Ter inflação baixa demais ou preços caindo é bom para o país? Qual o ideal?

Téo Takar

Colaboração para o UOL, em São Paulo

A inflação no Brasil em 2017 foi de 2,95%, a menor dos últimos 20 anos e abaixo inclusive do limite mínimo da meta (3%) estabelecida pelo Banco Central.

O brasileiro já está acostumado a sentir o impacto no bolso quando inflação é alta. "Inflação alta corrói os salários e tira o poder de compra da população", afirma o economista Alvaro Bandeira, da plataforma de investimentos Modalmais.

Mas, ao contrário do que muita gente imagina, inflação muito baixa não é bom para o país. Veja as explicações dos economistas para entender por que toda economia precisa ter um nível mínimo de inflação, e qual seria esse nível, no caso do Brasil.

Inflação muito baixa desestimula o consumo

Quando a inflação é muito baixa, ou ocorre deflação (queda nos preços), as pessoas se sentem menos estimuladas a gastar, afirma o economista-chefe do banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves. "Parece estranho você falar isso, mas há um componente psicológico importante por trás da inflação." Para explicar seu raciocínio, Gonçalves cita um exemplo prático.

Imagine que você quer comprar uma geladeira nova, mas fica sabendo que vai ter a 'Black Friday' no mês que vem. Por que você vai comprar agora se pode esperar para comprar mais barato?

José Francisco de Lima Gonçalves, do banco Fator

Quando a inflação é muito baixa, os preços dos produtos não se mexem ou começam a cair. "Se você não tem necessidade de fazer a compra agora, você simplesmente adia, porque há uma expectativa de que os preços poderão cair mais lá na frente", diz o economista.

Sem consumo, indústria para de produzir e demite

O lado perverso da inflação muito baixa é a estagnação da economia.

Você não compra porque acha que o preço vai cair mais, a loja não vende, e o produto fica encalhado. Agora, imagine esse sentimento (de que os preços vão cair) por meses a fio. O produto encalha, a loja reduz ainda mais seu preço na tentativa de conseguir vender, e a indústria simplesmente para de produzir porque não há demanda.

José Francisco de Lima Gonçalves, do banco Fator

"Vai chegar um momento em que tanto a loja como a indústria serão forçadas a demitir funcionários." Diante do risco de perder o emprego, as pessoas tendem a continuar consumindo pouco, o que faz a economia entrar em um ciclo vicioso, explica o economista.

Inflação "ideal" para o Brasil oscila entre 3% e 4%

Os economistas são unânimes em afirmar que é necessário um nível mínimo de inflação para que a economia de qualquer país cresça de forma saudável. Mas essa taxa "ideal" não é necessariamente a mesma para todos os países. Algumas variáveis econômicas --como a taxa de câmbio, a taxa de juros, a produtividade dos trabalhadores, a dívida pública e a balança comercial-- interferem no comportamento dos preços.

A inflação ideal é aquela que a gente não percebe. É a taxa que não faz a pessoa mudar de ideia, adiando ou antecipando sua decisão de compra.

José Francisco de Lima Gonçalves, do banco Fator

O economista Alvaro Bandeira, da plataforma de investimentos Modalmais, afirma que, em países desenvolvidos, como os Estados Unidos e o Japão, o nível ideal de inflação gira em torno dos 2% ao ano. "É o nível que faz a economia girar e o país crescer. É uma inflação benigna."

No Brasil, porém, esse nível "benigno" tende a ser mais alto devido às taxas de juros elevadas. Enquanto o juro básico aqui está em 7% ao ano, nos Estados Unidos a taxa é de 1,5% ao ano.

Apesar de a taxa Selic ter recuado drasticamente nos últimos meses, Bandeira lembra que o espaço para o juro brasileiro continuar caindo hoje é limitado por causa do rombo nas contas públicas. O governo precisa emitir títulos com taxas de juros atraentes para investidores e, assim, conseguir tapar o rombo nas suas contas, como a da Previdência.

A economista Mirella  Hirakawa, do banco Santander, afirma que o Brasil finalmente alcançou o patamar de inflação ideal.

Quando olhamos para o IPCA de 2017 (de 2,95%), ele parece muito baixo se comparado ao nosso histórico de inflação. Basta lembrar de 2015, quando a taxa passou dos 10%. Mas, na verdade, agora chegamos a um nível de inflação de países semelhantes ao Brasil.

Mirella Hirakawa, do banco Santander

Segundo ela, países em desenvolvimento, como México, Colômbia e Chile, apresentam inflação em torno dos 3% ao ano. "A manutenção de uma inflação entre 3% e 4% ao ano daria ao Brasil uma dinâmica de crescimento confortável."

Inflação controlada favorece crescimento a longo prazo

Mirella  Hirakawa, do Santander, diz que a inflação sob controle e dentro de um patamar considerado "ideal" traz outro benefício importante para o país: a previsibilidade de longo prazo.

Se a inflação está sob controle e dentro da meta, as indústrias conseguem se planejar melhor a longo prazo. Há uma tranquilidade maior para se investir, o que acaba se traduzindo em um crescimento mais sustentável da economia.

Mirella Hirakawa, do banco Santander

Japão vive quadro oposto ao do Brasil

Enquanto o Brasil lutou nos últimos anos para evitar a hiperinflação, o Japão sofre exatamente do mal contrário: a ausência de inflação. A taxa acumulada em 2017 por lá deve ficar abaixo de 1%, mesmo após os esforços do Banco do Japão (BoJ, o banco central japonês) em estimular o consumo no país.

Uma das medidas polêmicas tomadas pelo BoJ em 2016 foi reduzir o juro básico ao extremo, ao ponto de chegar a uma taxa negativa, de 0,1% ao ano. Ou seja, em vez de receber rendimentos, os japoneses passaram a ser cobrados pelo dinheiro que está investido no banco. Ao tornar os juros negativos, a ideia do BC japonês é forçar as pessoas a tirar o dinheiro da poupança para consumir, fazendo a economia girar e sair da estagnação.

"A situação da economia do Japão é complexa, bem distinta da economia brasileira. Um dos graves problemas que eles enfrentam é demográfico", afirma Mirella Hirakawa. A população japonesa hoje é formada predominantemente por idosos, que possuem hábitos de consumo mais simples do que os jovens. Além disso, a população está encolhendo, já que muitos japoneses não têm filhos ou têm apenas um. Ou seja, há menos pessoas consumindo.

Além das questões internas, o Japão sofre também com fatores externos. "A China exerce hoje uma grande concorrência, especialmente no setor de tecnologia. Os chineses têm ocupado mercados que antes eram da indústria japonesa", afirma Gonçalves, do banco Fator.

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