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ENTREVISTA: BC terá que reduzir muito e por muito tempo os juros para país crescer

31/07/2019 12h26

Arena do Pavini - O Brasil vive uma recessão de balanço, as pessoas e empresas estão muito endividadas, o que limita a retomada do crescimento, afirma Guilherme Abbud, sócio da gestora Persevera Asset Management. Por isso, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) terá de reduzir muito mais os juros e deixa-los baixos por mais tempo se quiser que eles façam algum efeito na economia. "A Selic caiu de 14% para 6,5%, mas isso só beneficiou as grandes empresas, que tomam dinheiro emprestado pela taxa do CDI, as pequenas e médias e as pessoas físicas continuaram pagando juros elevadíssimos, no desconto de duplicatas, no capital de giro, no cartão de crédito e no empréstimo pessoal", afirma Abbud.

O Copom começou ontem sua reunião para definir a política de juros e deve divulgar hoje sua decisão para a taxa básica Selic. A Persevera é formada por executivos vindos da gestora do HSBC, comprada pelo Bradesco (SA:BBDC4).

Três anos de crescimento pífio

Para Abbud, o país não vai crescer nos próximos três anos por conta do endividamento. E não adianta contar com um choque de expectativas, pois essa estratégia só funciona quando os balanços das pessoas e empresas estão "limpos" e elas resolvem então usar os recursos disponíveis e o crédito para gastar. "Em uma recessão cíclica, as pessoas tem medo de consumir e as empresas, de investir, então um choque de expectativas, um incentivo, ajudam", diz. "Não é este o caso, elas não consomem porque não têm dinheiro ou estão devendo", afirma Abbud.

Efeito na economia só com corte de 2 pontos por muito tempo

Para ele, na situação atual do Brasil, a redução dos juros só teria impacto se ficasse na casa dos 2 pontos percentuais, ou seja, dos atuais 6,5% ao ano para 4,5% ao ano "E precisaria ficar nesse nível uns três anos para dar tempo aos bancos se afastarem da memória de perdas de crédito dos últimos anos e repassarem a queda dos juros para o tomador final", afirma. Abbud acredita que, hoje, os bancos ainda estão embutindo em suas taxas de crédito as perdas do passado, que elevam os spreads (diferença entre taxa de captação e a taxa de empréstimo). "Com o tempo, essa memória de perdas vai ficando para trás", diz. Ele lembra que, logo após a queda da Selic, o spread dos bancos subiu em vez de cair. Agora que a taxa de juros se estabilizou, os empréstimos recuaram.

Ele cita o ex-presidente do Federal Reserve (Fed), Ben Bernanke, que comandou o banco central americano logo depois da crise de 2008, e que constatou que não adiantava só cortar os juros básicos, mas manter baixa a curva de taxas de juros longos e por um bom tempo.

Com Bolsonaro, economia só vai crescer 2% ao ano

Mesmo com todo esse esforço, Abbud acredita que taxas de crescimento do PIB no Brasil acima de 3% ao ano só serão vistas no próximo governo. "Neste governo de Jair Bolsonaro, o crescimento não deve crescer muito mais de 2% ao ano", afirma.

Campos Neto, no centro das atenções

Para ele, depois da aprovação da Previdência, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, terá um papel mais importante do que o do ministro da Economia, Paulo Guedes, ou do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia. "O Campos Neto não pode ser dogmático em termos de taxas de juros, ele tem de testar até chegar a uma taxa estimulativa para a economia brasileira", afirma Abbud, que não acredita em uma fuga de recursos com a baixa da taxa local. "O dinheiro estrangeiro mais especulativo já saiu, hoje esses investidores têm 12%, 13% da dívida pública, depois de chegar a ter mais de 20%", diz.

Os estrangeiros também reduziram suas aplicações na bolsa brasileira neste ano e no ano passado, e as empresas brasileiras estão bem protegidas de um eventual aumento do dólar com operações de hedge.

