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Produtores plantam miniarroz, feijão e milho para projeto de Alex Atala

O miniarroz foi o primeiro produto lançado pelo projeto Retratos do Gosto - Divulgação
O miniarroz foi o primeiro produto lançado pelo projeto Retratos do Gosto Imagem: Divulgação

Priscila Tieppo

Do UOL, de São Paulo

18/07/2013 06h00

Tornar conhecidos os produtos cultivados por pequenos agricultores do país é o foco do Retratos do Gosto, projeto lançado no ano passado e fruto de uma parceria entre o chef Alex Atala e a empresa Mie Brasil, responsável por colocá-los no mercado.

O miniarroz, com seus grãos minúsculos, cultivado pelo produtor Francisco Ruzene, em Pindamonhanga (SP), foi o primeiro alimento lançado pelo projeto. Na sequência, chegou ao mercado uma série de granolas compostas por um cacau especial (pertencente a uma variedade amazônica rara, a Pará-Parazinho) de sabor cítrico.

"Existe um público disposto a pagar por esses alimentos", afirma Gustavo Succi, sócio da Mie Brasil, que investiu R$ 500 mil no projeto. Segundo ele, uma das condições para fazer parte do Retratos do Gosto é que os agricultores revertam 25% do lucro líquido das vendas para programas sociais ou de assistência técnica na região onde estão situados.

Desde maio, supermercados e empórios de São Paulo começaram a comercializar o feijão guandu, comum no passado e substituído pelo tipo carioquinha, que se tornou o mais consumido no Brasil.

O produtor Patrick Assumpção, fornecedor do feijão guandu, diz que não supunha que esses grãos cultivados em boa parte dos 100 hectares de sua propriedade, em Pindamonhangaba (SP), tivesse outra função que não apenas a de aumentar a fertilidade do solo.

Retratos do Gosto/Divulgação

Feijão guandu tem caldo ralo e é aromático

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Assumpção já conhecia o programa, e partiu dele a iniciativa de procurar por  Alex Atala. A intenção do produtor era fornecer uma mandioca de coloração amarelada –a tradicional é branca– mas a visita do chef de cozinha a sua propriedade mudou os planos iniciais.

"Atala veio aqui e se encantou pelo feijão guandu, que é fácil de cuidar. Não tem segredo, é só semear e a planta se desenvolve bem rápido", diz.

Os grãos vendidos em pacotes de meio quilo (por R$ 16) são cultivados, colhidos e beneficiados (retirados das vagens e secos) na  propriedade do agricultor. Assumpção calcula ter enviado cerca de 300 kg ao projeto.

Há dois meses, a Retratos do Gosto lançou também uma linha de produtos à base de milho (canjiquinha, fubá, biju crocante, entre outros) cultivados por produtores na região de Lindóia (SP).

O grão é beneficiado por uma tradicional fabricante de amido da cidade comandada por Flávio Bragatto, especialista em farinhas artesanais.

O desenvolvimento desses produtos contou com a participação da chef Heloísa Bacellar. Ela avalia que os produtos derivados de milho são subestimados pelo mercado e desconhecidos pelos consumidores.

“A vantagem desse milho colhido na região de Lindóia está na textura e no sabor", diz.

Para a chef, o grão proveniente de cultivos convencionais tem essa qualidade particular. "Os grãos transgênicos [tecnologia que utiliza o melhoramento genético para tornar a planta resistente a agrotóxicos e ao ataque de pragas] são moles e por isso rendem uma farinha de baixa qualidade", afirma.

Segundo estudo da consultoria Céleres, 65% dos plantios de milho no país são geneticamente modificados.

A gastronomia está mais perto da fazenda

O agricultor Francisco Ruzene, que lançou o primeiro produto do Retratos do Gosto, descobriu que pode tornar sua propriedade um polo de cultivos gastronômicos. A partir do miniarroz (uma variação natural do arroz cateto integral), Chicão, como é conhecido, cultiva oito tipos diferentes do cereal.

Ele relembra que o interesse por esses produtos especiais surgiu por conta do conselho de um pesquisador que o incentivou a procurar uma clientela diferente. Na época, o agricultor plantava o tradicional arroz tipo agulhinha.

"Vi em um mercado de São Paulo vários tipos de arroz importado e pensei: 'estou em uma região que planta o cereal, por que não investir?'", diz.

Chicão sabia do interesse do chef Alex Atala por produtos desconhecidos do grande público e deixou algumas amostras em seu restaurante com telefone de contato. Só não imaginava que ele estava à procura de um produto para estrear o projeto. "O Atala foi conhecer a propriedade e a partir daí nos tornamos parceiros", conta.

O agricultor montou um centro de pesquisa para testar mudas de cem variedades de arroz e conta com a ajuda da irmã, que é engenheira agrônoma. Ele investiu R$ 1 milhão na propriedade, fez parceria com oito produtores da região, mas não se deu por contente.

Chicão quer transformar Pindamonhangaba em um polo de arroz especial do país.

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