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Almoço em outro estado e gastos altos: como é a vida de quem voa por hobby

O juiz Ricardo de Oliveira, do TJ-MG, voa todo final de semana --e um pouco mais durante as férias - Arquivo pessoal
O juiz Ricardo de Oliveira, do TJ-MG, voa todo final de semana --e um pouco mais durante as férias Imagem: Arquivo pessoal

Lucas Borges Teixeira

Colaboração para o UOL, em São Paulo

22/09/2019 04h00

Resumo da notícia

  • De magistrados a empresários, brasileiros de diferentes regiões têm a aviação como hobby
  • Eles costumam voar para almoçar em outro estado ou para curtir a praia
  • Viagens de 1h30 podem custar de R$ 600 a R$ 1.800, ou mais
  • Custos dependem do modelo do avião e da distância do percurso
  • Além disso, gastos gerais também englobam formação obrigatória em cursos teóricos e práticos

Acordar em São Paulo, almoçar em Ubatuba (SP) e dormir em um sítio no interior de Minas Gerais. Tudo no mesmo dia, em pequenos trajetos de uma hora. Este é o momento de lazer de um grupo de brasileiros que têm como hobby a aviação.

Juízes estaduais, advogados, empresários, homens e mulheres com diferentes profissões e estilos de vida e de diversas regiões do país dedicam parte dos seus salários e quase todo o tempo livre a este passatempo atípico e relativamente custoso. O UOL ouviu algumas destas histórias. Confira mais abaixo.

Pegar praia em Ubatuba, encontrar amigos no ar

Diretor de Tecnologia da Informação em uma empresa em São Paulo, Eduardo Bregaita sempre gostou de voar. Seu sonho inicial era a aviação militar, para pilotar caças e aviões mais potentes. Um problema na vista, no entanto, impediu precocemente sua carreira na Aeronáutica.

"Decidi que seria por paixão", disse. Ele fez curso de instrutor de voo e tirou a licença para voo comercial em fevereiro de 2013. Desde então, voa por diversão.

Eduardo Bregaita sonhava com a aviação militar, mas não seguiu a carreira por um problema na vista - Arquivo pessoal
Eduardo Bregaita sonhava com a aviação militar, mas não seguiu a carreira por um problema na vista
Imagem: Arquivo pessoal

"Quero pegar uma praia em Ubatuba ou almoçar no interior e voltar? Pego o avião." Suas viagens duram entre uma e duas horas, geralmente. O lugar mais longe aonde já voou, segundo ele, é Regente Feijó, a 546 km de São Paulo, em um voo de pouco mais de três horas.

Às vezes, ele vai sozinho. Às vezes, leva a namorada ou combina com os amigos. "Tenho diversos amigos pilotos. É normal irmos juntos, no mesmo avião, e racharmos o pé: um faz a ida e o outro, a volta. Também é legal quando cada um vai em um avião. A gente traça o trajeto juntos e, quando você vê, encontra seu amigo no ar."

Ele diz que é preciso tomar alguns cuidados básicos, como ser organizado, estar descansado e evitar voar doente. "Eu não bebo, mas não é recomendável que você ingira álcool no dia anterior, por exemplo. Também é preciso traçar sua rota direitinho, para evitar qualquer tipo de dor de cabeça no ar."

Não é um passatempo barato, mas cabe no orçamento: Bregaita calcula que gaste, em média, R$ 600 por voo se estiver sozinho. Ele voa cerca de duas vezes por mês, mas passa todos os finais de semana no Aeroclube de São Paulo, no aeroporto Campo de Marte, na zona norte da capital paulista, onde tem o cargo de diretor social.

Conhecer novos estados

O juiz Ricardo Sávio de Oliveira, 58, do TJ-MG (Tribunal de Justiça de Minas Gerais), gosta de ir um pouquinho mais longe. Sediado no Aeroclube de Pará de Minas, a cerca de 80 km de Belo Horizonte, o magistrado curte conhecer novos estados.

"Gosto de ir ao litoral de São Paulo e do Espírito Santo e também ao interior de Goiás. Por vezes, já fui à Bahia. Mas o mais longe foi o Mato Grosso."

Ele conta que já passou por alguns perrengues. Uma vez teve que fazer um "pouso de emergência" quando voltava de Caldas Novas (GO), porque um amigo teve um problema intestinal. "[Parei] na pista mais próxima. Chegando lá, não havia estrutura no local, o que obrigou o passageiro a se refugiar no mato...", disse, bem-humorado.

Com outros pilotos na família, o magistrado começou a voar em 2012. "Sempre me chamou a atenção. Hoje, voo todo final de semana —e um pouco mais durante as férias", afirmou. Todo este empenho, claro, tem um custo: cerca de R$ 2.000 mensais dedicados ao hobby.

Contraiu o "aerococcus"

Os altos custos também foram um dos motivos de o diretor de TI Ricardo Lanel, 44, diminuir seu ritmo de voos. Com licença para voar desde 1994, logo após se formar na faculdade, o paulista brinca ter contraído o "aerococcus", suposta bactéria que faz uma pessoa se apaixonar por aviação, ainda criança.

"Durante minha infância, fazia meu pai me levar ao aeroporto de Congonhas para ver aviões", disse. Anos depois, pilotando, conheceu os estados de São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Rio de Janeiro.