Ganho bom mesmo com juro menor

Abbud lembra que o corte dos juros, se não tem impacto imediato, pode encomendar um crescimento econômico futuro, além de reduzir o custo da dívida pública brasileira. "E o mundo inteiro está cortando os juros", afirma o gestor. Assim, mesmo que os juros brasileiros caiam, os juros americanos também vão cair. "E mesmo com juro de longo prazo em 4% ao ano, ainda vai pagar 3 pontos percentuais acima do juro do Tesouro americano", afirma. Ele cita a Austrália, que está com juros 1 ponto percentual abaixo dos americanos. "E nem por isso a moeda australiana foi destruída", diz.

Sobre o impacto da queda dos juros no câmbio, Abbud diz que seria até bom o dólar subir. "Vejo o dólar no máximo em R$ 4,20, o que seria uma desvalorização em torno de 10% do nível atual, e devemos ter uma estabilidade cambial por um bom tempo, entre R$ 3,70 e R$ 4,10", afirma. "Mas movimentos de 40% no dólar, será muito difícil de ocorrer, tanto para cima quanto para baixo", diz.

País desarmou a "bomba do câmbio"

Essa menor volatilidade cambial se justifica, segundo Abbud, pela queda da taxa de juros brasileira. Com juros muito acima da média mundial, quando a situação era boa, o Brasil atraía uma quantidade enorme de recursos especulativos que valorizavam a moeda. Depois, quando a situação piorava, o dinheiro saía de uma vez e o dólar disparava. "Agora, com juros mais baixos, ninguém vai trazer bilhões de dólares ou enviar bilhões, desarmamos a bomba do câmbio", diz.

Dívida pública mais leve

Abbud lembra que todos os países do mundo têm dívidas públicas que seriam impagáveis se tivessem de pagar juros como o Brasil pagava. "E nenhum país endividado foi saldo por reformas estruturais, mas pela queda da inflação e dos juros, que reduziram o custo da dívida e resolveram o problema", defende. "Todos resolveram o problema da dívida não pelo superávit primário, mas pelo lado financeiro", afirma, lembrando que a Itália tem uma dívida muito maior proporcionalmente que o Brasil, de 130% do PIB, e não quebra. "Com os juros perto de zero, não há limites para as dívidas, mas em algum momento essa conta vai chegar", alerta. "No caso do Brasil e de outros países, o juro baixo compra alguns anos de solvência para os governos terem tempo de fazer as reformas", explica.

A cigarra e a formiga

A questão, diz Abbud, é como os governos vão agir com esse tempo que estão comprando, se vão agir como a formiga, que se prepara para os tempos difíceis, ou como a cigarra. "O Brasil está mais para formiga, com o teto de gastos, a reforma da Previdência e os ajustes regulatórios, indo para o mesmo caminho de outros países que ajustaram suas contas ajudado pela queda da inflação e dos juros, que compram tempo", afirma.

O Draghi brasileiro

Já a retomada do crescimento do Brasil passa por um corte de juros até um patamar que seja expansionista, afirma Abbud. Foi o que aconteceu nos Estados Unidos e está acontecendo na Europa e no Japão, que jogaram suas taxas para perto de zero e ainda assim não estão crescendo. "Por isso, o Campos Neto deverá ter um papel parecido com o do Draghi (Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu que deixou as taxas de juros negativas e ainda promoveu programas de estímulos com a recompra de títulos de bancos) no processo de retomada da economia brasileira", acredita Abbud.

O receio do gestor é que o Banco Central comece de maneira muito tímida o novo ciclo de cortes de juros. "Hoje, o BC já fala que a taxa atual de 6,5% é estimulativa, mas não é", diz, acrescentando que "se estamos falando em um ciclo total de redução do juro de 1,5 a 2 pontos percentuais, não tem sentido começar o corte com 0,25 ponto" afirma Abbud. "Teria de começar já com 0,5 pelo menos, se não, vamos ter uma nova recessão", alerta. "Temo pelo hiperconservadorismo do BC.

Posições em NTN-B mais longa

Sobre a estratégia do fundo multimercado da casa, Abbud diz que a carteira ganhou muito dinheiro com a redução dos juros neste ano e deve continuar com essa aposta. "Migramos das NTN-B de médio prazo para as mais longas e com posições menores, e ganhamos também com o Ibovespa e com ações específicas de empresas, como Qualicorp (SA:QUAL3), que subiu 70% deste dezembro", explica.

