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Mesmo com queda da Selic, bancos sobem juros para empresas, diz estudo

Lucas Borges Teixeira

Colaboração para o UOL, em São Paulo

17/06/2020 04h00

Um estudo revela que bancos têm aumentado algumas taxas de juros nas linhas de crédito mais populares para empresas durante a pandemia, mesmo com queda de 29% da Selic no mesmo período. Divulgado por um marketplace de crédito, a pesquisa mostra que, em alguns casos, a alta chega a 44% entre o meio de março e o fim de maio.

No geral, o estudo, realizado pela startup Capital Empreendedor com base em dados do Banco Central, indica que as principais linhas de crédito para pessoas jurídicas caíram, mas, em determinadas taxas, as instituições têm ido na contramão e aumentado os juros. O Banco do Brasil, por exemplo, só acompanhou a queda da Selic em dois casos.

Para Juliano Graff, coordenador do estudo, este aumento impacta mais no pequeno empreendedor. Os bancos, por sua vez, negam que as taxas para micro e pequenos negócios tenham aumentado e dizem que o período avaliado é muito curto.

Aumento pode chegar a 44%

A pesquisa avaliou as seis principais linhas de crédito concedidas a pessoas jurídicas pelos cinco maiores bancos (Banco do Brasil, Bradesco, Caixa, Itaú e Santander). Os dados são de 10 de março, véspera da declaração de pandemia pela OMS (Organização Mundial da Saúde), a 20 de maio.

Neste período, o Copom (Comitê de Política Monetária) baixou a taxa Selic em 29%, de 4,25% para 3% ao ano. Nos bancos, algumas linhas de empréstimos ficaram mais caras, em vez de cair. Outras foram reduzidas. Veja a seguir as taxas mensais:

Antecipação de recebíveis de cartão de crédito: teve uma redução média de 20%. Só o Banco do Brasil aumentou, de 0,54% para 0,78% por mês (alta de 44%).

Capital de giro com prazo de até 365 dias: teve uma redução média de 43%. Mais uma vez, só o Banco do Brasil aumentou, de 0,85% para 0,88% (+4%).

Capital de giro com prazo superior a 365 dias: teve uma redução média de 15%. Só o Bradesco aumentou, de 1,52% para 1,6% (+5%).

Cheque especial: teve uma redução média de 2%. Só o Itaú aumentou, de 13,29% para 13,58% (+2%). O Banco do Brasil indicou diminuição inferior a 1%.

Conta garantida: teve uma redução média de 11%. Só o Banco do Brasil aumentou, de 2,29% para 2,44% (+7%).

Desconto de duplicatas: única linha em que todos reduziram, com redução média de 24%.

Pequeno empreendedor sofre mais

O estudo abrange os empréstimos feitos a pessoas jurídicas no período, sem discriminar o tamanho das empresas. Juliano Graff, cofundador da Capital Empreendedor e coordenador do estudo, avalia que o impacto é maior para o pequeno empreendedor.

"[O problema] não é nem acompanharem a Selic. Os bancos nunca acompanham a Selic. [Mas] quando o mercado de crédito sofre um choque como ele sofreu [por causa da pandemia], os pequenos são os que mais vão sentir", afirma Graff.

O motivo, segundo ele, é simples: o pequeno empreendedor não tem muito fôlego para sobreviver com a renda parcial ou totalmente comprometida. Com o aumento das taxas nas principais linhas de crédito, a situação fica ainda mais complicada.

Demora fez muita gente quebrar

"Se pensar que a pandemia foi anunciada em 10 de março e os bancos e o governo federal demoraram para tomar uma atitude mais eficaz, estamos falando de 90 dias [de renda comprometida]. Aí muita gente já quebrou e muitas, se não quebraram, estão perto porque não vão conseguir manter o fluxo corrente", avalia Graff.

Segundo ele, mesmo com uma nova queda da Selic, como é esperado, a tendência é que não seja repassada aos juros dos bancos "na mesma velocidade".

