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Mães com direito a R$ 1.200 estão pedindo R$ 600 por erro no CPF de filhos

A cerimonialista Priscilla Nunes preferiu pedir o auxílio sem incluir os filhos para tentar ganhar ao menos R$ 600 - Arquivo pessoal
A cerimonialista Priscilla Nunes preferiu pedir o auxílio sem incluir os filhos para tentar ganhar ao menos R$ 600 Imagem: Arquivo pessoal

Thâmara Kaoru

Do UOL, em São Paulo

30/04/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Mães que tentam fazer novo cadastro, por erro ou falta de dados, recebem mensagem de que CPFs de filhos estão vinculados a outra família
  • Mulheres chefes de família têm direito a receber uma cota dupla do auxílio emergencial, no valor de R$ 1.200
  • Porém, algumas decidiram pedir o auxílio sem incluir os filhos na tentativa de receber ao menos R$ 600
  • Outras preencheram o novo cadastro com os dados de apenas um dos filhos, e não sabem se haverá erro novamente

Algumas mães que erraram o primeiro cadastro do auxílio emergencial do governo e tentam fazer novas solicitações do benefício estão recebendo uma mensagem de erro, dizendo que os CPFs dos filhos já estão vinculados a uma outra família. As chefes de família têm direito a uma cota dupla do auxílio, ou seja, R$ 1.200. Porém, parte delas está até desistindo de incluir os filhos no cadastro na tentativa de receber ao menos R$ 600.

O UOL ouviu cinco mulheres que tiveram problemas com os CPFs dos filhos após o primeiro cadastro. Duas fizeram o pedido sem dizer que eram chefes de família para ter os R$ 600. Em outros dois casos, para ter o pedido analisado, enviaram um novo cadastro, incluindo apenas um dos filhos, e sem a certeza de que vão receber. Outra mãe diz que fez o pedido, mas não consegue acompanhar a solicitação, e não sabe se precisa fazer novo cadastro.

Mães com direito a R$ 1.200 tentam receber R$ 600

A vendedora de marmitas Madalena de Carvalho Emídio, 34 anos, mora em Porto Velho, Rondônia, com a filha de 16 anos e diz que fez o cadastro no primeiro dia, em 7 de abril. "Como ainda não tínhamos muita informação e fiz o cadastro na ansiedade, coloquei que era chefe de família, mas não informei o CPF da minha filha."

Ela só recebeu a resposta no dia 23 de abril, com a mensagem de que os dados informados eram inconclusivos. Fez novamente o cadastro, informando o CPF da filha e assinalando que era chefe de família. De novo, recebeu a mensagem de que os dados eram inconclusivos. No dia seguinte, tentou um terceiro cadastro e viu que o CPF da filha estava vinculado a outro cadastro.

"Decidi fazer o cadastro só com meu CPF. Não tinha opção. Não coloquei que era chefe de família para receber só R$ 600. É complicado. Antes não ter esse dinheiro para contar do que ter e passar por toda essa situação."

A cerimonialista Priscilla Gamero Nunes, 43 anos, mora em Guaxupé, Minas Gerais, com os dois filhos, um de 16 anos e outro de cinco. Fez o cadastro no dia 8 deste mês e esqueceu de colocar o CPF dos filhos. No dia 23 recebeu a mensagem de que seus dados estavam inconclusivos. Fez o pedido novamente e ligou para o telefone 111 para acompanhar sua solicitação.

Ouviu a mensagem de que não atendia as exigências para receber o auxílio. Decidiu se recadastrar e foi informada que o CPF do filho já estava vinculado a outro cadastro.

"Agora tentei fazer um cadastro como solteira, sem informar os dados dos meus filhos, para saber se não querem pagar as mães solo. Consegui concluir, e está em análise. Se conseguisse os R$ 600, daria uma aliviada. Estava contando que ia dar certo receber esse auxílio."

Mães informam CPF de apenas um filho

Mariana Lima, 32 anos, vendia roupas pela internet antes da pandemia. Ela mora com as duas filhas, uma de dois anos e outra de nove. Deu entrada no pedido do auxílio emergencial em 7 de abril. No dia 23 recebeu a mensagem de que seus dados eram inconclusivos. Ela diz que não incluiu os CPFs das filhas na primeira solicitação, pois a Caixa não deixava claro a obrigatoriedade dessa informação.

