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Como a Opep funciona e por que ela influencia preço da gasolina no Brasil?

Juliana Elias

Do UOL, em São Paulo

Em junho, os representantes da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) se reuniram em sua sede em Viena, na Áustria, e anunciaram ao resto do mundo que vão aumentar a sua produção de petróleo ao longo dos próximos meses.

Foi o primeiro aumento do grupo após um ano e meio de cortes. Desde janeiro de 2017, países da Opep vinham mantendo a produção abaixo da média com o objetivo de causar escassez e aumentar o preço. Conseguiram: desde então, o barril quase dobrou de preço. Saiu de US$ 46 no fim de 2016 para US$ 80 em maio passado, o maior pico em três anos.

O novo direcionamento deve dar um alívio no preço do óleo no mercado global e, por tabela, em todos os seus derivados, no mundo todo. Isso quer dizer que, se não vai baixar o preço da gasolina ou do diesel aqui no Brasil, a decisão da Opep ao menos colabora para que o preço dos nossos combustíveis não suba ainda mais.

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Mas por que as decisões de líderes do Oriente Médio afetam o que acontece em um posto de gasolina no Brasil?

"O preço dos combustíveis segue o preço internacional do petróleo, e a Opep ainda tem um poder enorme sobre o preço do petróleo no mundo", afirmou o economista Walter de Vitto, analista especializado em energia da Tendências Consultoria.

"Nenhum país é uma ilha. Ele pode até postergar ou amenizar os efeitos do que acontece no mercado internacional, mas imune ninguém fica", disse a consultora da FGV Energia Magda Chambriard, que também foi diretora da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) entre 2008 e 2016.

O UOL conversou com os dois especialistas para entender o tamanho da força que o cartel dos exportadores criado na década de 1960 ainda tem e como o que acontece lá fora influencia o combustível que consumimos aqui dentro, mesmo o Brasil não sendo um grande importador do produto.

Organização foi criada nos anos 60 por cinco países

A Organização dos Países Exportadores de Petróleo foi fundada em setembro de 1960 por cinco países (Arábia Saudita, Irã, Iraque, Kuait e Venezuela), em uma tentativa de fortalecer os produtores emergentes no momento em que muitos deles estavam ainda deixando de ser colônias e que o mercado mundial do combustível era comandado por companhias europeias e norte-americanas, como Esso, Chevron, Shell e BP. 

A ideia era assegurar "uma renda estável para os países produtores" e "o fornecimento eficiente, econômico e regular de petróleo a países consumidores", segundo o estatuto do grupo, feito em 1961.

Há em comum entre eles, ainda, o fato de serem grandes exportadores, ou seja, são nações pequenas com reservas gigantes e que, na prática, abastecem boa parte do resto do mundo. É muito diferente dos Estados Unidos, por exemplo, que, embora produzam mais petróleo do que qualquer um deles, consomem tudo sozinho e ainda precisam importar. 

Esses fatores ajudam a explicar por que os norte-americanos e outros grandes produtores como Rússia, Canadá ou mesmo o Brasil, que ainda é um exportador pequeno neste jogo, estão fora da organização. 

Os países hoje integrantes da Opep são:

  • Angola
  • Arábia Saudita
  • Argélia
  • Congo
  • Emirados Árabes Unidos
  • Equador
  • Guiné Equatorial
  • Gabão
  • Irã
  • Iraque
  • Kuait
  • Líbia
  • Nigéria
  • Qatar
  • Venezuela

Opep ainda é peça-chave no preço internacional do petróleo

Muita coisa mudou desde que a Opep fez ao mundo as primeiras demonstrações de seu poder com os choques do petróleo da década de 1970: em 1973 e em 1979, a organização embargou parte de sua produção, fez o preço do óleo disparar, acabou com uma era de combustível fóssil farto e barato e alastrou uma sucessão de crises energéticas e econômicas por todo o globo, incluindo o Brasil (o que estimulou a criação do programa Pró-Álcool). 

Desde então, outras nações despontaram como grandes produtoras, como a Noruega e mesmo o Brasil, e novas fontes de energia emergiram, mas o poder de barganha do bloco ainda é grande.

Cerca de um terço de toda a produção de petróleo cru (não refinado) mundial vem de algum de seus membros. Em volume de reservas, o poderio é ainda mais impressionante: seus integrantes estão sentados sobre petróleo suficiente para encher 1,2 trilhão de barris, 82% de todas as reservas mapeadas hoje no planeta.

Não é produto fácil de substituir

"Ter 30% de um mercado pode não parecer muito, mas, em uma indústria como a do petróleo, é uma dose cavalar", disse Vitto, da Tendências Consultoria. "Ele é um produto diferente de qualquer outro. Em uma indústria como a de carros, por exemplo, se alguém corta em 2% a produção, uma fábrica em outro país vai lá e produz mais. Com o petróleo, não é bem assim. Quando se tira 2% da oferta, não há o que colocar no lugar."

O preço do petróleo é livre. Dois de seus principais tipos, o Brent e o WTI, são comercializados nas Bolsas de Valores de Londres e Nova York, respectivamente, o que significa que variam conforme a procura: quando há produto sobrando, o valor cai; quando falta, sobe.