Dólar não subiu muito e nem vai subir

Ao mesmo tempo, muitos gestores apostaram em uma alta do dólar que não veio. "Não houve recuperação do real e nem haverá, o dólar não volta para R$ 3,00 com o juro assim", diz Abbud. Mas o país vai continuar atraindo recursos externos, só que desta vez não para arbitragem de juros. "O dinheiro virá para projetos de infraestrutura, privatização, aberturas de capital na bolsa, não será mais carry trade", acredita.

Ganhos nas NTN-B longas e no mercado futuro

Entre os papéis do Tesouro, Abbud diz que gosta das NTN-B do Tesouro com vencimento em 2050, que hoje pagam 3,70% ao ano reais além do IPCA e podem chegar a 3%. Também no mercado futuro de DI, os juros para janeiro de 2023 caíram bastante, para 6,30%. "Mas se a Selic cair para 4,5% ao ano, essa taxa ainda tem um prêmio grande, mas é um cenário que vai depender do BC testar juros mais baixos para não ter a economia parada", afirma. "Temos uma inflação muito baixa, em torno de 3% no núcleo, e 12 milhões de desempregados, então acho que o BC não precisa ter medo em cortar a Selic", afirma

Bolsa tem tremendo upside

Já com relação às ações, Abbud acredita que a bolsa brasileira tem um "tremendo upside". "Não vemos crescimento no ano que vem como outras gestoras, achamos que vamos ter um desempenho do PIB fraco nos próximos três anos, mas mesmo assim estamos otimistas com empresas que se reinventaram ou se reestruturaram, reduziram pessoal, se desalavancaram reduzindo dívidas e o custo dos empréstimos", explica Abbud. "Essas empresas, mesmo com crescimento baixo da economia, vão ter um crescimento forte do lucro", acredita.

Ibovespa em 150 mil pontos em fevereiro

Outro motivo para a alta das ações é o efeito da queda dos juros nos preços dos papéis. Como as ações são avaliadas pelas projeções futuras de lucros trazidas a valor presente considerando os juros do período, uma taxa mais baixa faz com que o valor presente suba. "As ações da bolsa eram negociadas a um preço equivalente a 12 vezes o lucro com juros de 13%, 14% ao ano, então com um juro de 6% ou menos, esse múltiplo deveria ser de 14 ou 15 vezes o lucro", diz Abbud.

"Com o aumento da lucratividade das empresas e as margens crescendo, a bolsa pode subir 40%, 50% até fevereiro do ano que vem, levando o Índice Bovespa para 150 mil pontos", estima.

Entre as ações que a Persevera gosta estão as da Qualicorp, Duratex (SA:DTEX3), São Martinho (SA:SMTO3) e Unipar (SA:UNIP3). "É uma carteira mais balanceada, ainda temos bastante renda fixa, mas reduzimos e aumentamos a parcela em bolsa", explica Abbud.

Multimercados concentrados em juros e moedas

Marcos Yokota, também sócio da Persevera, destaca que o mercado de gestão brasileiro ainda tem de passar por uma série de mudanças. "Hoje temos acesso a todos os mercados do mundo, mas os grandes fundos brasileiros seguem concentrados em juros e moedas", explica. "E isso é um problema pois a tendência é que tanto o mercado de juros quando de câmbio não terão mais os movimentos fortes que tinham no passado, o que vai reduzir os ganhos desses gestores", afirma.

A tendência é que ou esses gestores sejam muito bons, para pegar pequenos movimentos de juros e câmbio, ou partam para diversificação em ações, commodities e opções. Enquanto isso, porém, os grandes gestores seguem aumentando as posições em renda fixa e câmbio para compensar as oscilações menores. "E quanto vem uma mudança de cenário, esses fundos são pegos em cheio e sofrem mais", diz Yokota. Por isso, a opção da Persevera é diversificar mais, com posições menores em vários mercados. "Queremos ir bem no cenário positivo, mas também não ir tão mal quando o cenário for negativo", diz Abbud.

Por Arena do Pavini