Juros sobem por causa do risco de calote, diz analista

Michael Viriato, professor de Finanças do Insper-SP, vê com naturalidade o aumento dos juros em linhas de créditos durante a crise. Ele dá duas razões: a Selic não é a única taxa a ser analisada para definir os preços e, com aumento de risco de calote, os juros tendem a subir.

"A taxa Selic é só uma das taxas a serem avaliadas para a curva de juros. Há outras que envolvem cálculos de seis meses, um ano, dois anos, assim por diante. Um banco, quando vai emprestar dinheiro, leva em consideração esta flutuação, não apenas a Selic", afirma o professor.

Além disso, para ele, faz sentido que os bancos, em período de incerteza econômica aumentem um pouco as taxas, pois o risco de inadimplência cresce e, caso uma parte não pague, haverá prejuízo.

Banco tem de lucrar

"O risco está maior. Se você é empresário, sua renda está em zero, às vezes não consegue quitar. Tem de lembrar que o banco é uma empresa, tem de ganhar dinheiro, prestar contas para os acionistas dele. Ao emprestar dinheiro com possibilidade de não pagamento, o prêmio também deve ser maior", avalia Viriato.

Ele exemplifica. "Dez empresas pegam R$ 100 sob a taxa imaginária de 10% ao ano. Se, ao final do ano, só uma não conseguir pagar e as outras nove, sim, o banco ainda fica no prejuízo, pois terá de volta apenas R$ 990. Mas, com o risco alto, aumenta a chance de duas ou três não pagarem. Aí complica."

Bancos negam aumento para pequenos

Ao UOL, parte dos bancos negou que tenha feito o aumento das taxas de juros para micro e pequenos empreendedores e dizem estar acompanhando os números do mercado e da concorrência.

Segundo as instituições, o período abordado é curto, e as taxas podem sofrer variações de acordo com o perfil dos clientes. Veja a resposta de cada um:

Banco do Brasil

O banco afirmou que "monitora constantemente as taxas de juros dos produtos de crédito para as pessoas físicas e jurídicas" e que, para estabelecer sua política de preços, leva em consideração "fundamentos do mercado e da concorrência".

"Vale destacar que as informações disponibilizadas pela autoridade monetária [BC] são consolidadas em grupos de produtos, e a sua intensidade de uso, bem como prazos, condições e relacionamento do cliente, modificam os patamares de preços médios, mesmo que o banco não tenha alterado os patamares de taxas de juros - o que tem sido a medida adotada pelo Banco do Brasil nesse período", declarou.

Ainda segundo o banco, a última queda da Selic foi repassada "integralmente" a "diversas modalidades".

Bradesco

Negou ter feito o aumento em suas taxas e disse que não mudou sua política de crédito em nenhuma de suas linhas.

"Podem ocorrer, eventualmente, variações pontuais nas taxas conforme garantias, prazos e perfil de risco do cliente", informou.

Caixa Econômica

O banco estatal oferece quatro das seis linhas avaliadas. Todas caíram no período. "A Caixa, sensível ao momento que afeta empresas de diversos setores, disponibilizou condições diferenciadas e taxas reduzidas para atendimento às necessidades de crédito das micro e pequenas empresas", declarou.

Itaú

Negou que tenha aumentado juros para pessoas físicas, micro, pequenas e médias empresas desde o início da pandemia. O banco diz estar oferecendo "condições inéditas de alongamento de prazos, carências e renegociações para seus clientes".

"Em relação especificamente à taxa de juros do cheque especial, houve queda entre os meses de março e maio. A comparação de taxas em um período tão curto como o desta reportagem pode induzir a conclusões equivocadas", declarou a instituição.

Santander

O Santander foi o único a baixar todas as taxas no período estimado. Ainda assim, em parte delas, o banco estava tão acima dos demais que se manteve entre os dois ou três mais altos. O banco argumentou que é seu papel "acompanhar os movimentos de mercado e entender o momento do cliente para oferecer as melhores soluções e condições".

"Principalmente nesse período de crise, o banco tem centralizado esforços em apoiar seus clientes empresariais, tanto na digitalização de processos quanto em iniciativas isentas de ônus e que minimizem o impacto negativo da pandemia nos negócios".