Resultado? Não é esse o único fator, mas cada pequena variação que um produtor do tamanho de um membro da Opep faz na extração de seus poços terá impacto no preço global.

E por que, então, esses países decidiriam conjuntamente por uma ação que vai fazer o preço cair, se eles poderiam simplesmente chutar o valor para cima e ficar encostados ganhando dinheiro? É estratégia pura, responde Vitto. "Se o petróleo fica muito caro por muito tempo, outras alternativas surgem, como de fato aconteceu com o gás, a energia eólica [vento] e a solar, e, no longo prazo, eles perdem o poder." 

Por que os preços internacionais influenciam aqui?

Isso explica por que a Opep influencia o preço internacional do petróleo. Mas por que o preço internacional do petróleo impacta dentro de um país?

Qualquer economia que precise de combustível –quer dizer, todas– vai sofrer em alguma medida com os altos e baixos do petróleo nas Bolsas.

Se o país não produz a matéria-prima e tem que importar, não há muito como fugir da tabela internacional. Se tem alguma reserva própria, o seu consumidor passa a concorrer com todo o resto do mundo: o que é produzido internamente pode sempre ser vendido fora pelo preço maior, e isso também acaba induzindo os preços domésticos a acompanhar a cotação internacional.

Se, ainda, tem reservas gigantes como os árabes ou a Venezuela, pode até ter a benesse de uma gasolina que custe centavos, mas terá boa parte do PIB, se não a economia inteira, dependente do óleo e, portanto, de quanto o mundo está disposto a pagar por ele.

Preços controlados internamente podem criar problemas

Subsídios estatais e nível de concorrência interna são fatores que entram na conta para fazer a moderação entre o preço que chega do exterior e o que é cobrado do lado de dentro.

"O preço interno pode até ser controlado, mas, se não acompanhar o externo, alguma distorção vai ser gerada em algum outro lugar", disse Vitto.

Essa distorção, disse ele, pode ser o caixa da empresa ou o orçamento do governo, que precisará subsidiar a diferença; pode ser o enfraquecimento de algum outro setor concorrente, como aconteceu no Brasil com os produtores de etanol quando o subsídio à gasolina subiu demais, ou pode, simplesmente, ser o incentivo à procura por um produto que, na verdade, está em falta.

"O preço sobe quando um produto é escasso. Vender barato é dar um sinal ao consumidor de que ele pode consumir um bem que, na realidade, não existe naquela proporção", disse o economista.

No Brasil, do subsídio pesado à flutuação total

O Brasil está no meio do caminho entre a autossuficiência e a dependência da oferta externa, o que significa que ainda tem de dançar um pouco conforme o ritmo internacional. "Somos um grande exportador de petróleo cru, mas importamos uma quantidade importante de derivados [como gasolina e diesel]", disse Magda, da FGV Energia.

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Atualmente, pouco menos de 20% dos combustíveis consumidos no Brasil são importados e, dos 80% refinados aqui, praticamente tudo vem da Petrobras.

Por muito tempo, a estatal exportou o petróleo que extraía no Brasil, que é mais pesado, e importou o de fora, mais leve, para usar na fabricação de seu combustível, o que significa barril a preços de Opep injetado diretamente na gasolina ou no diesel brasileiro.

Conforme as bacias do pré-sal, que têm o óleo mais leve, entram em operação, essa dependência vem diminuindo, mas ainda existe: em 2017, a Petrobras exportou 669 mil barris diários de petróleo e derivados e importou, na outra ponta, 308 mil. Em 2015, as importações diárias somavam, em média, 483 mil barris.

Não dá para descolar o preço interno do de fora? Dá. É o que foi feito durante boa parte do primeiro mandato de Dilma Rousseff (2011-2014), quando os preços dos combustíveis nas refinarias da Petrobras chegaram a ficar congelados mesmo com o valor do petróleo subindo no resto do mundo. Na prática, a empresa vendia gasolina a um preço abaixo daquele que pagava, e a política foi uma das grandes responsáveis pelos quatro anos seguidos de prejuízo que registrou até 2017.

Em 2016, já sob as novas equipes do governo Michel Temer, migrou-se para o extremo oposto. Desde então, a petroleira pratica uma política de preços totalmente livres que flutuam de acordo com as cotações do petróleo e do dólar. 

"É a lógica que qualquer empresa que maximize os lucros seguiria", disse Vitto, da Tendências. "Não faz sentido econômico cobrar menos aqui por um produto que pode ser vendido por mais em qualquer lugar do mundo."

"O papel de uma empresa é zelar por seus acionistas", disse Magda, que comandou a ANP durante os governos Lula e Dilma Rousseff. "O consumidor não pode ficar exposto aos sobressaltos de fora, mas esse é um papel do Estado, que pode amortecer as oscilações muito fortes", afirmou a pesquisadora, mencionando mecanismos usados em outros países como isenção de impostos ou fundos de reserva que são acionados quando os preços de mercado sobem demais.

Basta cavar para achar petróleo?

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