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Mais competição ajuda brasileiro a fugir dos juros do cheque e do cartão

João José Oliveira

UOL, em São Paulo

02/11/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Com maior oferta de crédito por bancos digitais e fintechs, cai a participação do cheque e do cartão nos financiamentos totais no país
  • Juros do cheque especial e do cartão seguem elevados apesar da redução de outras taxas de empréstimo
  • Consumidor deve continuar atento às opções de financiamento e fugir dos juros do cheque especial de do rotativo do cartão de crédito

O surgimento nos últimos anos de bancos digitais e fintechs aumentou a competição no mercado bancário do Brasil e está ampliando as opções de crédito. Isso ajuda o brasileiro a escapar da armadilha do cheque especial e do rotativo do cartão, que cobram taxas três vezes maiores que a média dos juros pagos pelas pessoas físicas no país.

Em agosto de 2016, a participação do cheque especial e do rotativo do cartão de crédito no total dos empréstimos tomados por pessoas físicas no país era de 8%. Agora, essas duas modalidades de crédito representam menos, cerca de 6%.

Mais formas de crédito

"O que aconteceu é que há mais formas de crédito para as pessoas, e isso está diminuindo a participação do cheque especial e do cartão de crédito no total dos financiamentos aos consumidores", disse a economista-chefe do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC), Marcela Kawauti.

A soma do valor absoluto de crédito no cheque especial e no rotativo do cartão ficou praticamente estável: era de R$ 64 bilhões em agosto de 2016, e passou a R$ 65 bilhões em agosto de 2019.

O que mudou foi o percentual: o total de empréstimos tomados pelas pessoas físicas cresceu bastante, indo de R$ 803 bilhões para R$ 1,04 trilhão no mesmo período, segundo o Banco Central. Isso fez a participação percentual do cheque e do rotativo diminuir.

Democratização do crédito

"A concorrência é um dos principais fatores que vão levar a uma queda dos juros. O acesso à tecnologia está ajudando a democratizar o crédito", afirmou o presidente da Associação Brasileira do Crédito Digital (ABCD), Rafael Pereira.

Segundo a entidade, apenas em 2018, as fintechs receberam mais de 6,4 milhões de pedidos de crédito de pessoas físicas —quase o dobro do ano anterior. Com isso, o total de crédito concedido aumentou 49% e atingiu R$ 1,2 bilhão. "Essa tendência está apenas começando e vai acelerar em 2020", disse.

Os especialistas destacam que a maior oferta de crédito por parte dos bancos digitais e fintechs também está relacionada à queda dos juros no país. Desde 2016, a taxa básica de juros caiu de 14,25% para 5% ao ano.

Isso repercutiu nas taxas de outras modalidades de crédito, mas em menor ritmo. A taxa média de juros cobrada das pessoas físicas (todas as modalidades, como consignado e do rotativo do cartão) recuou de 155,5% para 115,6%.

Juros podem cair mais

"Os juros cobrados das pessoas físicas podem cair mais", declara o economista Roberto Troster, ex-economista-chefe da Febraban, hoje sócio da consultoria Troster & Associados.

Para ele, três fatores podem trabalhar a favor de uma queda mais acentuada dos juros para os consumidores: menor tributação, liberação de recursos que os bancos são obrigados a deixar parados no Banco Central, os chamados compulsórios, e maior transparência nos contratos de empréstimo.

"Um exemplo é o tratamento dado ao Imposto sobre Operações Financeiras, o IOF. Ele é contabilizado como se não fizesse parte da operação que o originou", disse.

Por tudo isso, os consumidores devem mesmo ficar atentos às alternativas de crédito mais interessantes. Até porque os juros no cheque especial e no cartão de crédito continuam muito elevados e pouco mudaram nos últimos dois anos.

Juros de cheque e cartão são de mais de 300%

No cheque especial, a taxa anual média passou de 321,1% para 307%, enquanto no rotativo do cartão de crédito os juros cederam mais, de 475% para 307%, mas ainda muito acima de outras opções, como o empréstimo pessoal, que está em 52% ao ano.

A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) disse que o cheque especial tem taxas mais altas que as demais linhas de crédito por causa de suas características: é pré-aprovado (sempre disponível e de uso imediato), sem necessidade de apresentação de garantias por parte dos clientes e tem índices elevados de inadimplência — de 14,7% em média, ante .2,2% no crédito consignado por exemplo.

A Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs) não comentou.

Dicas para fugir da armadilha

"Essas taxas são sempre mais elevadas porque são para um tipo de empréstimo emergencial", afirmou a economista-chefe do SPC, Marcela Kawauti. Por isso, o melhor é sempre evitar essas modalidades.

Para quem já está sufocado nesse tipo de empréstimo, a dica é tentar redirecionar os gastos para pagar essa dívida e, se não der certo, renegociar com o banco ou pegar empréstimo em outra instituição financeira.

"Sempre prestando atenção no tamanho da parcela e da soma das parcelas. Às vezes, no afã de resolver, o consumidor acaba aceitando uma parcela mensal mais baixa, mas com muitas parcelas que acabam tornando a dívida mais cara", afirmou Marcela Kawauti.

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