Só depois do envio, vendo alguns relatos, percebeu que isso poderia fazer com que o cadastro dela voltasse. Ela lembrou que na certidão de nascimento da caçula já constava um número de CPF e tirou o documento para a filha mais velha. Quando foi fazer o cadastro pela segunda vez, colocou apenas o CPF da filha mais nova, já que ao tentar incluir os dados da mais velha recebia a mensagem de que o CPF ainda não estava habilitado.

No dia seguinte, recebeu novamente a mensagem de que os dados estavam inconclusivos. Ao tentar pela terceira vez, viu que o CPF da filha mais nova estava vinculado a outro cadastro. Nesta semana decidiu fazer o cadastro novamente, informando agora só os dados da filha mais velha. O pedido está "em análise". Ela não sabe se terá o benefício aprovado.

"Parece que estão forçando a gente a se cadastrar sem marcar a opção chefe de família para perder o direito aos R$ 1.200. Se tentar se cadastrar sem marcar que é chefe de família, o sistema libera e vai para análise. No desespero, muitas mães acabaram se cadastrando sem os filhos, perdendo o direito que a lei dá. Se temos direito, tem que ser o valor total", diz Mariana, que criou um grupo de WhatsApp com mães que estão em situação semelhante a dela.

Viviane - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Viviane Correia da Silva não sabe qual foi o erro do primeiro cadastro
Imagem: Arquivo pessoal
Viviane Correia da Silva, 41 anos, que mora em Petrópolis, no Rio de Janeiro, também passou por uma situação parecida. Ela fez o pedido do auxílio em 7 de abril e incluiu as informações dos dois filhos. No dia 22, viu a resposta de que os dados informados eram inconclusivos.

Ela afirma que conferiu os dados e não consegue entender o motivo de não ter o cadastro aprovado na primeira solicitação.

"No dia 23, quando fui tentar fazer a solicitação pela segunda vez, apareceu a mensagem de que os CPFs dos meus filhos já estão cadastrados em outra composição familiar. Ninguém tem acesso aos documentos dos meus filhos."

Ontem (29), ela tentou fazer o cadastro pelo site da Caixa, e conseguiu incluir o CPF de um filho. Já os dados da filha ainda apareciam vinculados a outro cadastro. Decidiu finalizar o pedido mesmo assim e, agora, está "em análise".

Manicure não consegue acompanhar pedido

Regiane  - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Regiane Barbosa de Freitas não sabe se precisa fazer outro cadastro
Imagem: Arquivo pessoal
A manicure Regiane Barbosa de Freitas, 30 anos, mora com os três filhos em Teófilo Otoni, Minas Gerais. Ela fez o cadastro no dia 7 deste mês, recebeu a resposta de dados inconclusivos no dia 23 e refez o cadastro. O erro do primeiro pedido foi não ter colocado os CPFs dos filhos. "Eu achei que não era obrigatório."

No dia 24, ao acompanhar o andamento do pedido, viu que não havia solicitação para o CPF dela. Decidiu tentar fazer o cadastro pela terceira vez, mas recebeu a mensagem de que os filhos já estão cadastrados.

"Fiquei sem saber o que fazer. Não só eu. Várias mães estão com esse problema. Como os dados deles estão em outra família se quem cadastrou fui eu, e ninguém tem acesso aos documentos deles? Agora, se você vai tentar cadastrar sozinha, aí consegue. Acho que é erro do aplicativo. Eu vou esperar para ter uma posição do que fazer. É uma situação constrangedora. A gente nem dorme mais."

O que dizem a Caixa e a Dataprev

Em nota, a Caixa informou que o aplicativo e site do auxílio emergencial são atualizados periodicamente.

"Dentre as últimas implantações efetuadas, informamos que para os casos em que houve mais de uma solicitação do auxílio emergencial do governo federal por grupo familiar e que a resposta da Dataprev foi 'dados inconclusivos', houve um ajuste para permitir que os trabalhadores realizem um novo cadastramento sem o bloqueio com a mensagem 'CPF já cadastrado' ou 'CPF vinculado a uma composição familiar', possibilitando ao cidadão corrigir os dados anteriormente informados e finalizar uma nova solicitação."

A Dataprev informou que trabalha no processamento das informações e que a homologação dos dados é realizada em conjunto com o Ministério da Cidadania. "Já a Caixa efetua o pagamento e desenvolve e mantém o aplicativo e o portal que informa o resultado do processamento realizado pela Dataprev e homologado pelo Ministério da Cidadania."