Em uma dessas viagens, lembra que chegou a São Paulo do interior, pouco depois do pôr do sol, visto no ar. Na época, no entanto, o Campo de Marte não tinha iluminação noturna e já estava fechado. Ele foi reconduzido ao aeroporto de Congonhas, na zona sul da capital paulista, em uma situação atípica para quem voa por hobby. "Esse foi um dos pousos mais emocionantes da minha vida, com direito a um Boeing 737 pousando na pista paralela logo após o nosso."

Esta frequência, no entanto, tem diminuído nos últimos anos. "Tenho voado muito pouco", afirmou. "Poucas vezes no ano, por questões de prioridades do trabalho e financeiras. Um passeio gira em torno de R$ 700 e R$ 1.800."

Voa de 4 a 8 vezes por mês, por prazer

O advogado e empresário Arnaldo César Barbosa, 33, do Aeroclube de Pará de Minas (MG), também diz fazer um investimento mensal significativo para manter o passatempo. Sem revelar exatamente quanto gasta, disse que o valor depende do tempo e das horas voadas, e engloba combustível, manutenção e reposição de peças da aeronave. Mas diz valer a pena.

O advogado e empresário Arnaldo Barbosa começou a se envolver com a aviação em 1995, aos 9 anos - Arquivo pessoal
O advogado e empresário Arnaldo Barbosa começou a se envolver com a aviação em 1995, aos 9 anos
Imagem: Arquivo pessoal

Ele começou a se envolver com a aviação em 1995, aos 9 anos. "Já estava no sangue: foi despertada e fomentada pelo meu pai, que sempre me levava ao aeroporto aos finais de semana", afirmou. "Comecei e aprendi a pilotar planadores [aeronave sem motor] e, depois, passei a pilotar aviões, sempre por hobby e pelo prazer de voar."

Atualmente ele voa sempre que tem um tempinho livre, em uma média de quatro a oito vezes por mês. "Gosto de ir ao lago de Furnas, local maravilhoso, com muitas opções de pistas de pouso. Caldas Novas, em Goiás, também é um excelente lugar de se ir voando", declarou. A viagem mais distante que já fez foi até Bonito (MS): 4 horas e meia de voo, com uma parada para abastecimento.

Paixão antiga

O empresário Narciso Gouveia, 57, também diz ter a aviação como uma paixão antiga. "Desde jovem, eu gostava de aviões e fazia visitas a aeroclubes, principalmente ao de São Paulo. O gosto só aumentando... Com a situação financeira mais estável, comecei os cursos teóricos e práticos."

O empresário Narciso Gouveia (à direita, de azul) voa com amigos - Arquivo pessoal
O empresário Narciso Gouveia (à direita, de azul) voa com amigos
Imagem: Arquivo pessoal

Pery, como se apresenta —"Todo piloto tem um nome similar ao nome de guerra militar"—, tem sua licença desde 2010, mas, por motivos de trabalho, diz não voar mais. "Antes voava duas vezes por mês, em média, com duração de 1 hora e meia por voo", afirmou. O principal destino era o interior de São Paulo e de Minas Gerais, com gasto mensal em torno de R$ 1.500.

Custo é o principal desafio desse hobby

Voar não é uma atividade barata. "O maior desafio de voar está no custo da aviação, o que faz que fiquemos restritos a uma aviação leve, utilizamos aeronaves mais baratas e lentas", declarou Oliveira.

Os gastos são diversos: aluguel do avião, combustível, taxas de voo (repassadas às pistas usadas e às torres de controle), além de eventuais multas aplicadas pela Anac (Agência Nacional de Aviação Civil). Fora o valor dos cursos obrigatórios de formação, que podem ultrapassar R$ 20 mil.

Os pilotos ouvidos pelo UOL estimam gastar entre R$ 600 e R$ 2.000 por mês para sustentar o hobby. O valor depende, por exemplo, do tipo de avião alugado e da distância percorrida, pois o combustível é o custo mais alto.

Fora os milhares de reais para se tornar piloto. "O curso teórico custa, em média, R$ 2.000. Depois, vem o curso prático, com média de R$ 550 por hora de voo. São necessárias 35 a 40 horas para obtenção do brevê [licença de voo] para piloto privado. Há também a obtenção do CMA [Certificado Médico Aeronáutico], por R$ 400", disse Gouveia. É preciso somar também taxas da Anac e uma provável associação a um aeroclube.

Os pilotos reclamam do atraso do Brasil na área de aviação civil. "Os desafios são vários: falta de estrutura de alguns aeroportos, o alto custo do combustível, a dificuldade de se conseguir importar peças de manutenção, entre outros", declarou Barbosa.

Se quiser ter o próprio avião, os custos são ainda mais altos. "Eu não sei como é em todo o país, mas o hangar para deixar uma aeronave estacionada aqui em São Paulo é caríssimo, por volta dos R$ 3.000 por mês", afirmou Bregaita. Além disso, há custo de manutenção, troca de peças, que muitas vezes têm de vir de fora, e encargos fiscais pela propriedade do avião.

Piloto e copiloto nunca comem a mesma refeição

UOL Notícias
Errata: o texto foi atualizado
Uma versão anterior deste texto informava incorretamente, no 13º parágrafo, que o "aerococcus" é um suposto vírus que gera paixão por aviação. Na verdade, é uma suposta bactéria. A informação foi corrigida.

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