão apenas recentemente. "Tudo dito, uma crise de crédito doméstico parece estar em formação".

Porém, nem tudo é tão negativo. Do lado positivo, uma recessão mais profunda vai ajudar as contas externas; além disso, o Brasil conta com um grande valor de reservas internacionais, corresponde a US$ 370 bilhões e pouca dívida externa. 

"Ainda assim, uma moeda mais fraca parece estar aqui para ficar, à luz das perspectivas de mais duras condições externas e de uma dinâmica interna ruim. Tendo terminado 2015 em R$ 4,00, a taxa de câmbio deve enfraquecer para R$ 5,00 ao invés de se fortalecer para R$ 3,00 nos próximos um ano ou dois".

E a queda do real é uma má notícia para a inflação. A recessão interna deve ajudar a puxar a inflação para baixo em 2016, mas o enfraquecimento da moeda, inércia e as expectativas são suscetíveis de mantê-la bem acima da meta oficial. O banco espera uma inflação em 8,0% em 2016. Com isso, o economista espera que o BC eleve a Selic até 15,75% este ano, um aumento de 1,5 ponto percentual. 

"Enquanto os Jogos Olímpicos possam trazer algum alento, a surpreendente derrota do Brasil para a Alemanha na Copa do Mundo nos inclina a ter cautela", conclui Carvalho.

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